28 fevereiro 2017

O que seria?

O que seria do santo sem o pecador?
Do mocinho, sem o vilão?
Do obediente, sem o insurgente?
De deus, sem o diabo?
Do nobre, sem o vulgar?
Do sono, sem o cansaço?
Do belo, sem o feio?
Da calmaria, sem a tempestade?
Do alívio, sem a dor?
Da igreja, sem a decadência?
Da abstinência, sem a compulsão?
Do silêncio, sem o uivo?
Do perdão, sem o insulto?
Do céu, sem o chão?
Do brilhante, sem o opaco?
Do sensato, sem o louco?
Do caramelo, sem o limão?
Da empolgação, sem o tédio?
Do bendito, sem o maldito?
Do amor, sem a indiferença?
Do sublime, sem o profano?

O que seria do protagonista sem o seu antagonista?

17 fevereiro 2017

Motivos para ficar feliz já

Assisti a um filme chamado “Todas as coisas que brilham”, que conta a história do filho de uma suicida que elabora uma lista com motivos que mostram para sua mãe que a vida é bonita, e vale a pena.
A lista é incrível porque é repleta de itens simples, acessíveis, possíveis. O que me colocou a pensar sobre o tanto de razões que temos para ficar alegres, apesar de tudo. Acabamos tão focados no que está errado, e no que deveria mudar, que não reparamos no quanto a vida nos oferece, todos os dias, através de pequeninas situações.
Alguém já disse que a felicidade real é homeopática. Do mesmo jeito que a tristeza nasce das minúsculas agulhadas do cotidiano – que terminam se transformando em uma ferida enorme e bizarra – a felicidade também nasce dos minúsculos agrados da vida, que afagam e aconchegam, embora a gente não os valorize devidamente.
Rompantes de alegria extrema são legais, mas não garantem uma vida realmente feliz. Contudo, o cara que é capaz de perceber as sutis oferendas gentis do dia a dia, esse cara provavelmente é feliz.
Como eu posso me fazer alegre hoje, agora, neste exato momento?
Eu consigo pensar rapidamente em pelo menos oito coisas recentes que me fizeram sentir-se feliz: um tapete na porta de uma casa escrito “trouxe cerveja?”. Pizza de calabresa com queijo extra. Ler um trecho de um livro do Fausto Wolff em voz alta. Amy Winehouse. Papel de parede listrado. Sábado chuvoso. Estreia de temporada da série favorita. Um bando de passarinhos comendo um pão que alguém jogou na calçada – não sobrou um farelo.
Poderia continuar. Lembrei de várias outras enquanto escrevia sobre estas. E certamente você também se lembrará, se parar para pensar.
Por cinco minutos que seja, ou o tempo de escrever em um papel, liste três coisas bacanas que aconteceram nos últimos três dias. Só não seja tão exigente: não pense em grandes feitos, como encontrar o amor de sua vida, ganhar na loteria ou ir para a Europa. Lembre-se: a felicidade real é homeopática.
Ser feliz é entender que, em se tratando de ser feliz, tamanho não é documento.
Afinal, quem já encontrou a felicidade não a encontrou: a reconheceu.


13 fevereiro 2017

“Você não pode fazer só o que gosta”.

Talvez esta seja uma das primeiras lições que aprendemos, quando, ainda crianças, não queremos tomar remédio ou ir pra escola.
E é verdade: não podemos fazer só o que gostamos.
No entanto, o que não nos ensinaram, talvez por conveniência, é que tampouco podemos fazer só o que NÃO gostamos.
Quanto tempo do seu dia você passa fazendo o que não gosta?

10 fevereiro 2017

03 fevereiro 2017

O nome dele é João

Pouco mais de 24 horas depois de escrever o texto “A Inútil Luta com os Galhos”, que publiquei neste blog dia 30 de janeiro, abordando a grave questão da violência em Carazinho/RS, acordei às 3 horas da manhã com um policial no meio da minha sala.
Ladrões haviam arrombado a porta da garagem (que é de ferro, elétrica), e levaram o rádio do carro, dois botijões de gás e algumas ferramentas.
Este é o segundo assalto que sofremos aqui. A primeira vez, em 2009, o cara pulou um muro de quase três metros, escalou uma parede e entrou pela janela. Às cinco da tarde, enquanto a gente tomava chimarrão na sala. Quando voltamos para o quarto, dois notebooks haviam desaparecido.
Por isso adotamos dois cachorros, reforçamos as fechaduras, colocamos cerca elétrica.
Não demorou e descobrimos que este primeiro ladrão, que aqui chamaremos de João, era um jovem de 19 anos que tinha nada mais, nada menos, do que 56 PASSAGENS PELA POLÍCIA. Usuário de drogas, ladrão, traficante, desajustado, etc. Ele foi assassinado alguns meses depois do assalto, possivelmente em um acerto de contas com outro criminoso.
– Ufa, que bom, bandido tem que morrer mesmo, é um favor pra sociedade, chega a dar um alívio e...
OPS! Só que não, né?
Porque, enquanto João era assassinado, outros 50 Joãos eram gerados, e a prova é que, cá estamos outra vez, quase oito anos depois: apesar dos cachorros, da cerca elétrica e das fechaduras reforçadas. Novamente assaltados dentro de casa.
Agora, vamos fazer o que faz quem se sente acuado: mais cachorros, mais cercas elétricas, mais fechaduras e cadeados.
Afinal, é possível que aconteça um terceiro assalto. Não só é possível, como é provável. O bandido estoura a porta da nossa casa, a polícia estoura a porta da casa do bandido, e neste ciclo sem fim vamos podando os galhos e fortalecendo a árvore da violência, engolindo seus frutos podres e nos aprisionando em nossas próprias residências.
Sou capaz de apostar que, em 2009, na época em que João roubava nossos notebooks e era assassinado, os caras que assaltaram nossa casa nesta semana eram crianças. Molequinhos jogando bola no terreno baldio e pedindo moeda na saída do mercado. Pequeninos que até nos comovem, apesar de não despertarem em nós mais do que alguns segundos de consternação e empatia.
Assim como aconteceu com João, muito em breve estes caras acabarão presos, e depois mortos, e isso é tão certo quanto um terceiro assalto.
E quando isso ocorrer, vamos pensar o quê?  
– Ufa, que bom, bandido tem que morrer mesmo, é um favor pra sociedade, chega a dar um alívio e...
Só que, desta vez, eu não quero ver o bandido morto.
Em 2009, confesso, eu quis. Blasfemei loucamente, disse horrores, fiquei puta dentro das calças, quase explodi minha cabeça de tanta raiva.
Mas desta vez, não. Pois, nestes oito anos que separam o primeiro do segundo assalto, eu consegui entender que matar o bandido não encerra a violência.
Porque os caras que vão assaltar nossa casa amanhã são os molequinhos que hoje jogam bola no terreno baldio e pedem moeda na saída do mercado.
O nome deles é João. :(