30 janeiro 2017

A inútil luta com os galhos

Era sexta-feira, outubro de 2016.
Eu acordei com barulho de sirenes e um helicóptero voando baixo. Estranhei, já que moro em Carazinho, cidade pequena de 60 mil habitantes encravada no norte do Rio Grande do Sul, e não é todo dia que ouvimos sirenes e helicópteros voando baixo.
Levantei, e não demorei a descobrir do que se tratava: era a Operação Avalanche. Um efetivo com mais de 350 policiais baixou em Carazinho naquela manhã, com o objetivo de cumprir cerca de 100 mandados judiciais envolvendo tráfico e homicídio. A cidade foi, literalmente, sitiada. Havia policiais em todas as saídas, monitoramento nas ruas e, claro, sirenes e helicópteros voando baixo.
No final do dia, 36 pessoas haviam sido presas, e a população carazinhense estava eufórica. Não por acaso, já que a violência em nossa cidade cresce a cada ano que passa. Em 2013 foram 7 assassinatos. Em 2016, 31. Em 2017, até o dia 28 de janeiro, cinco pessoas já haviam sido mortas, incluindo um taxista muito querido pela comunidade, de 70 anos.
Logo, policiais derrubando portas e prendendo bandidos era tudo o que os carazinhenses poderiam querer, certo?
Bem, não exatamente.
Porque o que acontece aqui em Carazinho é o que acontece em todo o Brasil: nós aparamos os galhos desta árvore maligna chamada violência, mas jamais arrancamos sua raiz. Raul Seixas disse: “Tem gente que passa a vida inteira travando a inútil luta com os galhos, sem saber que é lá no tronco que está o curinga do baralho”. Essa gente, travando essa luta inútil, somos nós.
E por isso seguimos, dia após dia podando exaustivamente os galhos, enquanto a árvore continua a produzir mais e mais galhos.
É preciso prender os bandidos? Ora, mas é claro que sim! Quem comete um crime precisa pagar, e isso não se discute, porque é óbvio; é lei. No entanto, SÓ prender bandidos não adianta, se seguimos sendo uma sociedade que produz bandidos em escala industrial.
Além de policiamento, reforma carcerária e punição aos criminosos – que são necessidades urgentes, para curto prazo – é preciso criar alternativas para que, daqui cinco, dez, vinte anos, possamos formar mais estudantes do que bandidos. E para tanto, só prender não basta.
A prova é que, pouco mais de três meses depois da Operação Avalanche, efetivamente nada mudou. Foi um dia de bastante espetáculo e pirotecnia, com todas aquelas sirenes e helicópteros voando baixo, mas no fim da noite os 350 policiais foram embora, e tudo seguiu como sempre foi.
E é isso que precisamos entender, enquanto carazinhenses, enquanto brasileiros: do jeito que estamos fazendo, meus amigos, está dando errado. Muito errado. Se não paramos de produzir criminosos, cada vez que prendemos um aparecem cinco para ocupar o seu lugar. Quanto mais podamos os galhos, mais forte e saudável a árvore fica, e seus frutos intoxicados acabaremos engolindo, cedo ou tarde.
Então, vamos pedir mais policiamento nas ruas, mas vamos pedir também melhorias nas escolas, para que os pequeninos de hoje não apontem uma arma pra nossa cabeça (ou a do nosso filho) amanhã.
Que venha o policiamento, mas que venham também empresas capazes de gerar emprego, renda e oportunidade.
Que não falte justiça para as vítimas, mas que também não falte arte, educação e cultura para quem não tem.
Vamos construir presídios, mas também vamos construir escolas, núcleos profissionalizantes, creches, bibliotecas, áreas de lazer.
Vamos limpar as ruas da criminalidade, mas vamos também limpar as praças dos bairros, que estão viradas em uma macega.
Vamos prender os bandidos, mas vamos também impedir que eles se criem.
E isso se faz não somente remediando, mas prevenindo.
Vocês não estão cansados de passar a vida inteira travando essa inútil luta com os galhos?
Eu estou.


26 janeiro 2017

Três semanas.

Foi o tempo que durou a reforma que realizamos aqui no porão – e que, agora, se chama “andar térreo”, e não mais “porão”, haha.
O fato é que, durante três semanas, não consegui sequer chegar até o escritório onde funciona a Editora Os Dez Melhores, já que a editora fica no porão. Ou melhor, no andar térreo.
Foram três semanas imersa em poeira, entulhos e barulho. Muito, muito, muito barulho (vizinhos, nos desculpem, nós amamos vocês!). Três semanas acessando a internet somente do celular (habilidade: zero); três semanas sem responder e-mails, mensagens, sem nem curtir o post do amigo. Até voltei a escrever em um caderninho, pra não perder o fio da meada.
Três longas semanas vivendo em suspensão, totalmente fora da rotina, sem muitas das referências habituais do cotidiano. O que serviu para relembrar o quanto é maluco ser subitamente arrancada da normalidade do dia a dia, seja pelo motivo que for. Como o nosso corpo reage de modo estranho e inesperado quando saímos fora do padrão de vida que costumamos levar.
Uma experiência interessante, rica e etc., mas que, sinceramente, não pretendo repetir tão cedo.
Porque, sabe, eu amo a rotina.
Eu saio correndo desesperadamente atrás dela toda vez que ela me escapa. A rotina mantém, com eficiência, minha sanidade mental, e por isso eu costumo amá-la e preservá-la com dedicação, carinho e cronogramas de trabalho, haha.
Seja bem-vinda de volta, querida rotina!
Três semanas sem você é tempo demais para minha mente em desalinho! 

10 janeiro 2017

O que a Janaína de 32 anos diria para a Janaína de 16?

Eis uma pergunta que já me fiz.
Inclusive imaginei esse encontro insólito entre estas duas Eus: a de ontem, e a de hoje.
O que você diria para você com metade da sua idade?
Eu diria para eu pegar leve, e ir com menos sede ao pote, porque o mundo é um lugar mais perigoso do que aparenta ser. Mas, com 16, eu jamais prestaria atenção neste conselho.
Eu também diria para investir energia e amor somente naquilo que se acredita, e manter-se em pé. Só que, com 18, eu não entenderia esta recomendação, pois nem sabia exatamente no que acreditava, e o que significava ficar em pé.
Talvez a Jana do presente dissesse para a Jana do pretérito que migalhas não matam a fome. Contudo, com 20 anos, eu nunca poderia compreender o que essa frase realmente continha em si.
A verdade é que, nada do que eu com 32 dissesse para eu com 22 serviria para qualquer coisa.
Porque viver é exatamente isso: experimentar. O mel e o fel, a água e o óleo, o paraíso e o pesadelo, o áspero e o macio, o veneno e o antídoto, o amargo, o doce, e finalmente o agridoce.
Sentir na pele que tanto o fogo quanto o gelo podem queimar; conhecer a corrosão do ácido, e o conforto do algodão. Constatar na boca e no estômago que aquilo que adocica também pode intoxicar.
Seríamos sensatos se soubéssemos ouvir conselhos daqueles que já colocaram o dedo na tomada, e tomaram o choque. Mas não somos sensatos. Por razão que me escapa entender, viver consiste em colocar o dedo na tomada, e sentir você mesmo a descarga elétrica.
Só você, e mais ninguém.
Nestes 32 anos de vida eu senti cada choque que tomei – e ainda sinto muito, porque não criei casca e nem me acostumei com a dor. Mas sobrevivi, e sigo sobrevivendo a todos eles, o que me deixa sinceramente orgulhosa.
Nestas três décadas e 24 meses que constituem a minha vida, eu tirei mil lados da mesma moeda: foram dias multicoloridos, pálidos, flamejantes, preto e branco; de sol nascendo e se pondo. De ficar sóbria e embriagada, passear pelo selvagem e pelo inocente, o oito e o oitenta, do altar para a sarjeta, e vice-versa.
Fui santa e fui besta.
Por isso, recentemente tenho imaginado o que a Janaína de 50 anos diria para a de 32. Essa, que eu sou neste exato instante.
Certamente eu, amanhã, terei dezenas de centenas de lições para ensinar pra mim, hoje.
Mas, quer saber?
Não me importa o que a Janaína de 50 tem para dizer para a de 32, do mesmo modo que pouco interessa para a Janaína de 16 o que a de 32 tem para lhe contar sobre a vida, e seus altos e baixos.
Porque, de qualquer maneira, eu vou seguir tomando choque. Vou provando do vinho e do vinagre, do sagrado e do profano, tropeçando, voando, me espreitando, correndo, sussurrando, gritando, rastejando, sentindo; em frente.
Nem pra cima, nem pra baixo.
Só em frente.
Porque, quando eu tiver 50 anos, haverá uma Janaína hipotética com 80 anos, que saberá mais e terá mais experiência, e a mais velha vai querer contar para a mais nova onde se localizam as tomadas que dão o choque mais dolorido. Mas não vai adiantar explicar, porque assim é.
Viver, além de tomar choque, é entender que nunca saberemos tudo o que precisamos saber, e é justamente por isso que vamos em frente, e é justamente isso que devemos fazer.
Tony Bennett disse que a gente aprende a viver quando vive tempo suficiente. E eu sou feliz em afirmar que vivi para aprender a viver. Apesar dos choques, apesar de andar (até hoje!) sobre a linha frágil que separa a sanidade da loucura, eu vivi o bastante para dizer que, a despeito dos pesares, eu sou feliz.
Não estou; eu sou – e isso muda tudo.
E seja com 16, 24, 32, 50 ou 80 anos, certamente não há nada mais que eu possa desejar no dia do meu aniversário.

07 janeiro 2017

Chega logo, 19h!

A formatura da 8ª série aconteceu em 1998. A do 2º grau (hoje Ensino Médio) foi em 2001.
Eu estudei no Colégio São José Notre Dame, de Não-Me-Toque/RS, minha vida inteira, do pré até o fim – saí somente por um ano e meio, entre a 2ª e 3ª série do Ensino Fundamental, porque não aguentava uma professora maluca que gritava o tempo inteiro.
Mas voltei, e de lá não saí mais.
De modo que é impossível falar de mim, da minha vida, e da pessoa que me tornei, sem falar dos muitos anos que passei nos corredores do São José, e de todas as pessoas que, comigo, percorreram este caminho louco, lindo, e por vezes desesperador, haha.
Elas são parte de quem eu fui, de quem eu sou, e certamente de quem eu ainda serei.
Disse tudo isso para que vocês possam compreender o quanto o dia de hoje é importante para mim.
Porque hoje é o 2º encontro da turma, que carinhosamente apelidamos de “Sobreviventes do Colégio São José Notre Dame” (quem estudou lá, vai entender). ;)
Hoje é dia de rever pessoas que não vejo desde 1998.
Desde 2001.
Amigos queridos que seguiram seus caminhos longe de mim, e com os quais praticamente perdi contato.
Hoje é dia de mergulhar de cabeça e olhos fechados em um baú de memórias que não costumo abrir – mas que guardo com todo carinho no lugar mais seguro do meu coração.
Hoje de noite, a partir das 19h, estarei ao lado das pessoas que cruzaram comigo pelos corredores de piso vermelho do Colégio São José, e levaram mijada da Marli, e foram para a diretoria da Irmã Terezinha assinar o mítico “caderninho negro” – três assinaturas e era suspensão.
Pessoas que comeram a pizza da mãe do Marcelão na cantina junto comigo, e também as torradas, e os bolos de chocolate (era um empurra-empurra na hora que tocava o sinal para o recreio, que faria os Black Blocs passarem vergonha, hahaha).
Pessoas que infinitas vezes cantaram comigo o hino nacional, e assistiram os alunos que se dispunham a hastear a bandeira perderem o tempo entre o hino e o ritmo da subida. Ou a bandeira chegava ao topo da haste bem antes do hino acabar, ou bem depois; nunca ao mesmo tempo. E era sempre engraçado, hahahaha.
Vamos relembrar da época em que ficar na esquina fumando um cigarro depois da aula era algo altamente subversivo.
E também do fatídico dia de 2001 em que alguns de nós se formaram “simbolicamente”, porque ainda estavam em recuperação (eu não era um deles, IMAGINA SÓ).
Enfim. Hoje é dia de voltar a um tempo onde tudo era simples, pequeno e bonito, apesar da gente não saber.
Chega logo, 19h!
Tem anos e anos de saudade por aqui para matar!

Foto: Formatura (“simbólica”, para alguns) do 2º Grau. 2001. Me encontre na foto e retire seu prêmio na portaria, hahaha.

02 janeiro 2017

Um texto de réveillon

Já era quase 7h da manhã do dia 1º de janeiro de 2017 quando o último amigo deixou nossa garagem, após a festinha de réveillon. Foi então que eu sentei sozinha no gramado, em frente de casa, e fiquei olhando o céu. O sol já havia nascido, e pintava o horizonte com tons de rosa e laranja. Depois de horas e horas de chuva torrencial (2016 se foi embaixo d’água), 2017 chegava calmo, limpo, silencioso e belo.
Naquele momento, só me ocorreu agradecer a 2016.
Agradecer porque, apesar das agruras da vida, e da loucura coletiva generalizada, e da crise política/econômica/social/individual que assola o Brasil, nós continuamos aqui.
Todos nós; inclusive você, que agora lê este texto.
Estamos vivos; seguimos na atividade. E em tempos tão malucos, isso é um feito e tanto. Afinal, como li recentemente, nós sobrevivemos a 100% de nossos piores dias. Uma conquista da qual devemos nos orgulhar.
Por isso eu disse para 2016, quando ele já havia embarcado na estação que leva ao passado: obrigada.
E sentada ali no gramado, observando o primeiro amanhecer do novo ano, não pude deixar também de saudar 2017.
Seja bem-vindo, eu falei baixinho.
Tenha paciência e seja gentil conosco, ano novo.
Que, apesar da nossa teimosia, das nossas reclamações de barriga cheia, da nossa insolência, você possa pegar leve com a gente – e, principalmente: que a gente consiga pegar leve com você, 2017.
Que tenhamos coragem de ser feliz – porque, sim, é preciso destemor para abraçar a vida com alegria.
Que possamos deitar nossa cabeça no travesseiro e dormir em paz.
Que seja um ano de sossego e silêncio interior – apesar do caos e do barulho aqui fora.
É o que eu desejo para você, e é o que eu desejo para todos que passaram por 2016 junto comigo.
Obrigada, 2016.
Seja bem-vindo, 2017.
Vem mansinho, porque eu tô de boas! ;)