23 junho 2017

A Menina do Vídeo Pornô

Toda vez que um vídeo pornográfico caseiro cai na internet, o que se vê, se ouve e se lê são acusações e xingamentos direcionados exclusivamente para a menina que participa da gravação. Puta. Burra. Vadia. Bem feito pra ela. A garota é escorraçada, crucificada, queimada na fogueira, a ponto de ter de abandonar trabalho, escola, cidade, uma vida toda. Mas para o rapaz, que geralmente foi quem gravou e espalhou o vídeo, silêncio. É como se ele não existisse. Justamente ele, o responsável por expor publicamente, e de forma criminosa e traiçoeira, o vídeo ou as fotos de momentos que deveriam ser rigorosamente íntimos.
A menina que se deixa filmar ou fotografar pode, no máximo, ser acusada de ingênua. Pois acreditou que aquela ocasião seria mantida em sigilo; que seria respeitada pelo companheiro, seja ele seu namorado ou não. Já ele, cometeu um ato criminoso perante a lei, e imoral perante as regras mais básicas de civilidade e respeito ao próximo. Também se mostrou um perfeito idiota; um infeliz que precisa afirmar sua própria masculinidade diante dos outros, e que seria digno de pena, caso não fosse, antes, digno de punição.
Ela é a vítima, e fim. Ela foi enganada; ela foi exposta publicamente. Ela será conhecida, por muito tempo, como ‘a menina do vídeo pornô’. E ela não é ‘a menina do vídeo pornô’. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Muitas são menores de idade, e nem completaram quinze anos ainda. Ela poderia ser sua irmã, sua filha, sua mãe, sua melhor amiga. Ela poderia ser você.
A maneira como a sociedade trata a mulher, vítima de casos como estes, só comprova o quanto somos machistas, preconceituosos, atrasados e conservadores. Repetimos mecanicamente o lugar-comum: ‘ele é homem, está fazendo o seu papel’. ‘Ela deveria se dar ao respeito’. ‘Comedor’. ‘Puta’. E assim vamos fortalecendo a engrenagem que mantém este tipo de crime tolerável.
Toda vez que ofendemos e denegrimos a menina; toda vez que passamos adiante estes vídeos e estas fotos, estamos sendo coniventes. Estamos deixando de punir o culpado para punir a vítima.
Não concorda comigo? Ok. E é por isso que eu espero que crimes assim parem de acontecer imediatamente. Porque quando chegar a sua vez, ou a vez de sua filha, sua irmã, sua mãe, sua melhor amiga, você vai descobrir da pior maneira que ‘aquela menina do vídeo pornô’ é muito mais do que aquela menina do vídeo pornô.