08 maio 2017

Você, o presidente da empresa e o garçom

João é gentil e cortês com o presidente da empresa, pois sabe que se trata de um homem distinto, bem-sucedido, poderoso, e que obviamente está acima dele na pirâmide hierárquica que compõe nossa sociedade. Nesta pirâmide, o presidente da empresa está lá em cima, e João está ali pelo meio. Logo, João se comporta com deferência, e até certa submissão, quando está em sua presença, pois se considera menos importante do que o presidente da empresa.
Mas João não é gentil e cortês com o garçom, pois sabe que o garçom está abaixo dele na tal da pirâmide. Por isso, não há a menor necessidade de tratá-lo com respeito, e nem mesmo com educação. João se considera mais importante do que o garçom.
Eu conheço pessoalmente dezenas de Joãos, homens e mulheres, ricos, pobres, brancos, negros, analfabetos e doutores. E algo que é idêntico em todos é modelar o tratamento que dão ao próximo baseado em quem o próximo é. Gente que se considera genuinamente inferior em relação a alguns, e genuinamente superior em relação a outros. Algo bem perturbador.
Contudo, assim é a sociedade; assim somos nós. Nunca nos sentimos iguais: ou nos achamos inferiores, ou nos achamos superiores. A nossa percepção sobre quem somos diz que o presidente da empresa está acima e o garçom está abaixo, mas a verdade é que não existe em cima e embaixo, só ao lado.
Porque essa pirâmide é imaginária; ela não é real. Nós a forjamos, e colocamos lá em cima quem tem mais grana, poder e influência, e lá embaixo quem não tem. E nesta organização injusta nos ajeitamos ali pelo meio, onde conseguimos lamber o chão onde passa o presidente da empresa, e pisar na cabeça do garçom. Tudo o que sofremos com o primeiro descontamos no segundo.
E o mais curioso é que esta postura submissa/opressiva não tem nada a ver com o outro. O presidente da empresa e o garçom são coadjuvantes nesta história. Esta postura tem a ver com a forma como nos enxergamos. E é aqui, exatamente aqui, que reside o grande problema.
Já passou da hora da gente começar a se perceber como realmente é, ou seja: iguais. O imigrante e o conterrâneo, o mendigo e o patrão, o louco e o sensato, o viciado e o abstêmio, eu, você: todos humanos.
Quando isso acontecer, e esta pirâmide ilusória se desintegrar, certamente seremos mais felizes. Porque, quando paramos de pisar, paramos de ser pisados. Seja você o presidente da empresa ou o garçom.