29 maio 2017

“Hoje em dia não dá pra falar mais nada: tudo é racismo, machismo, preconceito”

Eis a frase mais pronunciada por quem nunca sofreu racismo, machismo e preconceito. E vejam só o drama vivido por estas pobres criaturas: agora elas não podem mais debochar em paz de homossexuais, de negros, de deficientes físicos, de mulheres, de imigrantes, pois sempre haverá um “chato” para reprimi-las, para questioná-las, para constrangê-las. “Agora não dá pra falar nada”, elas reclamam.
Que vida irritante essa do “politicamente correto”, não? Não.
No entanto, por mais que me pareça óbvio que “piadas” que humilham grupos que já são humilhados não são piadas coisa nenhuma, sei que para muitas pessoas é difícil acompanhar o andar da carruagem.
Porque o mundo mudou muito nos últimos anos. De modo que, a maioria dos discursos que nos ensinaram, e que nascemos e crescemos ouvindo e repetindo, simplesmente não fazem mais sentido agora.
Porém, para abrir mão das lições erradas que aprendemos, precisamos primeiro admitir que as lições que aprendemos estão erradas. Um processo de desconstrução íntima que, para alguns, é aterrorizante.
Assim sendo, quando o sujeito se vê diante de uma situação onde suas crenças – pessoais, familiares, políticas – são questionadas e comprovadamente derrubadas, ele tem dois caminhos para seguir: o primeiro, e mais inteligente, é admitir o erro e tentar entender como, onde e por que errou. O segundo é se agarrar na lição errada com unhas, dentes e desespero. A maioria ainda escolhe a segunda opção.  
Afinal, é mais fácil bater o pé e dizer “não importam os dados, os fatos, as estatísticas, a realidade; essa é a MINHA OPINIÃO”, do que reavaliar suas certezas, assumir que errou e mudar de ideia.
Por isso é tão difícil de conversar com algumas pessoas, cujas opiniões seguem enraizadas a preconceitos primitivos, e nenhum argumento é capaz de colocá-las a refletir. São pessoas que não estão dispostas sequer a ouvir o outro lado, e justamente por isso possuem uma visão tão limitada; elas só enxergam a partir de seu minúsculo e deturpado ângulo.
Todavia, para que nossa sociedade melhore, nós precisamos melhorar como indivíduos. Precisamos ter mais compaixão e simpatia na hora de ver o outro.
Fazer piada de grupos que ainda lutam pelos seus direitos civis mais básicos, além de estúpido, endossa o discurso do opressor e agride o oprimido. E é assim que assumimos, também, o papel de opressor.  
Então, se quem é vítima do racismo, do machismo e do preconceito apontar o racismo, o machismo e o preconceito em você, em vez de se ofender e se defender, apenas escute e reflita. 
Porque, acreditem: não nos tornaremos melhores ou menos violentos rindo da dor alheia. Rir do próximo é uma forma de silenciá-lo.
E quem silencia não pode reclamar quando é silenciado.