23 maio 2017

Bruno

Foi assim: há algum tempo o Fernão Duarte me contou que conheceu um menino chamado Bruno, que lhe disse que tomou gosto pela leitura depois de assistir a minha palestra, A Literatura Não é Chata, e ler meu segundo livro, O Túmulo do Ladrão.
De lá pra cá o Bruno já leu mais de 100 livros, e mantém uma estante repleta de títulos em sua casa. Sua média de leitura são 30 livros por ano – goleada sobre a média nacional, que não ultrapassa dois míseros livrinhos por ano.
É claro que não tenho a pretensão de dizer que o Bruno começou a ler por minha causa. Afinal, a semente da leitura já estava ali. O máximo que eu fiz foi dar uma adubada, regar, e feito: nasceu mais um leitor!
De qualquer maneira é um orgulho pra mim. Afinal, quando elaborei a palestra A Literatura Não é Chata, meu objetivo era justamente este: convencer ao menos UM estudante das vantagens e benefícios da leitura. Eu sempre disse, ao final de cada palestra, que, se pelo menos um aluno ali presente desse uma chance para a literatura, então tudo teria valido a pena.
O Bruno é um destes alunos que faz tudo valer a pena. Que resolveu experimentar a literatura, e nunca mais a abandonou. E eu só posso agradecer pela confiança, pelo carinho, e por ele permitir que eu fizesse parte do trampolim que o lançou para este universo mágico e único dos livros, que só quem lê conhece e entende.
Hoje o Bruno é um jovem perigoso: perigoso para um sistema corrupto e falido; perigoso para uma sociedade preconceituosa e violenta; perigoso para todos aqueles que desejam, através da ignorância, conservar o povo subserviente.
Bruno se tornou um cidadão ameaçador para quem não deseja transformar o mundo em um lugar mais pensante e menos triste. Agora ele representa perigo ao status quo.
De minha parte, fico muito feliz por ter ajudado o Bruno a se armar e se municiar contra a estupidez de um país que só lê dois livros por ano, e acredita que cultura é coisa de vagabundo. Um Brasil judiado, intelectualmente inabilitado para perceber que é refém da própria inabilidade intelectual.
Bruno é parte de um exército ainda pequenino e discreto, mas que cresce a cada dia. Um exército de desobedientes, que sabem que não há prisão mais desumana do que aquela que mantém seus presos em cárcere intelectual. Um exército que luta com livros, ao invés de armas.
Um exército que deseja libertar todos os presos intelectuais deste país, e que acredita na intervenção literária e cultural para nos arrancar da poça de lama onde estamos nos afogando.
Bruno, seguimos juntos! 


(Matéria sobre o Bruno e O Túmulo do Ladrão, publicada na coluna DuArt&Cultura, do meu querido Fernão Duarte, na última edição do jornal Correio Regional. Valeu, Fernãozito!)