19 abril 2017

Rebelem-se, garotas!

Eu cresci lendo revistas adolescentes que ensinavam qual maquiagem os meninos gostavam, e qual não gostavam. Revistas e programas de TV que diziam como deveríamos nos comportar, como deveríamos nos vestir, como deveríamos pensar para nos encaixar. As regras eram duras: era preciso ser magra. Ter o cabelo liso, longo, sem volume nem frizz. Ser gentil, doce, meiga e agradável. Não “ser puta”. Não falar alto. Não sentar de pernas abertas. Ser inteligente, mas não muito, para “não assustar os homens”.
Estas revistas ensinavam que nós, garotas, precisávamos nos adaptar, nos modificar – nos mutilar, se preciso fosse! – para sermos aceitas. Para sermos consideradas bonitas. Para fazermos parte. Para existirmos.
E assim eu cresci: alisando meu cabelo crespo, volumoso e com frizz; fazendo dietas malucas; usando camiseta sobre o biquíni; escondendo meu corpo. Odiando-me dia sim e outro também. Tentando desesperadamente ser acolhida pelos padrões. Tentando desesperadamente me ajustar naquilo que os outros – mídia, sociedade, homens – esperavam de mim.
No entanto, num belo dia eu me dei conta de que não precisava me encaixar porra nenhuma. Que estas regras eram cruéis e covardes, além de impossíveis, e me colocavam em guerra com a única pessoa que eu deveria realmente agradar, amar, respeitar e me importar: eu mesma.
Odiar meu corpo, meu rosto, meu cabelo, era justamente o objetivo desta mídia, desta sociedade e desta indústria de beleza doentias, cuja intenção sempre foi fazer eu me sentir mal por ser quem eu era – para que, assim, pudesse gastar rios de dinheiro alisando o cabelo, comprando shakes e remédios emagrecedores, fazendo academia, fazendo plásticas, fazendo compras.
Este sistema desumano e sádico lucra, e muito, com a insatisfação e a infelicidade das mulheres e, através de suas regras bizarras, nos mantêm loucas e domesticadas.
Naomi Wolf, escritora americana, escreveu:
“Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão com a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”.
Um fato.
Os padrões de beleza e comportamento impostos às mulheres não são referentes ao nosso cabelo, nossa roupa, nosso corpo e nossa forma de agir. São referentes à nossa cidadania. Trata-se de um projeto social e político, cujo objetivo é nos conservar permanentemente tristes, desconfortáveis, malucas e caladas, exclusivamente focadas em nos adaptar; em sermos aceitas por ser alguém que não somos. Nem que para isso seja necessário gastar todo nosso dinheiro, nossa saúde, nossa alegria e nossa sanidade mental.
E em um mundo que trabalha arduamente para que a gente odeie nossa própria aparência, se amar, se respeitar, se achar bonita – mesmo que totalmente fora destas regras e destes padrões medonhos – é, sim, um ato de rebeldia.
Então eu convido você, minha querida leitora, a rebelar-se.
Afinal, nem você, nem eu, e nem nenhuma de nós precisa fazer parte deste jogo de cartas marcadas, onde nós, garotas, vamos perder sempre. Não importa o quanto a gente se esforce.
Por isso eu digo ao sistema, à mídia, às revistas, aos homens, à sociedade: tirem suas mãos de mim! De mim, do meu corpo, do meu cabelo, do meu jeito de ser!
Porque eu aprendi a me amar, e uma mulher capaz de se amar é uma mulher capaz de fazer qualquer coisa.