27 abril 2017

O que o jogo Baleia Azul diz sobre nós?

Esta é uma pergunta que deveríamos nos fazer, ao invés de apenas criticar e debochar de uma situação que é, no mínimo, bizarra: crianças e adolescentes mutilando-se e suicidando-se enquanto seus pais dormem tranquilamente no quarto ao lado. 
Nestes últimos dias, vi muitas piadas sobre o jogo Baleia Azul. Também li comentários indignados, chamando estes jovens de burros, bestas, desocupados. “Falta de louça pra lavar”. “Vão capinar um terreno baldio”. “Tem que dar umas bofetadas pra criar vergonha na cara”.
Porém, eu desconfio que o buraco é mais embaixo. Afinal, me parece óbvio que este jogo é mais uma consequência; não é a causa do problema.
Estamos acostumados a focar na sequela, não na origem do mal. Brigamos com os galhos, sempre ignorando o tronco e a raiz. Apenas reagimos e remediamos, nunca prevenimos.
Por isso, é preciso encontrar os criminosos por trás deste jogo, e puni-los severamente. Também é imprescindível promover campanhas para proteger a gurizada. Mas, acima de tudo, devemos nos perguntar: o que o jogo Baleia Azul diz sobre nós?
Nós, sociedade. Nós, humanidade. Nós, seres humanos. O que estamos fazendo de tão errado, para produzirmos tantos jovens emocionalmente desequilibrados, capazes de matar e morrer por um jogo sem sentido?
Os índices de suicídio, em todo o globo terrestre, são alarmantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos – uma a cada 40 segundos. Isto significa que, enquanto você lê este texto, pelo menos dez pessoas tirarão a própria vida. A taxa de suicídio entre jovens, então, é inaceitável. Trata-se da segunda principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos, perdendo apenas para acidentes de trânsito. Tem mais: o suicídio entre crianças de 10 a 14 anos aumentou 40% em dez anos, e 33% entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Neste cenário desolador, um jogo como o Baleia Azul prosperar não é nada tão impressionante, convenhamos.
Mas por que nossos jovens se suicidam? Por que eles preferem morrer, ao invés de fazer planos para o futuro? Por que eles não vislumbram o futuro?
Não encontramos as respostas certas porque fazemos as perguntas erradas. E a prova está na reação que muitas pessoas tiveram ao jogo Baleia Azul: “louça pra lavar”, “capinar terreno baldio”, “bofetadas pra criar vergonha na cara”.
Estes somos nós: inventando soluções simplórias para problemas complexos, como se tudo fosse pá e pum, assim ou assado, preto ou branco, prático, objetivo, superficial, tão simples.
Não, nada é assim tão simples. Se até as bactérias são complexas, amigo, imagina o ser humano! E é justamente por que ignoramos esta complexidade que somos uma sociedade tão doente – que, naturalmente, produz crianças e adolescentes doentes.
A nossa reação ao jogo Baleia Azul mostra por que o jogo Baleia Azul existe.
Afinal, nós realmente acreditamos que as pessoas se suicidam porque não têm louça pra lavar. Afirmamos categoricamente que “umas bofetadas na cara” podem tirar alguém da depressão. Ao invés de acolher o doente, nós queremos que ele vá capinar um terreno baldio.
Não queremos nem saber que 90% dos suicidas sofrem de algum transtorno mental, sendo a depressão o principal deles. Depressão esta que acomete um número cada vez maior de pessoas, e segundo a OMS, aumentou em 18% entre 2005 e 2015, sendo a principal causa de incapacidade laboral no planeta. A estimativa é que, atualmente, mais de 300 milhões de pessoas sofram com a doença no mundo.
Ignoramos todos estes dados. Tratamos a doença como “frescura” e o doente como “folgado”, e depois ainda nos perguntamos, muito confusos: como chegamos até aqui?
O jogo Baleia Azul é perturbador de muitas formas. Mas talvez sua face mais sinistra e sombria seja aquela que reflete a nossa própria face. Porque nós, sociedade, também jogamos um jogo doentio. E perdemos sempre.