05 abril 2017

250 mil

Uma das primeiras lições que aprendemos na faculdade de Publicidade e Propaganda, na qual sou formada, é que não adianta o anúncio prometer o que o anunciante não pode cumprir.
Então, se o anunciante diz que sua loja tem o melhor atendimento da cidade, mas sua loja não tem o melhor atendimento da cidade, não há nada que a agência de publicidade possa fazer. Porque contra fatos não há argumentos. O cliente até pode ir à loja, mas ao perceber que a propaganda mentiu, ele simplesmente irá embora, para nunca mais voltar.
Isso se não ocorrer o efeito “tiro no pé”. Como já definiu William Bernbach: “Uma boa campanha publicitária fará um mau produto fracassar mais rapidamente, pois ela conseguirá que mais pessoas descubram o quanto ele é ruim”.
Deste modo, o dono da loja seria mais honesto, sensato e inteligente se, ao invés de investir em publicidade para dizer que é o que não é, utilizasse este investimento para realmente se tornar o que afirma ser. No caso deste exemplo, promover a capacitação de seus funcionários para melhor atender seu público. Assim, poderia de fato oferecer o melhor atendimento da cidade, ao invés de usar a publicidade para dizer que oferece o que não oferece.
Pois bem.
A Câmara de Vereadores de Carazinho, que segue entre as dez que mais gastam em diária no estado, aprovou na noite da última segunda-feira, por sete votos a cinco, que 250 mil reais (que seriam utilizados para a construção de uma nova célula no aterro sanitário) sejam destinados para publicidade, com a justificativa de “divulgar o município” e “atrair investimentos”.
Ok. Eu, como publicitária, obviamente conheço e reconheço a importância da publicidade; ela continua sendo a alma (e a arma) de qualquer negócio. Contudo, como publicitária também sei que nenhuma propaganda é capaz de ser maior do que a realidade.
E a realidade é a seguinte: Carazinho tá na pior, e não é de hoje.
Desemprego, índices de criminalidade alarmantes, pouco policiamento, escolas sucateadas, bairros abandonados, ruas esburacadas, calçadas imundas, saúde caótica, empresas fechando as portas.
Neste cenário desolador, eu pergunto: propaganda pra quê? Pra quem? Pra dizer o quê? Sobre o quê?
Não consigo compreender de que maneira investir 250 mil reais em publicidade pode beneficiar os carazinhenses neste momento, ou como pode colaborar para resolver alguns, dos vários problemas que judiam de nossa cidade.
Se o dono da loja quer investir seu dinheiro em publicidade para dizer que é o que não é, por mim tudo bem. O dinheiro é dele, e se ele quiser desperdiçá-lo em propaganda enganosa, que seja feita a sua vontade.
Mas estes 250 mil são dinheiro público! É meu, é seu, é nosso! E o povo foi contra. Não queria destinar 250 mil do seu suado dinheirinho para propaganda. Tanto, que lotou a Câmara de Vereadores pedindo que o projeto não fosse aprovado – e como geralmente acontece, foi sumariamente ignorado. Houve um vereador que até boca bateu com um cidadão que lá se encontrava.
É revoltante.
Revolta ver a maneira como nossos governantes e representantes tratam nosso dinheiro; como ignoram nossos desejos e necessidades; como utilizam o cargo para o qual foram eleitos para se promover, e só.
Ademais, em uma situação de crise generalizada como a que vivemos hoje – não só em Carazinho, mas em todo o Brasil – é redondamente estúpido investir tanto em propaganda. Apesar de ser publicitária, tenho consciência de que publicidade é supérfluo. Qualquer empresário meia-boca sabe que, na crise, corta-se o dispensável.
E uma cidade pode viver sem publicidade; mas não sem segurança, sem saúde, sem educação.   
Talvez alguns dirão que os muitos problemas de Carazinho não são responsabilidade da atual gestão, que entrou em janeiro deste ano, e mal teve tempo para fazer qualquer coisa pela cidade.
Concordo.
Mas justamente por que mal tiveram tempo de fazer qualquer coisa pela cidade, eu repito minha pergunta: querem anunciar o quê? Pra quem? Pra dizer o quê? Sobre o quê?
Tal e qual acontece com o dono da loja, seria mais honesto, sensato e inteligente se o governo de Carazinho, ao invés de investir em publicidade para dizer que é o que não é, utilizasse este investimento para realmente se tornar o que afirma ser.
Pois, como já disse um cara chamado Benjamin Franklin: “Bem feito é melhor que bem dito”.