03 março 2017

Queria

Queria ter uma religião e acreditar em santos e livros sagrados.
Queria um símbolo para idolatrar, um partido para me filiar, uma sigla para vestir, uma bandeira para hastear no quintal.
Queria falar da novela, odiar o vilão, torcer entusiasticamente pelo mocinho.
Queria ter fé no amor romântico, e nas palavras do Papa.
Queria uma ideologia pela qual morrer, e queria ter certeza pelo que morreria.
Eu queria acreditar no que diz a TV, o jornal, a previsão do tempo, a bula do remédio.
Queria confiar que o colete salva-vidas pode realmente evitar que a gente afunde.
Queria tomar banho de sol no verão sem medo de me queimar.
Queria dividir o mundo em rótulos, classificar pessoas e sentimentos em ordem alfabética; ignorar o início e o meio, me focar só nos fins. Queria ter respostas para todas as perguntas, e publicá-las na internet.
Queria acreditar no médico e no astrólogo.
Eu queria o preto ou o branco, a esquerda ou a direita, aqui ou aí, do meu lado ou contra mim.
Queria fazer listas de compras e de resoluções de ano novo, e me cadastrar em promoções, instituições, premiações, congregações, associações, fundações.
Queria respeitar e temer a autoridade.
Queria chamar meu cachorro de filho, e queria ter filhos para chamá-los de príncipe e princesa e pequeninos de mamãe.
Queria confiar na lei, na justiça, no político, na polícia, no segurança do shopping. E crer em fórmulas mágicas, receitas prontas, pague e pegue, pague e leve, pague e suma.
Queria participar de reuniões e acreditar em reuniões e agendar reuniões e me esbaldar com reuniões.
Queria ser enganada e feliz.
Queria jogar o jogo, e entender suas regras. Mover as peças com destreza, ser movida sem culpa e sem objetivos, somente uma peça no tabuleiro.
Queria pagar em dia as 10 prestações sem juros, trocar o sofá de lugar, mudar a cor da parede, o corte do cabelo, acreditar que isso é o suficiente.
Queria comer grãos integrais, proteínas e batata-doce, e prestar continência, dizer amém, sim senhor, com certeza. Eu concordo.
Queria entender de ciúme e patriotismo, e sentir medo de falar alto, medo de fazer perguntas muito difíceis, medo de não ser convidada, medo de parecer burra ou inteligente demais, medo de ter medo, medo só de falar!
Queria saber implorar, e conversar manso e baixinho para não incomodar quem está dormindo.
Queria acreditar que Elvis não morreu, que a guerra faz sentido, que a gravata não sufoca, que tudo o que eu sei é tudo o que existe no universo.
Queria escrever uma história de amor com palavras fáceis de entender e gosto de mamão, açúcar e “viveram felizes para sempre, fim”!
Queria trocar as horas que constituem minha vida por pão e dinheiro.
Queria manter minha coluna ereta e a cabeça baixa, em sinal de obediência.
Queria rir das piadas; fazer parte do time da escola e da coluna social; deixar a TV ligada para não ver meu reflexo ali.
Queria acreditar em promessas, em propagandas, em candidatos, em vendedores de carro, em pastores e padres e líderes. Acreditar em homens engravatados, em cientistas, em livros de História. Queria crer cegamente na Lei de Talião.
Queria comprar um quadro que eu não entendo, ter coisas de que não preciso, comer uma comida que eu não gosto e sorrir.
Queria caminhar por aí como quem sabe para onde vai.

E, acima de tudo, eu queria querer tudo isso.
Mas não quero e, sinceramente, está tudo bem. ;)