10 março 2017

10 anos para um homem de 80 é pouco mais de 10% de sua vida.

10 anos para uma criança de 10 é 100% de sua vida.
10 anos para um cachorro é muito; para uma tartaruga, pouco.
Para o calendário, uma década. Para a História, uma minúscula partícula de tempo.
10 anos, pra quem chora, é uma eternidade; pra quem ri, passa voando.
Pra mim, 10 anos são mais ou menos 33% da minha vida. Bastante tempo, convenhamos. E nesta semana, mais precisamente no emblemático dia 8 de março, completou-se 10 anos de um acontecimento que mudou o rumo de tudo por aqui.
Dia 8 de março fez 10 anos que eu e o Cavanhas decidimos subir no mesmo lado do ring e lutar juntos; abrir os atalhos em parceria, aguentar os trancos se apoiando um no outro, nadar contra a maré na mesma direção. Duas cabeças pensam melhor que uma, e quatro mãos são mais eficientes que duas.
E apesar de 10 anos representarem um terço da minha vida, posso dizer que não vi esse tempo todo passar. E não vi, porque foram 10 anos de mansidão e quietude – embora o ring, as lutas, os trancos e a maré.
Nunca vou esquecer. Na primeira vez que saímos juntos, o Cavanhas citou uma frase de Pierre-Joseph Proudhon, dizendo ser seu mantra:
“Aquele que colocar as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo”.
Lembro de ter pensado na ocasião: será?
Será que esse cara não está fazendo um tipo?
Será que não está tentando posar de legalzão, e daqui a pouco vai encher o meu saco porque coloquei uma saia ou cumprimentei um amigo, como todos antes dele fizeram?
Será que ele tem consciência de que, se eu não posso colocar minhas mãos sobre ele para governá-lo, ele também não pode colocar suas mãos sobre mim para me governar?
Por que, olha: eu nunca acreditei no conceito de relacionamento que vigora por aí. Sempre achei meio absurda a ideia de que casar é como ir pra cadeia ou para o matadouro, ou como ser contido, proibido, capturado, amordaçado, enlaçado. Relações baseadas em autoridade, onde um manda e o outro obedece, onde um fisga enquanto o outro é fisgado, nunca me pareceram inteligentes, e muito menos divertidas.
De ciúme então, nunca entendi, e tive de fato problemas com ex-namorados, que faziam beiço e reclamavam que eu não os amava porque não tinha ciúme.
“Como assim?”, eu pensava injuriada. Era justamente por que eu gostava – e consequentemente confiava e respeitava seus espaços – que eu não tinha ciúme.  
Eles nunca entenderam porra nenhuma do que eu dizia, e eu conjecturava com meus botões: fodam-se então.
Não vim ao mundo pra usar cabresto, e se era para viver como um cachorro amarrado no poste, a coleira curta que não alcança nem o portão, tendo de dar satisfações sobre tudo o que eu faço e penso e visto e sinto – regalia que não concedo nem para o meu pai, que trocou minhas fraldas sujas, me alimentou, me aguentou na adolescência, e até pagou minha faculdade – então que eu fique só. Melhor só, do que acompanhada por alguém que não acredita em mim.
Logo, conhecer o Cavanhas, com todo aquele papo libertário, realmente me encafifou. Em um mundo onde o ciúme é tratado como prova de amor, só podia ser pegadinha do Faustão.
Mas não era.
Não é.
10 anos transcorreram, e em nenhum destes 3.650 dias duvidamos da palavra um do outro.
Contudo, não se iluda, amigo leitor, pensando que somos almas gêmeas, porque não somos, assim como não nos completamos, porque sempre fomos inteiros. Apenas resolvemos que seria uma boa ideia ir junto, ao invés de separados.
Sei que sou sortuda por encontrar alguém que vê o amor como eu: com respeito à individualidade do outro, e a todo seu universo particular gigante e complexo. Sou sortuda por encontrar alguém que precisa de liberdade mais até do que precisa de ar, de água, de pão, de amor. Tal e qual eu.
Alguém que sabe que não se pode ser feliz sem ser livre. Não se pode ser feliz quando alguém coloca as mãos sobre você, e tenta lhe governar. Afinal, quem faz isso é um ditador, um tirano, e devemos declará-lo nosso inimigo.
10 anos ao lado de um inimigo deve ser tempo pra caramba.
Mas 10 anos ao lado de um amigo, de um cúmplice, de um aliado, passa voando.
Por isso eu sei que, daqui 10 anos, vou escrever um novo texto, contando sobre como metade da minha vida passou sem que eu pudesse sequer perceber. 

2007.