23 junho 2017

A Menina do Vídeo Pornô

Toda vez que um vídeo pornográfico caseiro cai na internet, o que se vê, se ouve e se lê são acusações e xingamentos direcionados exclusivamente para a menina que participa da gravação. Puta. Burra. Vadia. Bem feito pra ela. A garota é escorraçada, crucificada, queimada na fogueira, a ponto de ter de abandonar trabalho, escola, cidade, uma vida toda. Mas para o rapaz, que geralmente foi quem gravou e espalhou o vídeo, silêncio. É como se ele não existisse. Justamente ele, o responsável por expor publicamente, e de forma criminosa e traiçoeira, o vídeo ou as fotos de momentos que deveriam ser rigorosamente íntimos.
A menina que se deixa filmar ou fotografar pode, no máximo, ser acusada de ingênua. Pois acreditou que aquela ocasião seria mantida em sigilo; que seria respeitada pelo companheiro, seja ele seu namorado ou não. Já ele, cometeu um ato criminoso perante a lei, e imoral perante as regras mais básicas de civilidade e respeito ao próximo. Também se mostrou um perfeito idiota; um infeliz que precisa afirmar sua própria masculinidade diante dos outros, e que seria digno de pena, caso não fosse, antes, digno de punição.
Ela é a vítima, e fim. Ela foi enganada; ela foi exposta publicamente. Ela será conhecida, por muito tempo, como ‘a menina do vídeo pornô’. E ela não é ‘a menina do vídeo pornô’. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Muitas são menores de idade, e nem completaram quinze anos ainda. Ela poderia ser sua irmã, sua filha, sua mãe, sua melhor amiga. Ela poderia ser você.
A maneira como a sociedade trata a mulher, vítima de casos como estes, só comprova o quanto somos machistas, preconceituosos, atrasados e conservadores. Repetimos mecanicamente o lugar-comum: ‘ele é homem, está fazendo o seu papel’. ‘Ela deveria se dar ao respeito’. ‘Comedor’. ‘Puta’. E assim vamos fortalecendo a engrenagem que mantém este tipo de crime tolerável.
Toda vez que ofendemos e denegrimos a menina; toda vez que passamos adiante estes vídeos e estas fotos, estamos sendo coniventes. Estamos deixando de punir o culpado para punir a vítima.
Não concorda comigo? Ok. E é por isso que eu espero que crimes assim parem de acontecer imediatamente. Porque quando chegar a sua vez, ou a vez de sua filha, sua irmã, sua mãe, sua melhor amiga, você vai descobrir da pior maneira que ‘aquela menina do vídeo pornô’ é muito mais do que aquela menina do vídeo pornô.

16 junho 2017

Amanhã o refugiado pode ser você

Imagine você: o Brasil entra em guerra. De uma hora para outra, explosões e rajadas de tiros se tornam rotina em sua rua, em sua cidade, em seu estado, em seu país. Cidades inteiras são devastadas, mulheres são estupradas, crianças são assassinadas. Milhares morrem. Não demora, e começa a faltar água, comida, energia elétrica. A vida aqui se torna insustentável.
O que você faria?
Provavelmente o mesmo que eu, e o mesmo que estes milhões de refugiados sírios, senegaleses, haitianos estão fazendo: você iria fugir. Pegaria uma mala, algumas roupas, o que sobrou de sua família, e daria o fora. Caminhando, correndo, de barco, de carro, em cima de uma mula. Pouco importa. O que interessa é sair daqui.
Agora imagine que, neste contexto, nós, brasileiros, chegamos a outro país, cuja guerra não é realidade. Estamos humilhados, machucados, sujos, exaustos, famintos. Nossas crianças e nossos idosos, idem. E ao invés de sermos acolhidos, como os seres humanos que somos, fôssemos maltratados, xingados, intimidados. Proibidos de entrar.
Desculpem, mas isso não cabe na minha cabeça. Não consigo entender, e muito menos aceitar, que estas pessoas sejam tratadas como escória, como se fossem uma praga a ser exterminada – e não como seres humanos fugindo da guerra, da morte, da fome. “Mas isto causará um forte impacto econômico nos países que receberem estes refugiados”, dirão os teóricos. E sabe o que eu respondo aos teóricos? FODA-SE o impacto econômico. Estamos falando de mais de 60 milhões de pessoas expulsas de suas casas em todo o mundo, e que não virarão fumaça e se dissiparão no ar só por que a economia precisa continuar crescendo. São pessoas que precisam de abrigo, de amparo, de um pouco de segurança, de um prato de sopa e um copo de água.
Se a solução não é acolher, qual é a solução? Incinerá-las numa fogueira, para que suas presenças não atrapalhem nossa vida confortável e feliz?
No entanto, devo dizer: não fico surpresa com o tratamento que dispensamos aos refugiados. Nós, em nossas casas seguras e quentinhas, deitados no sofá assistindo Netflix de barriga cheia, gostamos de apontar o dedo aos miseráveis, aos necessitados, aos famintos, aos viciados, aos excluídos, e julgá-los severamente.
Agimos como trogloditas, ao mesmo tempo em que vamos à igreja, lemos a bíblia, e postamos frases fofas no Facebook.
Que esta crise global dos refugiados sirva para que nos reavaliemos enquanto sociedade dita cristã. Enquanto indivíduo dito cristão. E, se não cristão, ao menos civilizado. Que sirva para nos fazer entender que já passou da hora de aprendermos a nos colocar no lugar do outro, e vê-lo com olhos mais generosos e amigos. Já passou da hora de olharmos as outras pessoas como pessoas, e perceber que o bem-estar delas é tão importante quanto o nosso bem-estar. Chega de dois pesos e duas medidas.
Até por que, o jogo vira, meus amigos.
Hoje são os sírios, os senegaleses, os haitianos; amanhã poderá ser os americanos, os japoneses, os europeus. Amanhã poderá ser nós, brasileiros. E eu acho que, em uma situação assim, você não iria querer ser recebido com hostilidade por quem, em condição melhor, poderia realmente auxiliar.
Ajudar é sempre melhor do que ser ajudado, e neste momento nós podemos ajudar. Que assim seja, então.

14 junho 2017

Renan.


Esta foto foi tirada em 2007/2008, e este cara que está comigo se chama Renan Soso.
Eu o conheci em 2002, quando entrei para a faculdade, e desde então ele se tornou alguém fundamental na minha vida. Simplesmente não consigo imaginar quem eu seria sem ele. Estudamos juntos por cinco anos, trabalhamos juntos por um ano, fomos vizinhos por dois anos. Ele esteve presente na minha vida de diferentes formas, e estava lá nos momentos mais coloridos, e também nos mais pálidos e sem cor.
Até o dia em que ele foi embora para Porto Alegre.
Contudo, sua presença segue viva, firme e forte na minha vida. Afinal, ele faz parte da pessoa que eu me tornei. Ele está nas minhas conquistas, no meu trabalho, na minha literatura. Ele está nas decisões que eu tomo, nos caminhos que eu percorro. Ele está na minha saudade, no meu coração, nos meus pensamentos, na minha memória. Ele está em mim.
E hoje o Renan faz aniversário. Por isso escrevo este texto, para dizer para ele o que ele já está careca de saber: eu o amo de tantas maneiras, que fica difícil explicar em palavras pagãs.
O Renan mudou para Porto Alegre, depois para Caxias do Sul, casou, tem uma filha linda chamada Cecília. Não somos mais vizinhos, não trabalhamos e nem estudamos mais juntos.
Mas quando a gente se encontra, é como nesta foto.
É como em 2002, em 2007, é como sempre foi. Apesar da distância; apesar da gente conversar muito menos do que eu gostaria e precisaria; apesar da saudade imensa e dolorida; nada, nada, NADA mudou.
Quando a gente se encontra, voltamos para esta foto, para este apartamento, para esta época querida em que tudo era tão simples, miúdo e belo.
O orgulho que sinto de ti, Renanzito, é do tamanho do ser humano que você é. Você é gigante, e eu só posso agradecer ao universo por ter a honra de contar com a tua presença na minha vida, todos os dias, de todas as formas.
Te amo, irmão.
Feliz aniversário!


08 junho 2017

Jornada Nacional de Literatura para quem quiser

Eu sempre tive restrições com a Jornada Nacional de Literatura, e a principal delas era o preço. As inscrições sempre estiveram além, muito além das minhas possibilidades. E assim como eu, obviamente centenas de outras pessoas também não tinham grana para participar. Por conta do preço do ingresso, a Jornada terminava por elitizar seu público, e para mim tudo o que elitiza e exclui é ruim.
Para piorar, além dos valores nada camaradas das inscrições, a Jornada ainda recebia uma boa grana do governo, tanto municipal, quanto estadual e federal. Em 2009 foram 1,1 milhões de reais. Em 2015 a Jornada precisava de meros 3,5 milhões, valor este que não foi obtido, o que gerou o cancelamento e a saída de Tania Rösing do comando da Jornada – cargo que ela ocupava desde sempre.
Muita gente chorou e lamentou o cancelamento, mas eu não. Afinal, a Jornada não havia sido extinta para sempre, e segundo diziam, seria remodelada para se tornar mais “acessível”.
“Acessível”, esta é a palavra que abre portas e mentes! Fiquei feliz com o discurso, mas sempre com aquela pulga atrás da orelha, já que falar é bem mais fácil do que fazer.
No entanto, recentemente divulgaram os valores das inscrições para a 16ª Jornada, que acontece entre 02 e 06 de outubro deste ano. O pacote mais caro custa R$150, e inclui todas as atividades. O mais barato custa R$100, e alunos e professores da UPF têm 50% de desconto.
Ainda achou caro? Então saiba que, em 2009, há longínquos oito anos, o valor da inscrição era R$130. Sendo que, naquela época, o salário mínimo não alcançava R$500. Não é preciso ser um economista para entender que a Jornada não era para quem queria, mas para quem podia.
Significa que melhorou. É o ideal? Não. Está tudo perfeito e maravilhoso? Não. Eu ainda sonho com o dia em que Jornadas de Literatura custarão quase nada, e quiçá serão gratuitas.
Mas baseio meus anseios na realidade, e sei que o mundo não muda em um piscar de olhos, no apertar de um botão, no estalar de um dedo. O importante é que, de 2009 para 2017, melhorou um pouco, o que já é incrível, uma vez que tantas outras coisas pioraram tanto de lá pra cá.
A arte, a cultura, a literatura precisam se tornar cada vez mais acessíveis. Não podem ser privilégio de meia dúzia. E para que isso aconteça, precisamos levar a arte, a cultura e a literatura até quem quer, mesmo que não possa.

29 maio 2017

“Hoje em dia não dá pra falar mais nada: tudo é racismo, machismo, preconceito”

Eis a frase mais pronunciada por quem nunca sofreu racismo, machismo e preconceito. E vejam só o drama vivido por estas pobres criaturas: agora elas não podem mais debochar em paz de homossexuais, de negros, de deficientes físicos, de mulheres, de imigrantes, pois sempre haverá um “chato” para reprimi-las, para questioná-las, para constrangê-las. “Agora não dá pra falar nada”, elas reclamam.
Que vida irritante essa do “politicamente correto”, não? Não.
No entanto, por mais que me pareça óbvio que “piadas” que humilham grupos que já são humilhados não são piadas coisa nenhuma, sei que para muitas pessoas é difícil acompanhar o andar da carruagem.
Porque o mundo mudou muito nos últimos anos. De modo que, a maioria dos discursos que nos ensinaram, e que nascemos e crescemos ouvindo e repetindo, simplesmente não fazem mais sentido agora.
Porém, para abrir mão das lições erradas que aprendemos, precisamos primeiro admitir que as lições que aprendemos estão erradas. Um processo de desconstrução íntima que, para alguns, é aterrorizante.
Assim sendo, quando o sujeito se vê diante de uma situação onde suas crenças – pessoais, familiares, políticas – são questionadas e comprovadamente derrubadas, ele tem dois caminhos para seguir: o primeiro, e mais inteligente, é admitir o erro e tentar entender como, onde e por que errou. O segundo é se agarrar na lição errada com unhas, dentes e desespero. A maioria ainda escolhe a segunda opção.  
Afinal, é mais fácil bater o pé e dizer “não importam os dados, os fatos, as estatísticas, a realidade; essa é a MINHA OPINIÃO”, do que reavaliar suas certezas, assumir que errou e mudar de ideia.
Por isso é tão difícil de conversar com algumas pessoas, cujas opiniões seguem enraizadas a preconceitos primitivos, e nenhum argumento é capaz de colocá-las a refletir. São pessoas que não estão dispostas sequer a ouvir o outro lado, e justamente por isso possuem uma visão tão limitada; elas só enxergam a partir de seu minúsculo e deturpado ângulo.
Todavia, para que nossa sociedade melhore, nós precisamos melhorar como indivíduos. Precisamos ter mais compaixão e simpatia na hora de ver o outro.
Fazer piada de grupos que ainda lutam pelos seus direitos civis mais básicos, além de estúpido, endossa o discurso do opressor e agride o oprimido. E é assim que assumimos, também, o papel de opressor.  
Então, se quem é vítima do racismo, do machismo e do preconceito apontar o racismo, o machismo e o preconceito em você, em vez de se ofender e se defender, apenas escute e reflita. 
Porque, acreditem: não nos tornaremos melhores ou menos violentos rindo da dor alheia. Rir do próximo é uma forma de silenciá-lo.
E quem silencia não pode reclamar quando é silenciado.

23 maio 2017

Bruno

Foi assim: há algum tempo o Fernão Duarte me contou que conheceu um menino chamado Bruno, que lhe disse que tomou gosto pela leitura depois de assistir a minha palestra, A Literatura Não é Chata, e ler meu segundo livro, O Túmulo do Ladrão.
De lá pra cá o Bruno já leu mais de 100 livros, e mantém uma estante repleta de títulos em sua casa. Sua média de leitura são 30 livros por ano – goleada sobre a média nacional, que não ultrapassa dois míseros livrinhos por ano.
É claro que não tenho a pretensão de dizer que o Bruno começou a ler por minha causa. Afinal, a semente da leitura já estava ali. O máximo que eu fiz foi dar uma adubada, regar, e feito: nasceu mais um leitor!
De qualquer maneira é um orgulho pra mim. Afinal, quando elaborei a palestra A Literatura Não é Chata, meu objetivo era justamente este: convencer ao menos UM estudante das vantagens e benefícios da leitura. Eu sempre disse, ao final de cada palestra, que, se pelo menos um aluno ali presente desse uma chance para a literatura, então tudo teria valido a pena.
O Bruno é um destes alunos que faz tudo valer a pena. Que resolveu experimentar a literatura, e nunca mais a abandonou. E eu só posso agradecer pela confiança, pelo carinho, e por ele permitir que eu fizesse parte do trampolim que o lançou para este universo mágico e único dos livros, que só quem lê conhece e entende.
Hoje o Bruno é um jovem perigoso: perigoso para um sistema corrupto e falido; perigoso para uma sociedade preconceituosa e violenta; perigoso para todos aqueles que desejam, através da ignorância, conservar o povo subserviente.
Bruno se tornou um cidadão ameaçador para quem não deseja transformar o mundo em um lugar mais pensante e menos triste. Agora ele representa perigo ao status quo.
De minha parte, fico muito feliz por ter ajudado o Bruno a se armar e se municiar contra a estupidez de um país que só lê dois livros por ano, e acredita que cultura é coisa de vagabundo. Um Brasil judiado, intelectualmente inabilitado para perceber que é refém da própria inabilidade intelectual.
Bruno é parte de um exército ainda pequenino e discreto, mas que cresce a cada dia. Um exército de desobedientes, que sabem que não há prisão mais desumana do que aquela que mantém seus presos em cárcere intelectual. Um exército que luta com livros, ao invés de armas.
Um exército que deseja libertar todos os presos intelectuais deste país, e que acredita na intervenção literária e cultural para nos arrancar da poça de lama onde estamos nos afogando.
Bruno, seguimos juntos! 


(Matéria sobre o Bruno e O Túmulo do Ladrão, publicada na coluna DuArt&Cultura, do meu querido Fernão Duarte, na última edição do jornal Correio Regional. Valeu, Fernãozito!)

15 maio 2017

Perto da minha casa tem uma pracinha.

Pequenina, um charme só. Porém, esta pracinha sempre esteve descuidada e desamparada: grama alta, bancos demolidos, pouca iluminação, sujeira. Não demorou, virou ponto de bebedeira e uso de drogas. Ao entardecer, os moradores, vizinhos da praça, somente observavam a movimentação estranha através de suas cortinas e grades.
Até que, cansados da situação, os vizinhos decidiram se reunir, se mobilizar e tomar uma atitude. Então limparam a praça, trocaram a luz do poste, cortaram a grama, consertaram e pintaram os bancos, colocaram um balanço e um escorregador. Sem contar a geladeira cultural, que já está cheia de livros.
Resultado: revitalização. De ponto de drogas a ponto de encontro em poucas semanas. Estes dias passei por ali (algo que não costumava fazer antes, admito), e vi uma mãe sentada com seu filho pequeno, de uns quatro anos, lendo um livrinho. Quase chorei. Minto: eu chorei. Porque estava vendo, com estes olhos que a terra há de comer, como pequenas atitudes podem mudar o mundo inteiro.
O Brasil precisa se revitalizar como esta pracinha. E esta revitalização, tal e qual aconteceu com a pracinha, passa pela mudança e mobilização das pessoas que ali vivem. Os moradores poderiam continuar trancados em casa depois das 18h, reclamando dos viciados, da sujeira, do governo, da vida, de Deus. Mas decidiram levantar suas bundinhas do sofá e tomar uma atitude.
Esta pracinha não é a primeira a ser revitalizada por seus vizinhos em Carazinho, e tenho certeza que não será a última. Porque, vagarosamente, estamos compreendendo que a cidade onde moramos é nossa, minha e tua, e toda vez que a agredimos e a negligenciamos, estamos agredindo e negligenciando nosso próprio lar – como quem cospe no prato no qual come. Esta compreensão transforma o cenário de uma pracinha, mas transforma também o cenário de todo um país.
Mais do que criticar nossos governantes – e nós devemos criticá-los, claro! – devemos também assumir nossa responsabilidade por este Brasil judiado que habitamos. A pátria amada está ferida e a culpa também é minha. E tua.
É óbvio que o governo deveria cuidar do país, e é óbvio que a prefeitura deveria cuidar das nossas praças. Fazer pelo menos o mínimo, como manter a grama cortada e os postes de luz ligados. Isso muda tudo e custa quase nada. Mas não, eles não fazem. E se nossos governantes não fazem, precisamos cobrá-los, mas precisamos também fazer. Caso contrário, seremos exatamente como eles.
Porém, se você acha que revitalizar uma pracinha não ajuda a revitalizar um país, pense comigo: quão diferente seria nossa realidade se todas as pracinhas de todos os bairros de todas as cidades de todo o Brasil estivessem bonitas e atrativas?
A mudança sempre parte do indivíduo para o coletivo; vem de baixo para cima, de dentro para fora. Não se revitaliza uma pracinha sem o apoio de cada pessoa que vive ali. Imagina um país.

Foto: a pracinha perto da minha casa. Por Alessandro Finger. 

09 maio 2017

"O Túmulo do Ladrão": 4 anos!


Hoje completam quatro anos do lançamento do meu 2º livro, O Túmulo do Ladrão, publicado pela Editora Multifoco e editado pelo meu querido Frodo Oliveira.
Há quatro anos eu morava em Sananduva/RS, e realizei o lançamento na Casa da Cultura Prefeito Hilário Copatti durante o Dia Literário. Foi a primeira vez que eu ministrei a palestra “A Literatura Não é Chata”, que depois repeti inúmeras vezes, em inúmeras escolas. E também foi a primeira vez que realizei uma oficina com estudantes, e os textos elaborados por eles neste dia se transformaram no livro Conte um Conto Vol. II, lançado em 2014.
Ou seja: o dia 9 de maio é um dia muito importante para mim.
Obrigada Silvia Regina Tartari Neves e sua trupe incrível da Casa da Cultura, e aos amigos mais que especiais do Colégio Estadual Sananduva, por abrirem suas portas e me deixarem entrar.
Obrigada ao Frodo Oliveira e a galera da Editora Multifoco, que sempre confiaram e apostaram no meu trampo.
Obrigada ao Mario Cau, grande amigo e grande artista, responsável pela ilustração (foda) de capa d’O Túmulo do Ladrão.
Obrigada ao Afobório, meu parceiro e cúmplice, pelo apoio e sustentação, e aos meus pais, que são apenas os pais mais sensacionais do sistema solar.
Obrigada também ao Leandro Becker, meu primo, meu amigo e meu sócio nos empreendimentos Gatos Contra-Atacam (hahaha), que prefaciou lindamente O Túmulo do Ladrão.
Não, não parece que foi ontem. Parece que foi há quatro anos mesmo.
E tudo o que aconteceu entre o dia 9 de maio de 2013 e o dia 9 de maio de 2017 – e foram tantas coisas legais! – eu devo a vocês, amigos, que sempre estiveram ao meu lado, me empurrando pra frente, me dizendo: VAI!
Eu e O Túmulo do Ladrão não estaríamos aqui sem vocês!



08 maio 2017

Você, o presidente da empresa e o garçom

João é gentil e cortês com o presidente da empresa, pois sabe que se trata de um homem distinto, bem-sucedido, poderoso, e que obviamente está acima dele na pirâmide hierárquica que compõe nossa sociedade. Nesta pirâmide, o presidente da empresa está lá em cima, e João está ali pelo meio. Logo, João se comporta com deferência, e até certa submissão, quando está em sua presença, pois se considera menos importante do que o presidente da empresa.
Mas João não é gentil e cortês com o garçom, pois sabe que o garçom está abaixo dele na tal da pirâmide. Por isso, não há a menor necessidade de tratá-lo com respeito, e nem mesmo com educação. João se considera mais importante do que o garçom.
Eu conheço pessoalmente dezenas de Joãos, homens e mulheres, ricos, pobres, brancos, negros, analfabetos e doutores. E algo que é idêntico em todos é modelar o tratamento que dão ao próximo baseado em quem o próximo é. Gente que se considera genuinamente inferior em relação a alguns, e genuinamente superior em relação a outros. Algo bem perturbador.
Contudo, assim é a sociedade; assim somos nós. Nunca nos sentimos iguais: ou nos achamos inferiores, ou nos achamos superiores. A nossa percepção sobre quem somos diz que o presidente da empresa está acima e o garçom está abaixo, mas a verdade é que não existe em cima e embaixo, só ao lado.
Porque essa pirâmide é imaginária; ela não é real. Nós a forjamos, e colocamos lá em cima quem tem mais grana, poder e influência, e lá embaixo quem não tem. E nesta organização injusta nos ajeitamos ali pelo meio, onde conseguimos lamber o chão onde passa o presidente da empresa, e pisar na cabeça do garçom. Tudo o que sofremos com o primeiro descontamos no segundo.
E o mais curioso é que esta postura submissa/opressiva não tem nada a ver com o outro. O presidente da empresa e o garçom são coadjuvantes nesta história. Esta postura tem a ver com a forma como nos enxergamos. E é aqui, exatamente aqui, que reside o grande problema.
Já passou da hora da gente começar a se perceber como realmente é, ou seja: iguais. O imigrante e o conterrâneo, o mendigo e o patrão, o louco e o sensato, o viciado e o abstêmio, eu, você: todos humanos.
Quando isso acontecer, e esta pirâmide ilusória se desintegrar, certamente seremos mais felizes. Porque, quando paramos de pisar, paramos de ser pisados. Seja você o presidente da empresa ou o garçom.

04 maio 2017

Nascidos para criar

Eu acredito que o ser humano é uma criatura essencialmente criativa, de fato nascida para criar. Está em nossa natureza realizar atividades que gerem resultados palpáveis, seja lavar a louça ou salvar golfinhos da extinção. E quando não criamos, quando nossa mente e nosso corpo mantêm-se em inatividade, deprimimos nosso organismo de diferentes maneiras.
É lógico que o descanso e o lazer são importantíssimos para nossa saúde, seja física ou emocional. O problema é quando o tempo em repouso é igual ou maior que o tempo em movimento. Aí dá pane no sistema central.
Percebo que, enquanto sociedade, passamos muito tempo em estado passivo: assistindo TV, acessando as redes sociais, jogando joguinhos virtuais, navegando aleatoriamente pela internet. Situações letárgicas que exigem de nosso cérebro pouco ou nenhum esforço produtivo e criador. Neste processo, a preguiça mental gera a preguiça intelectual, que por sua vez gera a preguiça física – este mal que aflige e paralisa tantas pessoas, muitas vezes levando a quadros psíquicos realmente graves.
Não é apenas nosso corpo que precisa de atividade. Há também o sedentarismo mental, que é tão nocivo quanto o sedentarismo físico.
Realizar, produzir, inventar, fazer acontecer – seja lavar a louça ou salvar golfinhos da extinção – estimula positivamente nosso cérebro, tirando-o do entorpecimento.
Tudo o que nos coloca em situação de espectador, quando em excesso, termina por nos aniquilar.
Porque não nascemos para assistir. Nascemos para criar.

27 abril 2017

O que o jogo Baleia Azul diz sobre nós?

Esta é uma pergunta que deveríamos nos fazer, ao invés de apenas criticar e debochar de uma situação que é, no mínimo, bizarra: crianças e adolescentes mutilando-se e suicidando-se enquanto seus pais dormem tranquilamente no quarto ao lado. 
Nestes últimos dias, vi muitas piadas sobre o jogo Baleia Azul. Também li comentários indignados, chamando estes jovens de burros, bestas, desocupados. “Falta de louça pra lavar”. “Vão capinar um terreno baldio”. “Tem que dar umas bofetadas pra criar vergonha na cara”.
Porém, eu desconfio que o buraco é mais embaixo. Afinal, me parece óbvio que este jogo é mais uma consequência; não é a causa do problema.
Estamos acostumados a focar na sequela, não na origem do mal. Brigamos com os galhos, sempre ignorando o tronco e a raiz. Apenas reagimos e remediamos, nunca prevenimos.
Por isso, é preciso encontrar os criminosos por trás deste jogo, e puni-los severamente. Também é imprescindível promover campanhas para proteger a gurizada. Mas, acima de tudo, devemos nos perguntar: o que o jogo Baleia Azul diz sobre nós?
Nós, sociedade. Nós, humanidade. Nós, seres humanos. O que estamos fazendo de tão errado, para produzirmos tantos jovens emocionalmente desequilibrados, capazes de matar e morrer por um jogo sem sentido?
Os índices de suicídio, em todo o globo terrestre, são alarmantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos – uma a cada 40 segundos. Isto significa que, enquanto você lê este texto, pelo menos dez pessoas tirarão a própria vida. A taxa de suicídio entre jovens, então, é inaceitável. Trata-se da segunda principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos, perdendo apenas para acidentes de trânsito. Tem mais: o suicídio entre crianças de 10 a 14 anos aumentou 40% em dez anos, e 33% entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Neste cenário desolador, um jogo como o Baleia Azul prosperar não é nada tão impressionante, convenhamos.
Mas por que nossos jovens se suicidam? Por que eles preferem morrer, ao invés de fazer planos para o futuro? Por que eles não vislumbram o futuro?
Não encontramos as respostas certas porque fazemos as perguntas erradas. E a prova está na reação que muitas pessoas tiveram ao jogo Baleia Azul: “louça pra lavar”, “capinar terreno baldio”, “bofetadas pra criar vergonha na cara”.
Estes somos nós: inventando soluções simplórias para problemas complexos, como se tudo fosse pá e pum, assim ou assado, preto ou branco, prático, objetivo, superficial, tão simples.
Não, nada é assim tão simples. Se até as bactérias são complexas, amigo, imagina o ser humano! E é justamente por que ignoramos esta complexidade que somos uma sociedade tão doente – que, naturalmente, produz crianças e adolescentes doentes.
A nossa reação ao jogo Baleia Azul mostra por que o jogo Baleia Azul existe.
Afinal, nós realmente acreditamos que as pessoas se suicidam porque não têm louça pra lavar. Afirmamos categoricamente que “umas bofetadas na cara” podem tirar alguém da depressão. Ao invés de acolher o doente, nós queremos que ele vá capinar um terreno baldio.
Não queremos nem saber que 90% dos suicidas sofrem de algum transtorno mental, sendo a depressão o principal deles. Depressão esta que acomete um número cada vez maior de pessoas, e segundo a OMS, aumentou em 18% entre 2005 e 2015, sendo a principal causa de incapacidade laboral no planeta. A estimativa é que, atualmente, mais de 300 milhões de pessoas sofram com a doença no mundo.
Ignoramos todos estes dados. Tratamos a doença como “frescura” e o doente como “folgado”, e depois ainda nos perguntamos, muito confusos: como chegamos até aqui?
O jogo Baleia Azul é perturbador de muitas formas. Mas talvez sua face mais sinistra e sombria seja aquela que reflete a nossa própria face. Porque nós, sociedade, também jogamos um jogo doentio. E perdemos sempre. 

21 abril 2017

Dizem que um livro termina de ser escrito pelo leitor.

Afinal, é o leitor quem interpreta e reinterpreta a obra; quem dá sentido, fundamento e significado ao que foi escrito. Um livro sem leitor é um livro inacabado, incompleto. E se assim for, posso garantir que O Duplo da Terra, meu terceiro livro, terminou de ser escrito ontem – e com maestria.
Porque até agora eu não consegui encontrar palavras no dicionário para explicar a enorme emoção que foi participar do Dia Literário do Instituto Educacional Girassol, ontem de manhã.
Os alunos leram O Duplo da Terra, e fizeram cartazes, textos, montagens, colagens, desenhos, e até um teatro lindo sobre a obra.
Foram tantos trabalhos magníficos, e minha emoção era tamanha, que todas as fotos que eu tirei (e foram quase 40) saíram tremidas. Só deu para salvar esta, que eu publico abaixo – e que dá uma boa prévia de tudo o que eu vi e vivi ontem.
Para minha sorte, a escola tirou um monte de fotos também, e assim que as divulgarem, eu divulgo aqui. Porque SÓ VENDO para vocês entenderem do que eu estou falando.
Além dos trabalhos da gurizada, eu também ministrei uma palestra chamada “Encaixotando o Problema”, e depois ficamos ali, trocando mil ideias.
Falamos de literatura, do jogo Baleia Azul e do jogo Baleia Rosa, de feminismo, de vida após a morte, de alienígenas, de privilégios, de sereias, da violência contra a mulher, de doenças físicas e emocionais, de gatos, de digestão mental, e de tudo o mais que vocês puderem imaginar!
Foi sensacional! Entrei na escola às 8h da manhã e saí só ao meio-dia, coberta de amor da cabeça aos pés.
Obrigada, alunos!
Obrigada, Instituto Educacional Girassol.
Obrigada professores, funcionários, direção.
Do mesmo jeito que me faltam palavras para definir a enorme emoção que foi o dia de ontem, me faltam palavras para agradecer.
Obrigada por concederem tanto sentido, fundamento e significado ao meu livro.
Obrigada por terminarem de escrever O Duplo da Terra com tanta beleza, leveza e capricho.
Nunca vou me esquecer do dia 20 de abril de 2017. Nunca!



19 abril 2017

Rebelem-se, garotas!

Eu cresci lendo revistas adolescentes que ensinavam qual maquiagem os meninos gostavam, e qual não gostavam. Revistas e programas de TV que diziam como deveríamos nos comportar, como deveríamos nos vestir, como deveríamos pensar para nos encaixar. As regras eram duras: era preciso ser magra. Ter o cabelo liso, longo, sem volume nem frizz. Ser gentil, doce, meiga e agradável. Não “ser puta”. Não falar alto. Não sentar de pernas abertas. Ser inteligente, mas não muito, para “não assustar os homens”.
Estas revistas ensinavam que nós, garotas, precisávamos nos adaptar, nos modificar – nos mutilar, se preciso fosse! – para sermos aceitas. Para sermos consideradas bonitas. Para fazermos parte. Para existirmos.
E assim eu cresci: alisando meu cabelo crespo, volumoso e com frizz; fazendo dietas malucas; usando camiseta sobre o biquíni; escondendo meu corpo. Odiando-me dia sim e outro também. Tentando desesperadamente ser acolhida pelos padrões. Tentando desesperadamente me ajustar naquilo que os outros – mídia, sociedade, homens – esperavam de mim.
No entanto, num belo dia eu me dei conta de que não precisava me encaixar porra nenhuma. Que estas regras eram cruéis e covardes, além de impossíveis, e me colocavam em guerra com a única pessoa que eu deveria realmente agradar, amar, respeitar e me importar: eu mesma.
Odiar meu corpo, meu rosto, meu cabelo, era justamente o objetivo desta mídia, desta sociedade e desta indústria de beleza doentias, cuja intenção sempre foi fazer eu me sentir mal por ser quem eu era – para que, assim, pudesse gastar rios de dinheiro alisando o cabelo, comprando shakes e remédios emagrecedores, fazendo academia, fazendo plásticas, fazendo compras.
Este sistema desumano e sádico lucra, e muito, com a insatisfação e a infelicidade das mulheres e, através de suas regras bizarras, nos mantêm loucas e domesticadas.
Naomi Wolf, escritora americana, escreveu:
“Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão com a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”.
Um fato.
Os padrões de beleza e comportamento impostos às mulheres não são referentes ao nosso cabelo, nossa roupa, nosso corpo e nossa forma de agir. São referentes à nossa cidadania. Trata-se de um projeto social e político, cujo objetivo é nos conservar permanentemente tristes, desconfortáveis, malucas e caladas, exclusivamente focadas em nos adaptar; em sermos aceitas por ser alguém que não somos. Nem que para isso seja necessário gastar todo nosso dinheiro, nossa saúde, nossa alegria e nossa sanidade mental.
E em um mundo que trabalha arduamente para que a gente odeie nossa própria aparência, se amar, se respeitar, se achar bonita – mesmo que totalmente fora destas regras e destes padrões medonhos – é, sim, um ato de rebeldia.
Então eu convido você, minha querida leitora, a rebelar-se.
Afinal, nem você, nem eu, e nem nenhuma de nós precisa fazer parte deste jogo de cartas marcadas, onde nós, garotas, vamos perder sempre. Não importa o quanto a gente se esforce.
Por isso eu digo ao sistema, à mídia, às revistas, aos homens, à sociedade: tirem suas mãos de mim! De mim, do meu corpo, do meu cabelo, do meu jeito de ser!
Porque eu aprendi a me amar, e uma mulher capaz de se amar é uma mulher capaz de fazer qualquer coisa.

10 abril 2017

Você não precisa ser mãe.

Não, amiga, você não precisa. Se quiser, pode ser, mas esta não é uma obrigação. A sua existência, a sua realização e a sua felicidade talvez não passem pela maternidade.
Já pensou nisso? Eu já.
Em 2015 fiz 30 anos, e passei a cogitar a ideia de ter um filho. Parecia-me a lógica, o caminho natural – quiçá o único caminho. As pessoas já me alertavam, preocupadíssimas: “Olha a idade, Janaína”. “Depois dos 35 fica mais difícil”. “Quem vai cuidar de você na velhice?”. Então eu fiz o que muitas mulheres fazem, e parei de tomar a pílula.
No instante em que parei, comecei a imaginar como seria a minha vida com um filho. Se eu estava tomando uma cerveja com minhas amigas, me vinha o pensamento: e se eu tivesse um filho, será que estaria aqui? Quando estava assistindo minhas séries favoritas, jogada no sofá, descabelada e de pijama, lá vinha a pergunta: e se tivesse um bebê aqui, eu estaria assim, tão de boas? Quando dormia até 10h da manhã no domingo, quando me arrumava para uma festa, enquanto escrevia meu livro durante os feriados e finais de semana, ou quando fazia compras no supermercado, o tal questionamento não saía da minha cabeça: e se?
Foi então que eu descobri que, ao contrário do que eu imaginava, eu não queria ser mãe coisa nenhuma. Não estava nem um pouco preparada para abrir mão da minha vida, dos meus projetos e da minha (falta de) rotina por conta de uma criança. E quatro meses após suspender a pílula, saí correndo para a farmácia comprar meu anticoncepcional.
As pessoas, então, decidiram que julgar a minha decisão era uma boa ideia: “Egoísta!”. “Só pensa em si mesma!”. “Você vai se arrepender”.
Bem, na verdade não. 
E mesmo que me arrependesse, prefiro me arrepender por não ter tido um filho, do que me arrepender por ter tido – afinal, uma criança é um ser humano, e depois que ela nasce, não há mais como voltar atrás. É justamente por que não sou egoísta, e penso neste filho hipotético, que decidi não tê-lo.
Então, minha amiga, nunca se esqueça: você não precisa ser mãe. Você não precisa fazer o que estas mil vozes te mandam fazer. O corpo é seu, o útero é seu e, principalmente, a vida é sua. Você decide. Só você, e mais ninguém.
Porque depois que o bebê nascer, durante as madrugadas frias de choro e cólica, ou quando faltar dinheiro e resignação, e sobrar cansaço e preocupação, estas pessoas que gostam tanto de te dizer como, quando e o que você deve fazer, não estarão ao seu lado para lhe dar apoio algum.
Pelo contrário. Elas virão novamente com seus dedos em riste, agora dizendo que você é uma péssima mãe; que não se preocupa com seu filho; que não tem paciência; que é uma desnaturada e usa saia curta, onde já se viu? “Pobre desta criança”.
E antes de encerrar, quero deixar claro que eu não sou contra a maternidade. Eu sou contra esta imposição social, que diz que uma mulher só é completa e feliz se for mãe.
Maternidade é escolha. Não é obrigação.

05 abril 2017

250 mil

Uma das primeiras lições que aprendemos na faculdade de Publicidade e Propaganda, na qual sou formada, é que não adianta o anúncio prometer o que o anunciante não pode cumprir.
Então, se o anunciante diz que sua loja tem o melhor atendimento da cidade, mas sua loja não tem o melhor atendimento da cidade, não há nada que a agência de publicidade possa fazer. Porque contra fatos não há argumentos. O cliente até pode ir à loja, mas ao perceber que a propaganda mentiu, ele simplesmente irá embora, para nunca mais voltar.
Isso se não ocorrer o efeito “tiro no pé”. Como já definiu William Bernbach: “Uma boa campanha publicitária fará um mau produto fracassar mais rapidamente, pois ela conseguirá que mais pessoas descubram o quanto ele é ruim”.
Deste modo, o dono da loja seria mais honesto, sensato e inteligente se, ao invés de investir em publicidade para dizer que é o que não é, utilizasse este investimento para realmente se tornar o que afirma ser. No caso deste exemplo, promover a capacitação de seus funcionários para melhor atender seu público. Assim, poderia de fato oferecer o melhor atendimento da cidade, ao invés de usar a publicidade para dizer que oferece o que não oferece.
Pois bem.
A Câmara de Vereadores de Carazinho, que segue entre as dez que mais gastam em diária no estado, aprovou na noite da última segunda-feira, por sete votos a cinco, que 250 mil reais (que seriam utilizados para a construção de uma nova célula no aterro sanitário) sejam destinados para publicidade, com a justificativa de “divulgar o município” e “atrair investimentos”.
Ok. Eu, como publicitária, obviamente conheço e reconheço a importância da publicidade; ela continua sendo a alma (e a arma) de qualquer negócio. Contudo, como publicitária também sei que nenhuma propaganda é capaz de ser maior do que a realidade.
E a realidade é a seguinte: Carazinho tá na pior, e não é de hoje.
Desemprego, índices de criminalidade alarmantes, pouco policiamento, escolas sucateadas, bairros abandonados, ruas esburacadas, calçadas imundas, saúde caótica, empresas fechando as portas.
Neste cenário desolador, eu pergunto: propaganda pra quê? Pra quem? Pra dizer o quê? Sobre o quê?
Não consigo compreender de que maneira investir 250 mil reais em publicidade pode beneficiar os carazinhenses neste momento, ou como pode colaborar para resolver alguns, dos vários problemas que judiam de nossa cidade.
Se o dono da loja quer investir seu dinheiro em publicidade para dizer que é o que não é, por mim tudo bem. O dinheiro é dele, e se ele quiser desperdiçá-lo em propaganda enganosa, que seja feita a sua vontade.
Mas estes 250 mil são dinheiro público! É meu, é seu, é nosso! E o povo foi contra. Não queria destinar 250 mil do seu suado dinheirinho para propaganda. Tanto, que lotou a Câmara de Vereadores pedindo que o projeto não fosse aprovado – e como geralmente acontece, foi sumariamente ignorado. Houve um vereador que até boca bateu com um cidadão que lá se encontrava.
É revoltante.
Revolta ver a maneira como nossos governantes e representantes tratam nosso dinheiro; como ignoram nossos desejos e necessidades; como utilizam o cargo para o qual foram eleitos para se promover, e só.
Ademais, em uma situação de crise generalizada como a que vivemos hoje – não só em Carazinho, mas em todo o Brasil – é redondamente estúpido investir tanto em propaganda. Apesar de ser publicitária, tenho consciência de que publicidade é supérfluo. Qualquer empresário meia-boca sabe que, na crise, corta-se o dispensável.
E uma cidade pode viver sem publicidade; mas não sem segurança, sem saúde, sem educação.   
Talvez alguns dirão que os muitos problemas de Carazinho não são responsabilidade da atual gestão, que entrou em janeiro deste ano, e mal teve tempo para fazer qualquer coisa pela cidade.
Concordo.
Mas justamente por que mal tiveram tempo de fazer qualquer coisa pela cidade, eu repito minha pergunta: querem anunciar o quê? Pra quem? Pra dizer o quê? Sobre o quê?
Tal e qual acontece com o dono da loja, seria mais honesto, sensato e inteligente se o governo de Carazinho, ao invés de investir em publicidade para dizer que é o que não é, utilizasse este investimento para realmente se tornar o que afirma ser.
Pois, como já disse um cara chamado Benjamin Franklin: “Bem feito é melhor que bem dito”.

29 março 2017

Direitos Humanos e Humanos Direitos

Uma das frases mais repetidas por quem acredita que bandido bom é bandido morto é a famigerada: “Direitos humanos são para humanos direitos”. Uma citação cujo significado é: se você for um cidadão de bem, merece ter seus direitos preservados. Se não, não.
Contudo, há um erro básico de interpretação de texto cometido pelas pessoas que acreditam nesta frase-pronta. Porque direitos humanos são para humanos. Sejam estes humanos do bem ou do mal, direitos ou tortos, certos ou errados. Então, a não ser que você seja um cachorro, uma bactéria ou uma almofada, você tem direito aos direitos humanos.
Outro erro elementar é vir falar de direitos humanos e humanos direitos somente em situações onde o humano em questão está errado.
O sujeito assaltou um mercadinho e deu uma coronhada no balconista? Não é um humano direito. Logo, não merece direitos humanos.
Acontece que, para um ser humano se tornar direito, ele precisa que seus direitos sejam respeitados desde o princípio. E quais são seus direitos? Ora, está lá na Constituição: acesso à educação, saúde, lazer, emprego, saneamento básico, segurança, moradia. 
Mas aí a criança nasce no barraco sem que sua mãe tenha tido sequer assistência pré-natal. Quando fica doente, por conta do esgoto que desemboca na porta de sua casa, esta criança não vai ao médico, que é longe, inacessível, e cujo atendimento pode demorar meses. A pracinha na frente da casa desta criança está demolida, os brinquedos, enferrujados, as calçadas, imundas; virou ponto de tráfico. A escola onde esta criança deveria estudar vive em greve, e quando não está em greve, segue sucateada: professores desmotivados, janelas e cadeiras quebradas.
E enquanto tudo isso acontece, eu pergunto: onde estão os humanos direitos? Onde estamos nós, “cidadãos de bem”, que ignoramos sumariamente os direitos e a vida desamparada desta criança?
Eu mesma respondo: enquanto tudo isso acontece, os humanos direitos estão tocando suas vidas, como se nada estivesse acontecendo.
Então, quando esta criança cresce, assalta o mercadinho, e dá uma coronhada no balconista, os humanos direitos saem de suas tocas, histéricos, bradando que direitos humanos são somente para humanos direitos.
Permitimos, enquanto sociedade, que esta criança cresça sem acesso a nenhum de seus direitos constitucionais mais básicos; totalmente abandonada à própria sorte. E depois que o mal já está feito; que o crime já foi cometido; viemos falar que este assaltante, ontem criança, não tem direito aos direitos humanos.
Amigos, ele nunca teve direito aos seus direitos. E justamente por isso assaltou o mercadinho e deu uma coronhada no balconista.
Por isso, vamos parar de repetir frases-prontas, tão profundas quanto um copo de água, e avaliar melhor nossas palavras, e nossa postura enquanto cidadão de um país que não respeita sua própria Constituição.
Porque no dia em que os direitos humanos forem para todos, do berço ao caixão, certamente teremos mais, muito mais humanos direitos.

13 março 2017

Obscena

Quantos artistas você conhece em Carazinho e região?
Com certeza menos do que gostaria, deveria, poderia e precisaria.
Porque a cena cultural de nossa cidade vai muito além dos artistas que estão sob holofotes. Existe uma cena contracultural que não está no centro, e nem nos jornais e revistas, e muitíssimo menos nos calendários oficiais do município. Uma cena que não está sob holofotes, mas que nem por isso deixa de existir.
Muito pelo contrário.
Por isso nós, da editora carazinhense Os Dez Melhores, ficamos felizes em anunciar o início do projeto editorial da revista Obscena – Observe a cena underground, uma publicação que buscará reunir os artistas independentes de Carazinho e região que não encontram espaço entre as estruturas tradicionais para divulgar e promover sua arte. Artistas do underground, no sentido literal da palavra.
A Obscena convida o leitor a olhar para o lado, e conhecer uma cidade cultural inteira, que existe, pulsa, e está bem embaixo dos nossos narizes, apesar da gente simplesmente não ver.
Observe a cena underground de sua cidade, e permita surpreender-se.


10 março 2017

10 anos para um homem de 80 é pouco mais de 10% de sua vida.

10 anos para uma criança de 10 é 100% de sua vida.
10 anos para um cachorro é muito; para uma tartaruga, pouco.
Para o calendário, uma década. Para a História, uma minúscula partícula de tempo.
10 anos, pra quem chora, é uma eternidade; pra quem ri, passa voando.
Pra mim, 10 anos são mais ou menos 33% da minha vida. Bastante tempo, convenhamos. E nesta semana, mais precisamente no emblemático dia 8 de março, completou-se 10 anos de um acontecimento que mudou o rumo de tudo por aqui.
Dia 8 de março fez 10 anos que eu e o Cavanhas decidimos subir no mesmo lado do ring e lutar juntos; abrir os atalhos em parceria, aguentar os trancos se apoiando um no outro, nadar contra a maré na mesma direção. Duas cabeças pensam melhor que uma, e quatro mãos são mais eficientes que duas.
E apesar de 10 anos representarem um terço da minha vida, posso dizer que não vi esse tempo todo passar. E não vi, porque foram 10 anos de mansidão e quietude – embora o ring, as lutas, os trancos e a maré.
Nunca vou esquecer. Na primeira vez que saímos juntos, o Cavanhas citou uma frase de Pierre-Joseph Proudhon, dizendo ser seu mantra:
“Aquele que colocar as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo”.
Lembro de ter pensado na ocasião: será?
Será que esse cara não está fazendo um tipo?
Será que não está tentando posar de legalzão, e daqui a pouco vai encher o meu saco porque coloquei uma saia ou cumprimentei um amigo, como todos antes dele fizeram?
Será que ele tem consciência de que, se eu não posso colocar minhas mãos sobre ele para governá-lo, ele também não pode colocar suas mãos sobre mim para me governar?
Por que, olha: eu nunca acreditei no conceito de relacionamento que vigora por aí. Sempre achei meio absurda a ideia de que casar é como ir pra cadeia ou para o matadouro, ou como ser contido, proibido, capturado, amordaçado, enlaçado. Relações baseadas em autoridade, onde um manda e o outro obedece, onde um fisga enquanto o outro é fisgado, nunca me pareceram inteligentes, e muito menos divertidas.
De ciúme então, nunca entendi, e tive de fato problemas com ex-namorados, que faziam beiço e reclamavam que eu não os amava porque não tinha ciúme.
“Como assim?”, eu pensava injuriada. Era justamente por que eu gostava – e consequentemente confiava e respeitava seus espaços – que eu não tinha ciúme.  
Eles nunca entenderam porra nenhuma do que eu dizia, e eu conjecturava com meus botões: fodam-se então.
Não vim ao mundo pra usar cabresto, e se era para viver como um cachorro amarrado no poste, a coleira curta que não alcança nem o portão, tendo de dar satisfações sobre tudo o que eu faço e penso e visto e sinto – regalia que não concedo nem para o meu pai, que trocou minhas fraldas sujas, me alimentou, me aguentou na adolescência, e até pagou minha faculdade – então que eu fique só. Melhor só, do que acompanhada por alguém que não acredita em mim.
Logo, conhecer o Cavanhas, com todo aquele papo libertário, realmente me encafifou. Em um mundo onde o ciúme é tratado como prova de amor, só podia ser pegadinha do Faustão.
Mas não era.
Não é.
10 anos transcorreram, e em nenhum destes 3.650 dias duvidamos da palavra um do outro.
Contudo, não se iluda, amigo leitor, pensando que somos almas gêmeas, porque não somos, assim como não nos completamos, porque sempre fomos inteiros. Apenas resolvemos que seria uma boa ideia ir junto, ao invés de separados.
Sei que sou sortuda por encontrar alguém que vê o amor como eu: com respeito à individualidade do outro, e a todo seu universo particular gigante e complexo. Sou sortuda por encontrar alguém que precisa de liberdade mais até do que precisa de ar, de água, de pão, de amor. Tal e qual eu.
Alguém que sabe que não se pode ser feliz sem ser livre. Não se pode ser feliz quando alguém coloca as mãos sobre você, e tenta lhe governar. Afinal, quem faz isso é um ditador, um tirano, e devemos declará-lo nosso inimigo.
10 anos ao lado de um inimigo deve ser tempo pra caramba.
Mas 10 anos ao lado de um amigo, de um cúmplice, de um aliado, passa voando.
Por isso eu sei que, daqui 10 anos, vou escrever um novo texto, contando sobre como metade da minha vida passou sem que eu pudesse sequer perceber. 

2007.