26 abril 2016

Nossa democracia é democrática?

Sentada em meu sofá, perplexa eu assisti a votação da Câmara dos Deputados sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff, no domingo, dia 17 de abril. Ouvindo aquele monte de baboseiras em série, ditas por 100% de nossos “nobres deputados”, fiquei me perguntando de que maneira colocamos aquelas criaturas medonhas para decidir sobre o futuro de nosso país. Sobre o nosso futuro. O meu e o seu.
No entanto, o que mais me angustia é que aqueles senhores e senhoras, que votaram pelas suas respectivas famílias e pelo seu respectivo Deus, não estão onde estão porque deram um golpe. Nenhum deles se tornou deputado tomando o poder à força. Todos, absolutamente TODOS foram eleitos por nós, democraticamente. Ou seja: nós votamos neles por livre e espontânea vontade.
Mas será mesmo?
Não vou cair no clichê de dizer que não sabemos votar, nem que temos memória curta, e muito menos que somos tão corruptos quanto nossos representantes. Isso já foi dito inúmeras vezes, e a verdade, como sempre, é um pouco mais complexa do que simplesmente apontar o eleitor como o culpado pela corja que nos governa, e sempre nos governou. O buraco, meus amigos, é mais embaixo.
Porque, na minha visão, a democracia brasileira é uma democracia parcial, altamente questionável. Segundo o dicionário Michaelis, democracia significa “Influência do povo no governo de um Estado”. Concluímos, então, que o povo é agente dominante e atuante de qualquer processo democrático. Sem o povo, não há democracia. Mas e quando o povo possui imensas limitações intelectuais, sociais e políticas? Este tal de processo democrático não se torna, no mínimo, discutível?
Recentemente, saiu uma pesquisa chamada “Analfabetismo no Mundo do Trabalho”, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e a ONG Ação Educativa. Segundo esta pesquisa, apenas 8% dos brasileiros possuem plenas condições de compreender uma argumentação, interpretar corretamente um texto, e opinar sobre o posicionamento de determinado autor. Isto significa que, de cada cem pessoas que você conhece, só oito são capazes de entender esta crônica, por exemplo.
Neste cenário, onde 92% da população simplesmente não possui capacidade intelectual para compreender um texto simples, eu pergunto: onde fica a democracia? O que ela significa exatamente?
Some-se a isto a enorme e acachapante pobreza e desigualdade social que assola nosso país, e que se reflete diretamente em saúde precária e educação de péssima qualidade. O resultado? Cidadãos intelectual e politicamente incapazes de diferenciar um focinho de porco de uma tomada.
Assim sendo, se somente 8% de nós, brasileiros, têm condições reais de interpretar o cenário político de nosso próprio país, e de avaliar com clareza nossos candidatos, que democracia é esta que nós temos por aqui?
E vou adiante: de quem é a culpa pelas nossas evidentes limitações intelectuais? Certamente não é só nossa, e diria até que nós somos os menos culpados pela nossa própria estupidez.
A responsabilidade passa, sim, pelos nossos governantes – desde os primórdios do Brasil Colônia até hoje. Foram sucessivos governos que jamais se preocuparam em nos tirar da ignorância suprema. Que nunca investiram em escolas, e na profissionalização de nossos educadores; muito, muito pelo contrário. Governantes que deliberadamente nos mantêm a base do pão e do circo, sem saúde, sem educação, sem segurança, alimentando e sustentando um projeto de pobreza e ignorância social – dois fatores essenciais para que chegássemos exatamente onde estamos hoje: sentados perplexos em nossos sofás, ouvindo nossos deputados vomitando baboseiras ao vivo e em rede nacional.
Não há golpe contra a democracia porque, na prática, nunca houve democracia. Não de forma plena e real. Porque somos mantidos em cárcere intelectual por diferentes governos e governantes, que jamais quiseram que nós aprendêssemos a pensar.
Por isso somos politicamente bebês. Por isso vendemos nosso voto, rimos de nossos corruptos, esquecemos em quem votamos, e achamos normal ter internet gato.
Naquele domingo, dia 17 de abril de 2016, eu entendi o quanto nossa democracia é frágil, falsa e perigosa. Afinal, sempre que escolhemos os nossos representantes através do voto direto, estamos escolhendo entre os escolhidos. As cordinhas que nos manipulam têm mais de 500 anos, amigos, e não possuem lado, bandeira ou partido.
E respondendo a pergunta que dá título a este texto: não. Nossa democracia não é democrática. Não em um país onde somente 8% da população é capaz de diferenciar um focinho de porco de uma tomada.