28 março 2016

Estado político: confuso.

Confesso que os últimos dias não têm sido fáceis pra mim. Desde o dia 13 de março, quando assistimos a maior manifestação popular da história do Brasil, até a divulgação das conversas telefônicas pelo juiz Sérgio Moro, passando pela nomeação (e posterior suspensão) de Lula como ministro-chefe da Casa Civil, e seguindo pelas manifestações relevantes pró-governo na sexta-feira, dia 18, minha cabeça está a um passo de virar uma ervilha e explodir.
Tenho tentado entender o que acontece, e para isso tenho prestado atenção no que diz cada lado da história. Tenho buscado me informar em diferentes veículos de comunicação, dos assumidamente de direita aos assumidamente de esquerda. Leio as postagens no Facebook de amigos pró e contra o impeachment, e quanto mais procuro saber, menos eu consigo entender o que está acontecendo aqui.
Pelo que vejo, temos um governo difícil de defender e uma oposição difícil de apoiar. A mídia, como sempre, é um filtro perigoso para a obtenção de informações, e nunca sabemos se o que estamos lendo e vendo é fato ou versão. Os eleitores extremistas, sejam de um lado ou de outro, estão histéricos, e mais parecem um disco riscado, de tão repetitivos. Seus argumentos são vagos e muitas vezes contraditórios, mas mesmo assim eles exigem que você concorde integralmente com eles. Discordar virou sinônimo de atacar, e todo mundo reage atacando também. Uma selvageria ideológica com forte potencial para virar selvageria física.
Parece que somos obrigados a “escolher um lado”: ou direita ou esquerda; ou Grêmio ou Inter; ou aqui ou acolá; ou isso ou aquilo. Ou do meu lado ou contra mim. O que é perturbador, além de impraticável.
No entanto, há poucos dias, conversei com um amigo, que me disse algo que sossegou minha cabeça fuzilada por pensamentos, argumentos, questionamentos. Ele disse: “Jana, se você está confusa, você está certa. Perigoso é quem tem certeza em tempos tão duvidosos”.
Este meu amigo tem toda a razão. A hora não é de ter certeza. A hora é de ter perguntas, dúvidas, desconfianças. Ficar atento, sim, e buscar entender, sempre; mas aceitar a falta de respostas claras e contundentes. Pois, definitivamente, não vivemos tempos de respostas claras e contundentes.
O país passa por uma crise com poucos precedentes. Porque é mais do que uma crise política e econômica; é uma crise moral, social, estrutural. Enquanto brasileiros, estamos tendo de nos desconstruir e nos aprofundar em nossa própria identidade, já que nem um lado e nem o outro são capazes de nos confortar.
Ao contrário do que a massa diz – seja esta massa da esquerda ou da direita, do Fla ou do Flu – a hora é justamente de rever conceitos. De falar menos e escutar mais. É preciso buscar entender o outro lado, não para concordar ou discordar, mas para compreender o todo.
Não é hora de escolher um lado da ilha. É hora de sair da ilha, para poder ver a ilha.
Assim sendo, e se for para escolher, eu escolho o lado da dúvida. Enquanto eu não conseguir distinguir com clareza meu cachorrinho de estimação dos lobos que cercam a todos nós, eu não farei carinho na cabeça de ninguém. 

23 março 2016

Politicamente Bebês

Em junho de 2013, quando a população brasileira foi às ruas em peso, espontaneamente e sem qualquer bandeira partidária, uma das críticas mais recorrentes era a de que as reivindicações da multidão eram subjetivas; que não havia um líder com quem negociar; que o povo nem sabia direito o que queria.
Naquela ocasião, eu pensei com meus botões: agora que aprendemos o caminho das ruas, quem vai nos tirar de lá?
Não deu outra. De 2013 pra cá, o brasileiro fez da rua seu lar, doce lar. Categorias profissionais das mais variadas foram para as ruas pedir melhores condições de trabalho, estudantes ocuparam escolas, grupos pró e contra o governo lotaram as ruas de todas as capitais, e até alunas de um colégio em Porto Alegre protestaram pelo direito de usar shorts, assim como usam seus colegas meninos.
Após a explosão popular de 2013, diferentes agremiações sociais passaram a se organizar e a reivindicar por direitos bastante específicos. Não havia mais nada de subjetivo. Seguimos sem um líder, mas agora cada grupo sabe exatamente o que quer.
Assim, as manifestações que ocorreram no Brasil nos dias 13 e 18 de março de 2016 são filhas legítimas daquelas primeiras manifestações, lá em meados de 2013. Quase três anos se passaram, e neste meio-tempo entramos em um processo irrefreável de politização.
Porque eu cresci ouvindo que o brasileiro não sabe votar. Que o brasileiro é despolitizado, que tem memória curta, que não gosta de política – e, por isso, sempre foi comandado por quem gosta. Nas rodas de conversa Brasil afora, o assunto sempre foi novela, futebol e Big Brother. Éramos o país do carnaval, da caipirinha, do Pelé e do Neymar.
Éramos.
Semana passada, estava eu fazendo as unhas quando me dei conta de que éramos seis ou sete mulheres conversando sobre política em pleno salão de beleza. Na virada de ano, quando o sol já nascia, me surpreendi ao ver meus amigos falando de política às seis e meia da manhã. Minha avó, que sempre foi fanática pelas novelas mexicanas do SBT, agora lê jornal e discorre sobre pedalada fiscal. Pessoas que nem lembravam em quem votaram na última eleição agora sabem nome e sobrenome de deputados, ministros, senadores, doleiros, juízes. Um fenômeno impressionante.
Fenômeno este resultado deste processo de politização. Estamos aprendendo a importância da política para o desenvolvimento de qualquer nação, e estamos descobrindo que, enquanto povo, somos patrão, e não empregado.
No entanto, politizar-se é um processo lento e complexo. Foram anos, muitos anos vivendo em total hibernação política. Logo, não será em meia dúzia de meses que nos tornaremos politicamente adultos.
Penso que, hoje, em matéria de política, somos como uma criança que está aprendendo a andar. Primeiro a gente engatinha, depois dá alguns passos, e então cai, se machuca, levanta, começa tudo de novo. Enquanto aprendemos a caminhar por este terreno íngreme e delicado chamado política, vamos fazendo muita bagunça, falando muita bobagem, nos posicionando de modo totalmente equivocado, infantil, histérico. Caindo, se machucando, chorando, levantando, firmando as pernas. Este somos nós, hoje. Este é o nosso Brasil, agora.
Por isso, amigo leitor, quando você pensar que não há esperança; que o brasileiro está fadado à ignorância; que seremos eternamente analfabetos políticos, e que jamais vamos aprender a caminhar sozinhos, lembre-se que, como toda criança, precisaremos cair e nos machucar muitas vezes, até finalmente firmarmos nossas pernas e seguirmos estáveis pelo nosso caminho.
E hoje estamos mais perto deste dia, do que estávamos em junho de 2013.
Sigamos caindo e levantando, então.
Uma hora a gente chega lá.

09 março 2016

Sobre ontem.

O Dia Internacional da Mulher é uma data política, não romântica.
Por isso nunca vi sentido em dar flores e bombons nesta data, e nos outros 364 dias do ano mandar sua mulher “lavar a louça” e “se fazer respeitar”.
Acontece que, há nove anos, no dia oito de março de 2007, o Dia Internacional da Mulher ganhou um novo significado para mim – romântico, mas ainda assim político.
Eu havia recém saído de um relacionamento altamente abusivo, e estava machucada, devastada, atirada lá no fundo do poço. E foi então que o Cavanhas apareceu, de repente, e me jogou uma cordinha: “Vem cá, eu te ajudo a sair”.
O Cavanhas me ajudou a sair do poço no qual eu me encontrava há sabe-se lá quantos anos, e também me ajudou a ser quem eu sou.
Porém, ele jamais me tratou como um bibelô, como uma princesinha, como uma coisa frágil que ele precisava proteger.
Muito pelo contrário.
Ele me ajudou a sair do poço, fez curativos nas minhas asas, me levou até um despenhadeiro e me mandou voar: “Vai!”.
E de todos os caras que eu já conheci na minha vida, o Cavanhas talvez seja aquele que mais compreendeu o sentido e o significado de ser mulher em um mundo tão careta, desigual e violento como o nosso.
Porque o Cavanhas é um libertário.
Um sujeito livre, que precisa da liberdade mais do que precisa de pão.
Assim como eu sou.
Então, não sei se poderíamos comemorar nosso aniversário de casamento em outra data, que não dia oito de março.
Porque nosso relacionamento, apesar de romântico, é também um relacionamento político. Um relacionamento político baseado em liberdade, em respeito, em troca, em cumplicidade. Em igualdade. Sem qualquer autoridade, algemas, recalque ou repressão.
O Cavanhas nunca me dá flores e bombons no Dia Internacional da Mulher, mas nos outros 364 dias do ano ele me leva até o despenhadeiro e me manda voar.
E eu voo.
E ele vem voando logo atrás.
Feliz aniversário de parceria, bêibe.
Apenas começamos.