08 julho 2016

“A literatura é um lazer; de dever, já bastam nossas vidas previsíveis”

Entrevista com Zeka Sixx, autor da obra A Era de Ouro do Pornô
Por Jana Lauxen


Certa vez, Fausto Wolff escreveu que a sociedade possui um faro afiado, capaz de identificar um questionador de longe. Qualquer um que não engula tudo o que lhe enfiam goela abaixo; qualquer um que discorde do que já está estabelecido; qualquer um que se recuse a fazer parte da engrenagem é reconhecido com precisão pela massa. Afinal, a maioria não quer um questionador por perto, colocando o dedo em sua ferida.
No entanto, os questionadores são fundamentais em qualquer comunidade, e não é diferente na comunidade literária. Encontrar escritores críticos, pensadores, questionadores, é cada vez mais raro. Mas de vez em quando localizamos um: a ovelha negra, indo na contramão da caravana de ovelhinhas brancas – e justamente por isso se destacando.
Ano passado caiu em minhas mãos um livro chamado O Caminho dos Excessos, de um autor gaúcho de codinome Zeka Sixx. Gostei de cara, pois vi de cara que ele era um questionador.
E agora, que o autor acaba de lançar seu segundo livro – e primeiro romance – A Era de Ouro do Pornô, não podia deixar de trocar uma ideia com ele sobre livros, leitores, mercado editorial, pretensões artísticas, e sobre como tudo isso se acomoda em um período de transição tão caótico como o que vivemos hoje.
Convido o leitor a conferir este bate-papo e – mais importante ainda – conhecer seus livros. Porque Zeka Sixx é um cara que tem opiniões, mas não tem certezas – e isso faz dele um questionador. Cuidado!

1. Pouco mais de um ano após publicar seu primeiro livro, O Caminho dos Excessos, você lança o segundo, A Era de Ouro do Pornô.
Quais as principais diferenças entre o escritor Zeka Sixx de 2015 e o Zeka Sixx de 2016?
Eu diria que há um abismo. Os contos de O Caminho dos Excessos foram escritos entre 2002 e 2014, ou seja, eles representam mais de uma década de minha vida como autor. Acredito que eles são um retrato de minha luta para encontrar uma voz como escritor, e essa luta é percebida através da irregularidade existente entre os contos presentes no livro. É como se eu ainda não soubesse exatamente qual direção seguir: ora eu tentava ser Bukowski, ora tentava ser Henry Miller, ora tentava ser Jim Morrison, e assim por diante.
Somente em alguns contos, em especial os quatro ou cinco últimos, é que fica realmente clara uma voz própria, independente, livre de amarras. E foi essa voz, obtida após o longo e tortuoso caminho retratado em O Caminho dos Excessos, a responsável por criar A Era de Ouro do Pornô.
Assim, se O Caminho dos Excessos era sobre a luta para encontrar uma voz como escritor, A Era de Ouro do Pornô retrata o que acontece quando ENCONTRAMOS, afinal, a maldita voz.

2. Os temas que permeiam seus livros não são o que podemos chamar de politicamente corretos. Você fala em sexo, em vícios, e não hesita em escrever palavrões. Na capa de seus dois livros há uma mulher nua.
Enquanto escritor, você percebe alguma resistência ou preconceito em relação à proposta literária de suas obras?
Em sua opinião, o Brasil é um país careta?
No que diz respeito ao meu primeiro livro, O Caminho dos Excessos, não me lembro de ter enfrentado preconceito com relação à temática dos contos. As maiores resistências que percebi, por parte do público, foram relativas a um certo hermetismo que permeia o livro: a linguagem metafórica, surreal, alegórica, que torna alguns dos contos de difícil compreensão. Gosto de comparar, com o devido respeito, O Caminho dos Excessos aos filmes do diretor David Lynch: você pode não entender cem por cento do que está vendo, mas isso não lhe impede de gostar ou até mesmo se encantar com o filme.
Já com relação à Era de Ouro do Pornô, tenho percebido um pouco mais de resistência, em especial quanto ao título e à capa. Percebo que muitos potenciais leitores acham que o livro é apenas mais um “50-tons-genéricos”, classificando-o como mais um livro hot, o que, em minha opinião, não poderia estar mais longe da verdade.
Quanto ao título, tenho consciência que sua escolha pode ser considerada uma aposta de risco, mas tenho certeza também que a grande maioria dos leitores, ao terminar o livro, perceberá que não poderia haver um título melhor para a obra. Com relação à capa, ela também não ficou exatamente o que eu imaginava: tinha em mente algo mais sutil. Mas acredito que ela esteja adequada ao contexto do livro.
Por fim, respondendo à tua segunda pergunta, não acho que o Brasil seja um país careta, apenas um país que lê pouco. O preconceito não é contra a temática das obras em si, mas basicamente contra o simples ato de ler um livro, que é algo considerado “supérfluo”.

3. Você usou, no título de seu segundo livro, a palavra “pornô” – o que, na minha visão, exige alguma coragem, já que pornografia está, no imaginário popular, relacionada com conteúdos de baixíssima qualidade. Costumamos, inclusive, pensar que pornografia não segue roteiro; é só sexo sem história.
Não é o caso de seus dois livros, definitivamente.
O sexo, o álcool, e uma certa forma de degradação estão sempre presentes, mas não são gratuitos. São os elementos que conduzem a narrativa, mas não são a narrativa.
Então eu pergunto: por que você escolheu o título A Era de Ouro do Pornô?
O título A Era de Ouro do Pornô foi escolhido por três motivos. Primeiramente, por que o personagem principal é um fã da referida era, que no universo dos filmes pornôs corresponde a um período compreendido pelos anos 70 e início dos anos 80, uma época onde os filmes eram realizados em película (antes da popularização do videocassete) e exibidos em cinemas. Filmes como Garganta Profunda e Atrás da Porta Verde chegaram a ser exibidos em cinemas convencionais e tornaram-se fenômenos de massa, chegando a serem considerados como filmes de efetivo valor artístico.
Em segundo lugar, os filmes da referida Era de Ouro eram incensados por supostamente terem uma história, algo que atraía as pessoas para além da pornografia, contrariando o consenso geral de que "não existe pornô com história".
E esse é justamente um dos objetivos do livro: atingir o supostamente inatingível, qual seja, ser um "pornô com história", como os filmes da saudosa Era de Ouro do Pornô.
Por fim, escolhi esse título porque, não por acaso, o livro se passa no final de 2012, poucos meses antes de tudo ruir: uma época onde ainda se acreditava que o Brasil era o país do futuro, uma época pré-protestos de junho de 2013, pré-“coxinhas x petralhas”, pré-explosão do feminismo moderno, pré-incêndio da Boate Kiss (um evento que alterou em muitas maneiras a vida noturna como a conhecíamos)... O instante que antecedeu as intermináveis discussões e rixas geradas por todos esses eventos: o último momento onde fomos ingênuos, alienados e otimistas. O último suspiro, enfim, de uma suposta "era de ouro".


4. Na sua visão, há diferença entre o público feminino e masculino quando o assunto é pornografia? O que o homem quer consumir é o mesmo que a mulher quer?
Acredito que certamente há diferenças. A pornografia, tradicionalmente, sempre esteve voltada para o público masculino, algo que com o tempo foi se agravando cada vez mais, tornando-a um alvo fácil para todos aqueles que repudiam a objetificação da mulher.
Nem sempre foi assim: muitos dos filmes da Era de Ouro do Pornô eram assistidos por casais nos cinemas, e vários deles claramente expressavam uma genuína preocupação com o prazer feminino. Atrás da Porta Verde, de 1972, chegou a ser considerado “o primeiro filme pornô para mulheres”. Com o fim da Era de Ouro e dos filmes pornô chic, qualquer resquício de arte foi perdido, e o foco passou a ser unicamente o lucro.
Felizmente, a coisa tem mudado nos últimos anos, e hoje existe todo um nicho de pornografia voltado para o público feminino, com artistas e diretores como Erika Lust, Stoya, e até mesmo a “falecida” Sasha Grey.

5. Seu primeiro livro, O Caminho dos Excessos, foi publicado de forma totalmente independente, sem qualquer selo editorial. Já o segundo, A Era de Ouro do Pornô, foi lançado pelo grupo editorial Multifoco, através do selo Erótica.
Por que você optou por lançar seu segundo livro através de uma editora? E quais são as principais diferenças que você percebeu entre estes dois processos de publicação?
Optei por lançar A Era de Ouro do Pornô por uma editora primeiramente pelo fato de não querer passar de novo por toda a trabalheira que envolveu a publicação de O Caminho dos Excessos: diagramação, inscrição no ISBN, inscrição dos direitos autorais, ficha catalográfica, idealização da capa, etc.
Já no segundo livro, a verdade é que eu não tinha mais o mesmo tempo, a mesma disposição e o mesmo dinheiro disponível para fazer tudo por conta própria outra vez.
Além disso, optei por lançar por uma editora por entender que A Era de Ouro do Pornô possui um apelo comercial bem mais forte do que O Caminho dos Excessos. É uma leitura fácil, direta e despretensiosa, focada unicamente em um objetivo: contar uma boa história, cativante, e com personagens verossímeis.
Quanto às diferenças entre um processo e outro, a principal que percebi, até agora, é referente à distribuição, pois o livro está à venda no site da própria Editora Multifoco, e também no site da Livraria Cultura, o que, na prática, o torna acessível a qualquer leitor brasileiro.
Além disso, a Multifoco me oportunizou fazer um lançamento na Bienal do Livro de São Paulo, no dia 03/09/2016, o que tenho certeza que será uma experiência incrível para difundir a obra.

Zeka Sixx.
6. Fernando Pessoa escreveu que “A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida”. Durante nossa conversa, você questionou: “Somos todos realmente artistas, ou buscamos na pretensão artística uma forma de escaparmos da realidade?”.
E eu te devolvo a pergunta, Zeka: somos todos realmente artistas, ou buscamos na pretensão artística uma forma de escaparmos da realidade?
Acredito que a atual geração jovem viveu – e ainda vive – um dilema, talvez em parte provocado pelos “anos de bonança” que precederam o caos no qual hoje estamos mergulhados. Colocamos na cabeça a ideia de que temos de ser inovadores, artistas, trendsetters: todo jovem quer ser escritor, DJ, dançarino, tatuador, ator, youtuber, criador de uma startup, ao invés das profissões “tradicionais” (médico, engenheiro, advogado, etc.).
É claro que não há nada de errado com essas profissões modernas, muito pelo contrário. Mas buscá-las como se fossem a única saída possível me parece perigoso, um reflexo de uma geração que busca cada vez mais estender sua juventude e, ao mesmo tempo, fugir de suas responsabilidades.
Em 2012, quando ainda acreditávamos que o Brasil era o “país do futuro”, vídeos como We All Want to Be Young pareciam fazer total sentido; hoje, soam risíveis.
Enfim, apenas acho que você não precisa viver de arte para ser um artista. Ou melhor: você sequer tem a obrigação de ser um artista.

7. Max Califórnia, supostamente, é o protagonista da obra A Era de Ouro do Pornô. No entanto, fica evidente que a cidade de Porto Alegre é a personagem central, o agente catalisador e condutor de toda a história.
Se Max é um anti-herói, Porto Alegre tampouco precisa de um herói para salvá-la.
Gostaria de saber: qual a influência de Porto Alegre na sua literatura, e na pessoa que você é?
Durante todo o tempo em que passei escrevendo contos, sempre tive um ideal na cabeça: fazer uma literatura “atemporal”, vazia de referências específicas a lugares e aparatos tecnológicos. Grande parte dos contos de O Caminho dos Excessos poderia se passar em qualquer cidade do mundo nos séculos XX ou XXI.
Já em A Era de Ouro do Pornô quis fazer algo radicalmente contrário: escolher um lugar específico e virá-lo do avesso, exibi-lo em seus mínimos detalhes, expor as suas entranhas.
Além disso, percebi o fato de nossa geração não ter um livro definitivo sobre Porto Alegre, e tracei o nada modesto objetivo do romance: ser não apenas o “retrato de uma geração perdida”, mas também uma sincera e ensandecida homenagem a Porto Alegre, a cidade que amamos odiar e odiamos amar.

Zeka Sixx no lançamento de seu segundo livro, "A Era de Ouro do Pornô".

8. Quando, onde e em qual horário você costuma escrever, Zeka? A literatura, para você, é lazer ou dever?
Não tenho exatamente uma fórmula mágica. Meu primeiro livro foi escrito em casa, ao lado de uma garrafa de Jack Daniel’s, ao som de The Doors, Mötley Crüe e Guns N’ Roses, com um incenso no canto da sala.
A Era de Ouro do Pornô foi escrito em sua totalidade comigo 100% sóbrio, basicamente em uma única situação: no tempo livre que eu tinha no trabalho. Quaisquer quinze ou trinta minutos de folga que eu tinha, eu jogava as palavras no computador: um parágrafo, ou até mesmo uma única frase.
O livro foi escrito relativamente rápido, em cerca de cinco meses, entre maio e setembro de 2015.
Para mim, a literatura é definitivamente um lazer: de dever, já bastam nossas vidas atarefadas e previsíveis.

9. Vivemos em um país cujos índices de leitura são vergonhosos. Onde as pessoas preferem pagar R$100 por uma pizza do que R$30 por um livro. Onde, apesar de ter se tornado mais fácil e acessível publicar, ainda encontramos muitas dificuldades em colocar os livros nas mãos dos leitores – até por que, existem poucos leitores.
Na sua visão, qual é o papel do escritor neste cenário aparentemente desolador?
Acredito que o papel do escritor, primordialmente, continua sendo o óbvio: escrever obras de qualidade. Mas temos também de descer do pedestal, estarmos acessíveis aos leitores, divulgarmos nossas obras de maneira inteligente e, acima de tudo, sabermos OUVIR CRÍTICAS. Sem as críticas, não existiria A Era de Ouro do Pornô.

10. Seguindo este raciocínio, sabemos que as editoras brasileiras recebem mais originais do que são capazes de vender livros. Não é raro uma editora receber 40 originais em uma semana e, neste mesmo espaço de tempo, não vender um único livro sequer.
Vivemos em um país com mais escritores do que leitores, Zeka?
Ao que tudo indica, sim. Em parte, talvez, por causa do que disse acima: somos uma geração com aspirações artísticas exacerbadas. É claro que é muito mais cool escrever/lançar um livro do que ser um mero leitor, muito embora a leitura seja uma experiência infinitamente mais transformadora.

11. É comum que leitores confundam autor e obra, e até mesmo julguem determinados livros como diários públicos do próprio escritor – o que se configura em um erro elementar, apesar de comum.
Em contrapartida, também é certo dizer que todo escritor se inspira muito na vida, no dia a dia, no cotidiano, para criar suas histórias.
Gostaria de saber quanto há de você, e das pessoas que lhe rodeiam, em suas obras?
Por ocasião do meu primeiro livro, O Caminho dos Excessos, fui bastante questionado – e até criticado – pelo fato de que muitos dos contos pareciam tratar de experiências reais, quase como se o livro fosse meu diário.
E, de fato, muitas daquelas histórias eram fortemente baseadas em experiências pessoais, não posso negar: era sim uma obra "semibiográfica". Mas, em A Era de Ouro do Pornô, decidi que queria deixar minhas experiências de lado, buscar algo realmente ficcional.
Assim, eu diria que existe muito pouco de Zeka Sixx em Max Califórnia, até mesmo por que, minhas histórias são ainda mais escabrosas – e digo isso sem qualquer orgulho.

12. Zeka, e quais são os planos daqui pra frente? O que consta na sua lista de atividades até o final deste ano?
Observar as reações ao livro, aprender com as críticas, saber entender os elogios. Depois, partir para um novo livro, um novo desafio, buscar temáticas diferentes, talvez até mesmo escrever um livro sob o ponto de vista de uma mulher, por que não?
Tenho também outro objetivo: lançar uma versão em quadrinhos de A Era de Ouro do Pornô. Acho realmente que o romance renderia uma bela graphic novel no estilo Robert Crumb. Estou em busca de parceiros para essa empreitada. Alguém se habilita?