15 junho 2016

Lute Pelos 49

Mulheres, negros e homossexuais têm, estatisticamente, muito mais chances de sofrerem violência quando saem de casa – e muitas vezes, nem precisam sair de casa para que a violência aconteça. Enquanto homens brancos e heterossexuais têm medo de serem assaltados e levarem um tiro na cara por causa de um celular, as mulheres, os negros e os homossexuais, além do medo do assalto, têm medo de levarem um tiro na cara por serem mulheres, negros e homossexuais.
Não sou eu quem está dizendo; são os números. No Brasil, 13 mulheres são assassinadas por dia*. 77% dos mortos pela polícia são negros**. Em 2013, 312 homossexuais foram assassinados no Brasil – um a cada 28 horas***.
Se pensarmos que, em 2014, tivemos mais de 58 mil homicídios no país****, estes números que retratam a violência contra mulheres, negros e homossexuais podem parecer pequenos.
A diferença reside na motivação.
Homens brancos e heterossexuais são assassinados todos os dias, mas não por que são brancos e heterossexuais.
Veja que, entre as mulheres brasileiras assassinadas diariamente em nosso país, 70% morrem nas mãos de maridos e companheiros*****. Entre os homossexuais, a maioria acachapante dos homicídios ocorre com requintes de crueldade, que incluem mutilação, espancamento, estupro e tortura. Uma motivação diferente daquela que faz o assaltante atirar quando o assaltado demora a entregar o tênis.
Eu sou branca e heterossexual, mas também sou mulher, e por isso faço parte de um destes grupos de risco. Porque, enquanto um homem sente medo de ser assaltado enquanto anda por uma rua deserta de noite, eu sinto medo quando o encanador vem consertar o chuveiro no meio da tarde e eu estou sozinha em casa.
Então, se você é branco, homem, heterossexual; se não integra nenhuma parcela social que sofre discriminação; por favor, ao menos escute os que são vítimas e potenciais vítimas desta violência absurda, que se alimenta única e exclusivamente de preconceito.
Quando matanças como esta, que aconteceu em Orlando no último sábado, eclodem, precisamos fazer mais do que simplesmente ajoelhar e rezar. Precisamos rever nosso posicionamento enquanto indivíduo, enquanto cidadão, e tentar entender qual é o nosso papel em uma sociedade que ainda aplaude discursos machistas, racistas e homofóbicos.
O discurso alimenta o ódio, que alimenta a violência, que alimenta massacres como este, que matou 49 pessoas e feriu mais de 50.
Este homem, que entrou em uma boate armado até os dentes e atirou aleatoriamente contra a multidão, não é um doente. Os sujeitos que estupraram uma adolescente no Rio de Janeiro não são doentes. Os policiais que atiraram 111 vezes em um carro lotado de garotos negros não são doentes. Os caras que espancaram, queimaram, mutilaram e assassinaram meu amigo gay, lá nos idos de 2004, não são doentes.
São cidadãos criados e fartamente alimentados por uma sociedade que não consegue entender a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio. Uma sociedade que não compreende o que se passa além de sua própria realidade, e tampouco enxerga além de seu próprio portão.
Uma sociedade a qual eu e você pertencemos.
E eu pergunto: é desta sociedade que queremos fazer parte?
Se não é, faça mais do que apenas rezar pelas vítimas de Orlando.
Lute por elas.
Lute por nós.


Dados: * Mapa da Violência Contra a Mulher – 2015 / ** Instituto de Segurança Pública (ISP) – 2015 / *** Grupo Gay da Bahia (GGB) – 2013 / **** 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública – 2014 / ***** Mapa da Violência Contra a Mulher – 2012