27 junho 2016

Janaína, Juba de Leão

Quando eu era criança meu cabelo era liso. Um dia, não mais que de repente, ele começou a encaracolar. Em seguida, se transformou em uma cabeleira crespa e volumosa, que me trouxe muitas dores de cabeça na adolescência.
Na escola, diziam que eu tinha “cabelo ruim”. Que mais parecia a juba de um leão. Pediam que eu não sentasse nas primeiras filas, porque “atrapalhava a visão dos colegas”. Eu fiz o que todo adolescente faz quando é alvo de piadas no colégio: dei dois passos pra trás e me retraí. Andava sempre de cabelo preso – e às vezes prendia com tanta força que chegava a doer. “Abaixar a juba” era o maior objetivo da minha vida. Meu crespo virou um drama juvenil.
E assim eu cresci, matando diariamente o leão que era o meu cabelo; algo extremamente cansativo e frustrante. Então, quando surgiram as primeiras técnicas de alisamento, esvaziei meu cofrinho e finalmente tinha um cabelo liso! Estava no topo da cadeia alimentar! Meu cabelo agora era comportado, sem frizz, sem volume, adeus juba de leão!
É verdade que o processo de alisamento (que eu repetia religiosamente a cada 45 dias) era sofrido. Além de fedorento, doía. Sem contar o dinheiro. Gastei dezenas de centenas de reais ao longo desta guerra inútil que declarei ao meu cabelo.
Um dia, eu cansei. Mas não foi assim simplesmente, e nem naturalmente. Aconteceu que eu comecei a ter contato com ideias do movimento feminista, e a compreender o quanto as mulheres são mantidas reféns através do controle de sua estética.
Estética é identidade, e ridicularizar uma de minhas características físicas é uma forma eficiente de me alienar e silenciar. Nunca se tratou de controlar o meu cabelo, mas de me controlar! Porque enquanto eu estiver no salão preocupada com frizz e volume, não estou incomodando ninguém.
As mulheres já nascem aprisionadas em uma espécie de manicômio estético, no qual sua função se resume a enquadrar sua aparência nos padrões de beleza impostos – a maioria totalmente inatingível. É preciso ser magra, mas não muito; ser alta, mas não demais. A postura deve ser delicada, e o cabelo, liso, e de preferência comprido também.
Então se o seu cabelo é crespo e curto, se você é baixa ou alta demais, gorda ou magra demais, grande ou pequena demais, AI MEU DEUS QUE HORROR! Não pode.
Seu cabelo deve ser comportado e obediente, assim como você, Janaína.
Entender isso mudou toda a minha percepção sobre a vida. Porque, até pouco tempo, minha primeira preocupação era minha própria aparência: que roupa vou usar? Preciso fazer uma escova antes de sair, preciso retocar o alisamento, preciso perder sete quilos, preciso voltar pra academia. E assim eu ia, fazendo chapinha e enlouquecendo porque estava feia e gorda e crespa e com frizz. Uma agonia sem fim.
Assim, depois de quatro anos ininterruptos, parei de alisar meu cabelo. Um processo mais difícil do que pode parecer, pois não foi uma decisão meramente estética, mas também política. Uma maneira de dizer: chega! Tirem suas mãos do meu cabelo, e de mim, e da minha vida, e me deixem ser como eu sou! Sabe por quê? Porque EU POSSO ser como eu sou. Durmam com esse barulho.
No entanto, admito: nas primeiras vezes em que apareci crespa em público me senti bastante constrangida. Parecia que, a qualquer momento, alguém ia gritar “Janaína, juba de leão”.
Mas agora, passados quase dois anos desde que reneguei o alisamento, nem cogito a possibilidade de domar a juba. Porque a alegria e a liberdade de fazer as pazes com quem eu sou são infinitamente mais interessantes do que a angústia e a prisão de tentar ser quem eu não sou.
Janaína, juba de leão SIM, e com muito orgulho.
Eu nem compro produtos para cabelos crespos porque todos prometem acabar com os “fios rebeldes e indisciplinados”.
Queridos, meu cabelo é porque eu também sou. ;)