23 março 2016

Politicamente Bebês

Em junho de 2013, quando a população brasileira foi às ruas em peso, espontaneamente e sem qualquer bandeira partidária, uma das críticas mais recorrentes era a de que as reivindicações da multidão eram subjetivas; que não havia um líder com quem negociar; que o povo nem sabia direito o que queria.
Naquela ocasião, eu pensei com meus botões: agora que aprendemos o caminho das ruas, quem vai nos tirar de lá?
Não deu outra. De 2013 pra cá, o brasileiro fez da rua seu lar, doce lar. Categorias profissionais das mais variadas foram para as ruas pedir melhores condições de trabalho, estudantes ocuparam escolas, grupos pró e contra o governo lotaram as ruas de todas as capitais, e até alunas de um colégio em Porto Alegre protestaram pelo direito de usar shorts, assim como usam seus colegas meninos.
Após a explosão popular de 2013, diferentes agremiações sociais passaram a se organizar e a reivindicar por direitos bastante específicos. Não havia mais nada de subjetivo. Seguimos sem um líder, mas agora cada grupo sabe exatamente o que quer.
Assim, as manifestações que ocorreram no Brasil nos dias 13 e 18 de março de 2016 são filhas legítimas daquelas primeiras manifestações, lá em meados de 2013. Quase três anos se passaram, e neste meio-tempo entramos em um processo irrefreável de politização.
Porque eu cresci ouvindo que o brasileiro não sabe votar. Que o brasileiro é despolitizado, que tem memória curta, que não gosta de política – e, por isso, sempre foi comandado por quem gosta. Nas rodas de conversa Brasil afora, o assunto sempre foi novela, futebol e Big Brother. Éramos o país do carnaval, da caipirinha, do Pelé e do Neymar.
Éramos.
Semana passada, estava eu fazendo as unhas quando me dei conta de que éramos seis ou sete mulheres conversando sobre política em pleno salão de beleza. Na virada de ano, quando o sol já nascia, me surpreendi ao ver meus amigos falando de política às seis e meia da manhã. Minha avó, que sempre foi fanática pelas novelas mexicanas do SBT, agora lê jornal e discorre sobre pedalada fiscal. Pessoas que nem lembravam em quem votaram na última eleição agora sabem nome e sobrenome de deputados, ministros, senadores, doleiros, juízes. Um fenômeno impressionante.
Fenômeno este resultado deste processo de politização. Estamos aprendendo a importância da política para o desenvolvimento de qualquer nação, e estamos descobrindo que, enquanto povo, somos patrão, e não empregado.
No entanto, politizar-se é um processo lento e complexo. Foram anos, muitos anos vivendo em total hibernação política. Logo, não será em meia dúzia de meses que nos tornaremos politicamente adultos.
Penso que, hoje, em matéria de política, somos como uma criança que está aprendendo a andar. Primeiro a gente engatinha, depois dá alguns passos, e então cai, se machuca, levanta, começa tudo de novo. Enquanto aprendemos a caminhar por este terreno íngreme e delicado chamado política, vamos fazendo muita bagunça, falando muita bobagem, nos posicionando de modo totalmente equivocado, infantil, histérico. Caindo, se machucando, chorando, levantando, firmando as pernas. Este somos nós, hoje. Este é o nosso Brasil, agora.
Por isso, amigo leitor, quando você pensar que não há esperança; que o brasileiro está fadado à ignorância; que seremos eternamente analfabetos políticos, e que jamais vamos aprender a caminhar sozinhos, lembre-se que, como toda criança, precisaremos cair e nos machucar muitas vezes, até finalmente firmarmos nossas pernas e seguirmos estáveis pelo nosso caminho.
E hoje estamos mais perto deste dia, do que estávamos em junho de 2013.
Sigamos caindo e levantando, então.
Uma hora a gente chega lá.