02 janeiro 2016

As duas versões de 2015

De cada dez pessoas com quem eu converso, nove me dizem que 2015 foi um ano tenso. Horrível. Nebuloso. Para ser esquecido o mais rapidamente possível. “Ainda bem que está acabando, né?”. 
Admito que em 2015 aconteceu muita merda. O Brasil afundou em uma crise econômica, política e moral sem precedentes. Perdemos grandes artistas e pensadores. Vimos atentados terroristas matar inocentes nos quatro cantos do mundo; sem falar na guerra, e no terrível drama dos refugiados. Tragédias ambientais e desastres naturais também não faltaram. E a violência cotidiana parece nos encurralar cada dia mais.
Pessoalmente, 2015 também me deixou de cabelo em pé. Minha mãe teve uma isquemia cerebral na metade do ano, e minha afilhada, de apenas dois anos, foi hospitalizada várias vezes, por conta de febre alta. Logo no início de 2015 tive um projeto literário lindo recusado, porque os pais dos alunos acharam um absurdo investir R$60 na compra de dois livros, com textos e desenhos de seus próprios filhos – e isso quase enterrou minha fé na humanidade. Decepcionei-me fortemente com dois amigos que considerava irmãos. Vi meu dinheiro desaparecer em contas de luz, em aluguel, em condomínio, em supermercado. Fui derrubada por crises alérgicas sinistras.
Esta é uma versão de 2015. Mas eu detesto esta versão.
Porque existe outra, bem melhor, mais bonita e menos triste, que é esta: em 2015 eu vi muitas mulheres se unindo contra o machismo e a violência doméstica, seja nas ruas, seja na internet, o que aumentou em 40% as denúncias ao 180 (disque-denúncia nacional e gratuito voltado para o atendimento de mulheres vítimas de violência). Após os múltiplos e violentos ataques terroristas que o mundo assistiu, vi multidões em oração, pedindo paz. Vi crianças e adolescentes descobrindo sua cidadania ao lutar para manter suas escolas abertas. Vi políticos corruptos sendo presos, e vi dinheiro público voltando para os cofres públicos – lugar de onde nunca deveria ter saído.
Apesar da isquemia, minha mãe não ficou com nenhuma sequela – o médico disse que foi “muita sorte”. Minha afilhada, mesmo com suas muitas internações, segue linda, e forte, e esperta. Encontrei pessoas em meu caminho que me fizeram recuperar a fé na humanidade. Conheci novos e bons amigos. Terminei de escrever meu terceiro livro. Fiz palestras em escolas, e recebi tanto carinho, que nem sei explicar. Participei de eventos literários incríveis. Lancei o livro Gazeta do Novo Escritor ao lado da minha parceira Reni Terezinha Duarte, e colaborei no lançamento e divulgação do coletivo Big Buka. Escrevi muito, li muito, estudei muito. Tenho saúde, tenho uma casa para morar, tenho comida na mesa, tenho trabalho para fazer.
Esta é a minha versão sobre 2015.
Eu escolho olhar 2015 através deste ângulo.
E é por isso que, em minha opinião, este não foi um ano tenso, nem horrível, nem nebuloso. Tampouco é um ano para ser esquecido – muito, muito pelo contrário.
Então, olhe para 2015 com olhos mais leves e limpos. Porque talvez o seu ano tenha sido melhor do que você imagina.