30 outubro 2015

Quem é o seu deus?

Todos os religiosos são devotos de algum deus. E independente de como cada um nomeia o seu, creio que, em um ponto, todos concordam: deus é um cara bacana. Seja lá quem for este deus, ele é do bem. Certo? Certo.
Mas se deus é legal; se ele é do lado bom da força; por que raios a maioria de seus supostos seguidores não é? Afinal, se deus é gente boa, ele não pode ser assim, tão agressivo e azedo como vocês o pintam. Se deus é pai de todos, suponho que também seja pai dos travestis, das prostitutas, dos criminosos, dos umbandistas, dos ateus, dos miseráveis, dos viciados, dos gays, dos jogadores de rúgbi.
Vejam o caso de Jesus Cristo: quando ele teoricamente viveu entre nós, há mais ou menos dois mil anos, só andou com os excluídos e com os marginalizados. Não me lembro de nenhuma parte de sua história onde ele menciona curar homossexuais, linchar bandidos, ou atirar pedras em crianças com outra fé.
Então, ou deus é um sujeito preconceituoso, mal-humorado e violento, ou seus seguidores não estão entendendo da missa um terço. Fico com a segunda opção.
Porque debocha da lógica um deus que não respeita a diferença. Que não compreende o sofrimento do outro, que desconhece a empatia. Não aceito – porque minha razão não permite – um deus tão cruel, vingativo, intolerante e megalomaníaco. Neste deus, que muitos seguem, eu não acredito.
O deus que eu chamo de meu é um cara legal e pacífico. Não se importa se você é gay, crente, promíscuo, leproso, dançarino, asiático: ele te aceita, e fim. Este deus que é meu não perde tempo com picuinhas e com detalhes irrelevantes, como a sua profissão, a sua religião, a cor da sua pele, o seu desejo sexual ou a sua conta bancária. Ele quer apenas saber se você é um sujeito bacana, como Ele é.
O meu deus está interessado nas tuas atitudes; em quem você é no seu dia a dia. Ele espera que você ame os outros – e se não puder amar, que ao menos os respeite. Ele fica de olho no jeito como tratamos o garçom e o porteiro e o empresário rico, e se nos importamos quando enxergamos uma pessoa dormindo na rua, seja ela criança ou não. Ele somente deseja que a gente ajude quem não pode se ajudar, e que tenhamos um pouco de decência e compaixão na forma como vemos o mundo, e o próximo.
O deus que é meu aceita a diversidade – e não só aceita, como a celebra e a admira, já que Ele próprio a criou.
No entanto, para muitas pessoas, só uma fé tem valor: a sua.
Estas pessoas frequentam religiosamente templos e cultos, mas já saem da igreja falando mal do vizinho. Estas pessoas rezam o dia inteiro, mas julgam o próximo com uma severidade que não usam para julgar a si mesmas. Estas pessoas apedrejam crianças, atiram homossexuais do décimo andar, e odeiam qualquer crença ou filosofia que vá contra suas certezas miúdas e egocêntricas.
O deus destas pessoas não é o meu deus.

É o seu?