05 agosto 2015

Eu amo fazer política!

Originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

Essa afirmação pode soar esquisita em tempos atuais. Especialmente vinda de uma pessoa como eu, que nunca se candidatou a cargo nenhum, que não é filiada a nenhuma sigla partidária, que jamais militou em favor de qualquer bandeira. Mas eu amo política, e a pratico diariamente.
Porque, na minha visão, há uma diferença crucial entre política e politicagem, e vou explicá-la dando um exemplo.
Certa vez, um amigo muito querido, pelo qual tenho enorme respeito, me procurou, pois estava pensando em se candidatar a vereador em sua cidade, e queria saber a minha opinião. Este amigo sempre esteve envolvido em trabalhos voluntários, era colaborador de uma ONG para crianças com HIV, e não se negava a ver a pobreza e a desigualdade que o cercava – como cerca a todos nós. Um homem livre de preconceitos, generoso, daqueles que trazem soluções, e não problemas. Um cara realmente admirável.
Por tudo isso, quando ele me fez esta pergunta, confesso que fiquei um pouco atordoada. Mas não hesitei em responder:
– Você quer ser vereador porque pretende fazer mais pela sua cidade, ou por vaidade?
Ele me encarou intrigado, arregalando os olhos. E também não hesitou em responder:
– Para fazer mais pela minha cidade, é claro.
– Então, meu amigo, não se candidate. Porque ou você entra para a política por vaidade, ou você não entra.
Conheço N casos de pessoas bacanas e bem-intencionadas que, depois de eleitas para ocupar cargos públicos, se tornaram um peso morto sobre a Terra. Gente ativa, criativa e produtiva, que em poucos meses não era capaz de levantar a bunda de sua cadeira – de couro, é lógico – e fazer qualquer coisa pelo próximo.
O sistema político está apodrecido, e naturalmente apodrece quem dele se aproxima. Não importa o tamanho da sua boa intenção; a engrenagem vai te engolir, meu chapa. E então restarão somente duas opções: ou você sai, ou você abraça o diabo.
Então – eu disse para este amigo – se você quiser fazer mais pela sua cidade, continue fazendo exatamente o que você está fazendo. Somando, ao invés de subtraindo. Apresentando saídas, e não empecilhos. Assim você estará fazendo mais do que a maioria, e muito, muito, muito mais do que qualquer político é capaz de fazer.
Não desperdice sua energia e sua boa vontade com as falcatruas e as maracutaias da politicagem ordinária e escrota que é exercida neste país.
Porque política eu faço todo dia, e amo. Eu faço política quando vou até uma escola de periferia falar sobre literatura. Quando escrevo textos sem nenhuma maquiagem, dando minhas opiniões. Quando me manifesto toda vez que vejo uma injustiça. Quando olho para o mendigo e para o menino de rua, e não penso que eles são vagabundos que merecem morrer. Eu vivo a política o tempo inteiro, porque não consigo separar quem eu sou daquilo que penso e faço.
Eu pratico política; os políticos praticam politicagem. Eu amo política, e detesto, desprezo, abomino a politicagem. Por isso eu jamais me candidataria à vereadora/senadora/deputada, ou mesmo para presidente do grêmio estudantil. Porque, se eu fizer isso, em pouco tempo não farei mais política; farei apenas politicagem.
Se nossos políticos – todos eles, independente do partido – fossem menos vaidosos e megalomaníacos, e se dedicassem a fazer política com o mesmo afinco e entusiasmo com o qual se dedicam a fazer politicagem, que país melhor e mais bonito nós teríamos!
Meu amigo não se candidatou a vereador.
E continua fazendo política, porque ele a ama tanto quanto eu.