14 abril 2015

Não acredite em tudo o que dizem para você.



Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

“Mas eu vi na TV; eu li na revista; eu ouvi no rádio”. Quantas vezes não é este o argumento, quando alguém busca comprovar ou dar credibilidade para sua opinião? Um argumento tão profundo quanto uma poça d’água, e tão frágil quanto um copo de cristal caindo do oitavo andar. 
É preciso entender: emissoras de rádios e TVs, revistas e jornais, são feitos por pessoas. Pessoas como eu e você, que mentem, que deturpam, que interpretam cada situação baseadas somente naquilo que são, e acreditam. “Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”, já disse a escritora Anaïs Nin. Logo, o fato de uma notícia estar na mídia não significa, de forma nenhuma, que é a verdade absoluta.
Ademais, sabemos que o que mantém qualquer TV, jornal, rádio ou revista é a propaganda. Sem anunciantes, veículo nenhum se sustenta. E, adivinhem? Por trás destes anunciantes também existem pessoas, que como todas as pessoas possuem interesses, e mentem, e deturpam, e omitem. 
Imaginemos que o diretor de uma grande empresa matou sua esposa, e que esta grande empresa é a maior anunciante da região. Esta empresa patrocina todos os veículos de comunicação de determinada cidade. Agora, imaginemos se estes veículos, patrocinados pela empresa deste diretor criminoso, irão informar com imparcialidade a notícia de que o homem que mais lhe dá lucros é um assassino. Não, não irão. E é por isso que governos, sejam municipais, estaduais ou federais, costumam ser os maiores anunciantes de qualquer canal de comunicação.
Isso quando o veículo não comercializa a própria notícia. Ao invés de vender apenas o espaço publicitário, vende também a reportagem. Mas a reportagem não é publicada como ‘informe publicitário’ – o que, pelo menos, precaveria que aquelas informações estão sendo pagas por um anunciante. A propaganda é vendida como notícia, e a gente lê, ouve e vê jurando que é notícia. Só que não é.
Nunca haverá neutralidade jornalística enquanto houver anunciantes e políticos atuando nas redações de veículos de comunicação. Então, não acredite em tudo o que dizem para você. Não acredite nem mesmo em mim, e neste texto que escrevo. Não sem antes pensar – mas só vale se você pensar com a sua própria cabeça.
Uma nação evoluída é capaz de duvidar, de contestar, de repensar. Não engole tudo o que lhes dão. Em contrapartida, um povo ainda oprimido, ainda ignorante, ainda manipulado, compra como verdade tudo o que aparece nos jornais, TVs, rádios e revistas. 
Ainda fazemos parte deste segundo grupo, infelizmente.