09 fevereiro 2015

“Quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais”



* Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

Este trecho da música “A Maçã”, do cantor Raul Seixas, traduz com clareza ímpar uma questão de suma importância para toda sociedade que pretende caminhar para frente: o respeito ao próximo – seja este próximo quem for.
O exemplo é incontestável: ninguém pode gostar de uma única maçã. Quem gosta, gosta de todas. Porque todas as maçãs são iguais.
Conheço muita gente que afirma amar seus pais acima de tudo, mas não tem a menor consideração pelos pais dos outros. Gente que garante cuidar de seus filhos, mas pouco se importa com os filhos alheios. Gente que assegura adorar seus irmãos, mas não está nem aí para os irmãos do vizinho. Gente que jura gostar de seus amigos, mas não respeita os amigos do próximo.
E eu pergunto: isso é possível? Afinal, amar os seus é fácil; até Hitler gostava daqueles que lhe rodeavam. No entanto, é verdadeiramente possível amar os seus sem amar a todos? Dá para gostar somente de uma única maçã, e não de todas?
Aparentemente sim. Porém, eu acredito que este amor que afirmamos sentir pelos nossos é um amor egoísta. Só os amamos por que eles são próximos de nós. Se teus pais, teus filhos, teus irmãos e teus amigos não fossem teus, você os amaria do mesmo jeito? Provavelmente não.
A nossa afeição – um sentimento que deveria ser sublime e imaculado – nos torna individualistas, visto que termina por se restringir a um círculo íntimo de parentes ou de amigos, sendo que todos os outros nos são indiferentes.
E se preocupar com os outros; sofrer com as suas dores e se alegrar com as suas conquistas, é também uma forma de fazer caridade. Costumamos acreditar que a caridade se limita a auxiliar os mais necessitados, ou realizar algum trabalho voluntário em uma instituição filantrópica. E, sim, isto é caridade.
Mas também é caridade vencer nossas limitações, nossos preconceitos, nosso egocentrismo, e tentar – pelo menos tentar – amar e respeitar os outros como amamos e respeitamos os nossos. E a nós mesmos.
Não há tanto mérito em amar seu pai, seu filho, seu amigo e seu irmão, como há em amar o pai, o filho, o amigo e o irmão do próximo. 
Por que quem gosta de pessoas irá gostar de todas, porque todas são iguais.

03 fevereiro 2015

Jair Bolsonaro não é o problema



* Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional de dezembro de 2014.

Recentemente, e como sempre, Jair Bolsonaro falou merda. Desta vez, disse em plenário que não estupraria a deputada Maria do Rosário por que “ela não merece”. Afinal, algumas mulheres merecem. Mais uma declaração bizarra para uma coleção de declarações bizarras, preconceituosas e horripilantes, marca registrada do deputado queridinho da Tradicional Família Brasileira.
Bolsonaro não quer saber de direitos civis e igualdade – premissa básica para qualquer país que pretende crescer e se desenvolver. Bolsonaro acredita que algumas pessoas são melhores do que outras: que o branco é superior ao negro; que o homem é superior à mulher; que o heterossexual é superior ao homossexual. E estas classes “inferiores” devem ser combatidas com veemência e violência.
Mas, apesar de tudo, não creio que Jair Bolsonaro seja o problema. Por que ele não é a causa; é a consequência. Bolsonaro não é deputado por que deu um golpe e tomou o poder. Ele foi eleito democraticamente – e não somente isso: foi o deputado mais votado nas últimas eleições, enquanto seu filho, Flávio Bolsonaro, foi o terceiro mais votado. Vou além: com as eleições deste ano, Bolsonaro foi eleito para o seu sétimo mandato. Eu disse SÉTIMO mandato. Ou seja: se ele está onde está, falando os despautérios que fala, não é por acaso. É, isto sim, por que representa a opinião e o posicionamento de boa parte dos brasileiros, que concordam que brancos, homens e heterossexuais são superiores a negros, mulheres e homossexuais. São pessoas que sustentam e endossam suas declarações preconceituosas. E estas pessoas, que votam, elegem e defendem Bolsonaro, estas sim são motivos de preocupação. De muita preocupação.
Bolsonaro é o deputado mais votado de um país onde, a cada 5 minutos, uma mulher é agredida*. Onde, a cada 2 horas, uma mulher é assassinada*. Um país onde 77% dos jovens assassinados são negros**. Onde, a cada 10 minutos, uma mulher é estuprada***. Onde um homossexual é morto a cada 28 horas, colocando o Brasil na liderança de um ranking mundial de violência contra homossexuais****.
Mas Bolsonaro e seus milhares de eleitores querem proteger quem não precisa de proteção, e agredir quem já é agredido o tempo inteiro. E isso me incomoda.
Acredito que estes eleitores, que assinam embaixo das declarações odiosas deste pouco nobre deputado, não possuem mulheres, negros e gays em suas famílias e em seus círculos de relações. Caso possuíssem, não poderiam defender Bolsonaro, sob o risco de proteger quem ataca os seus. 
Só que eu possuo. 
Eu tenho negros e gays em minha família e entre meus amigos mais próximos e – vejam só! – eu sou mulher, e não estou livre de integrar as estatísticas. De certo modo, já integro. Afinal, eu sofri violência doméstica, e tenho muitas amigas que também sofreram. Uma, inclusive, foi estuprada, e nem procurou a polícia, porque, segundo ela, “não adianta”. Eu tive um amigo assassinado brutalmente só por que era gay. 
Então, não. Eu jamais defenderei o opressor e atacarei o oprimido.
Pelo contrário. Seguirei fazendo parte do grupo que batalha pelo fim da violência, pelo fim do racismo, pelo fim do preconceito. Um grupo que sempre defenderá o direito de todo cidadão de andar pela rua sem medo de ser agredido e assassinado na próxima esquina, apenas por causa de seu sexo, de sua cor, de seu desejo sexual. Continuarei fazendo parte do grupo que luta para tornar nosso país mais justo e igualitário. Mais justo e igualitário para negros, gays, mulheres, índios, nordestinos. Mas também para o Bolsonaro e seus eleitores, e para os defensores da Ditadura Militar, e para a preconceituosa e tradicional família brasileira.
Por que, quando a igualdade é instaurada e o país melhora, melhora para todos. 
Até para os cretinos.

* Dados do Mapa da Violência de 2012 – Homicídio de Mulheres / ** Dados da Anistia Internacional no Brasil / *** Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública / **** Dados do Grupo Gay da Bahia (GGB)