27 janeiro 2015

Tentativa de Suicídio em Sananduva: quem se importa?



* Publicado originalmente no Jornal O Informativo Regional.

Dia oito de janeiro o Clovis Ravizoni, editor do Jornal O Informativo Regional, publicou no Facebook o link de uma reportagem que falava sobre um homem que havia tentado se matar em Sananduva/RS. O rapaz havia subido em uma torre que transmite sinal de internet, nas margens da ERS 343, na saída para Cacique Doble, e ameaçava se atirar.
Antes de acessar o dito link, tive a infeliz ideia de ler os comentários que alguns leitores haviam deixado abaixo da publicação. E foi isso que encontrei: 
Tava chapado, o sem-vergonha. Queria chamar a atenção, ser a estrela do espetáculo. Uma surra ia bem nesse ordinário”; 
“Isso é uma vergonha! Tanta gente lutando pra viver, e um desocupado tentando se matar só pra chamar a atenção”; 
“Drogado, tinha que deixar pra ver se ele ia se jogar mesmo. Se quisesse se matar, não iria alertar tanta gente”. 
E o meu preferido: “Vê se não estragou a torre da internet. Depois eu fico sem net e não vou pagar a mensalidade”.
As pessoas que comentaram estas barbaridades são consideradas cidadãos de bem. Cidadãos de bem que pagam seus impostos, que trabalham honestamente, que reprovam a corrupção e o descaso do governo. Cidadãos de bem que frequentam a igreja, montam árvore no natal e reclamam da violência. Estas pessoas acreditam piamente que não têm nada a ver com os problemas que assolam nossa comunidade, nosso estado, nosso país, nosso mundo. Elas acreditam que fazem a sua parte.
Apesar disso, estas mesmas pessoas julgam com severidade um rapaz que provavelmente nem conhecem. Tecem palavras odiosas e comentários carregados de violência. Não conseguem, nem por um minuto, se colocar no lugar do infeliz, e nem de sua família. Estas pessoas acreditam que ele tentou se matar “para chamar a atenção”. Estas pessoas acham que, se ele for realmente um drogado desocupado, não merece ser tratado como um ser humano. Estas pessoas – meu Deus! – consideram o sinal da internet mais importante do que a vida do sujeito.
E este é o problema da nossa sociedade. Não compreendemos que a miséria moral e social de nosso mundo é reflexo da miséria moral e social de cada indivíduo. A violência que vemos nas ruas é a violência que existe em nós. A corrupção política é consequência da nossa corrupção social, pessoal e intransferível. O descaso de nossos governantes com o povo brasileiro representa perfeitamente o nosso próprio descaso com o próximo. Foi a nossa falta de empatia que nos trouxe exatamente para o lugar onde estamos.
Este rapaz poderia ser você. Seu filho. Seu melhor amigo. Seu pai. Seu vizinho. Afinal, ele certamente é filho, amigo e vizinho de alguém. Então eu pergunto: o que torna você e os seus tão diferentes dele?
Continuamos apedrejando o próximo, ignorando que o nosso telhado também é de vidro. Seguimos reclamando dos nossos políticos, mas em nosso dia a dia agimos tal e qual eles, e talvez até pior. Usamos dois pesos e duas medidas para avaliar as atitudes dos outros, e tratamos as pessoas com diferentes níveis de importância. Por isso, quando o seu filho subir na torre e ameaçar se jogar, será uma tragédia. Mas quando é o filho de um desconhecido, quem se importa?
Bem. Eu me importo.

10 janeiro 2015

30.



Quando eu tinha 16 anos imaginava que, aos 30, eu seria uma pessoa equilibrada.
Tranquila.
Ponderada.
Achava que teria filhos, e um emprego estável, e um salário alto.
Acreditava piamente que moraria na casa própria, e que saberia dirigir, e que seria mais fácil compreender o mundo e as pessoas.
Imaginava que eu teria parado de fumar, de beber, de explodir, de atirar o vaso contra a parede. 
Achava que me livraria da cólera que sempre me fez gritar, e achava até que encontraria uma maneira de domesticar meu cabelo Black Bloc.
Ontem eu fiz 30 anos e não.
Nada disso aconteceu.
Porém, apesar de continuar me afogando em um copo de água ácida, eu encontrei um lugar onde posso ser em paz.
Este lugar fica dentro de mim, e é onde não me sinto desconfortável nunca.
Continuo a mesma bagunça que eu era quando tinha 16.
Mas hoje posso dizer que aprendi a me encontrar dentro desta bagunça, e que gosto e respeito o caos que eu sou.
Descobri que a indignação que sempre me maltratou poderia me proteger – era só uma questão de direcioná-la do jeito certo.
E entendendo melhor a desordem, e compreendendo que não posso lutar contra, acabei me juntando a ela.
Eu e a desordem, amigas para sempre.
Hoje, aos 30, posso dizer que, se fosse uma pessoa tranquila, com emprego estável e salário alto; se eu houvesse domesticado meu cabelo Black Bloc e parado de gritar; se eu não sentisse mais esta raiva que me assombra, mas que também me impulsiona e fortalece; eu não seria eu.
Eu seria outra pessoa.
E eu não quero ser outra pessoa.
Por que eu gosto de mim. Gosto de quem eu sou, e de quem eu me tornei. Gosto de não controlar nada – nem meu cabelo e nem minha vida – e gosto de estar onde estou, e de vibrar na frequência instável que eu vibro.
Eu gosto da fúria que existe em mim, por que esta fúria é minha.
E não querer ser outra pessoa é a melhor e maior conquista que eu poderia desejar neste dia.
Então, se a Jana de 30 pudesse falar com a Jana de 16 anos, ela diria: relaxa que vai dar certo.