16 novembro 2015

Eu quero ver sangue!

Aposto cinco pila que o leitor ficou chocado com o título deste texto. Talvez por que, em nível consciente, a maioria de nós considera-se uma pessoa pacífica, amorosa e ordeira. No entanto, sabemos que é o nosso inconsciente quem dita as regras por aqui, e assim passamos a maior parte de nossas vidas pensando, dizendo e agindo conforme manda nosso instinto. E sabe o que quer o nosso instinto? Ele quer ver sangue.
E isso pode ser comprovado pela personalidade coletiva da sociedade em que vivemos. Uma sociedade que gosta de vigiar e punir; que gosta de controlar, de reprimir, de criticar, de julgar. Seja através de nossas ações, seja através de nossas opiniões, parece-me evidente que seguimos como a plateia das antigas arenas, quando o povo se reunia para assistir, extasiado, o próprio povo digladiar-se.
Acham que eu exagero? Pois então ouçam a voz que vem das ruas. Não a voz de protestos políticos; mas a voz cotidiana, que se manifesta através de opiniões violentas sobre pessoas que deveriam, apenas, ser tratadas como pessoas. “Bandido bom é bandido morto”. “Tem mulher que merece apanhar”. “Com essa roupa aí ela está pedindo para ser estuprada”. “Prefiro um filho morto a um filho gay”. “Isso é falta de laço”. “Tem que matar”. “Tem que moer a pau”. “Tomara que morra”. Sangue, sangue, SANGUE!
Somos muito mais selvagens do que pensamos. E a violência que trazemos dentro de nós é a violência que enxergamos nas ruas – e que criticamos, como se não tivéssemos nada a ver com ela. Falta-nos compaixão pelo próximo; falta-nos preocupação com qualquer um que não seja nós mesmos, e os nossos.
Durante muito tempo eu também quis ver sangue. E deixava isso claro através das minhas atitudes, da minha maneira de se expressar, dos meus julgamentos raivosos e violentos contra tudo e contra todos que não se encaixassem perfeitamente nos meus padrões.
Hoje estou em franco processo de mudança, e talvez esta seja a maior conquista de toda a minha existência. Eu não quero mais ver sangue. Porque eu sei que o sangue que hoje é do outro, amanhã pode ser o meu. Ou dos meus. Hoje eu consigo compreender que a minha felicidade, que a minha integridade e que a minha própria segurança depende diretamente da felicidade, da integridade e da segurança de todos.
Porque somente uma sociedade menos indiferente à dor alheia poderá, um dia, almejar eliminar sua própria dor.