20 novembro 2015

A Semente do Medo

Não há nada pior do que viver com medo. Com aquela sensação de insegurança, de vulnerabilidade. A iminência da tragédia é quase pior do que a tragédia em si. Por isso, a série de atentados terroristas que ocorreu em Paris, na última sexta-feira 13, fez mais do que matar covardemente 130 pessoas, e ferir quase 350. Ela plantou uma semente que dificilmente não germinará: a semente do medo.
E pessoas com medo se tornam, também, potencialmente perigosas. Tal e qual um animal acuado que, percebendo a ameaça, ataca, pessoas amedrontadas tendem a assumir uma postura agressiva e combativa quando se sentem em situação de risco. Trata-se de nosso instinto automático de sobrevivência.
O problema é que violência não se resolve com violência. Não se apaga fogo com gasolina, e não se dá cachaça para o alcoólatra parar de tomar cachaça. Quando aparece uma erva daninha no seu quintal, você deve arrancá-la pela raiz. Porque podar seus ramos não impedirá que ela se alastre pelo seu jardim.
Logo, a primeira pergunta que devemos nos fazer é: quem são estas pessoas capazes de fuzilar centenas de alunos e professores em uma universidade, ou de entrar atirando indiscriminadamente em uma boate lotada? Como foi que os convenceram de que é melhor se explodir no meio da multidão, do que seguir com sua vida numa boa?
A resposta parece clara: estes criminosos foram criados e alimentados pela própria sociedade que, agora, eles atacam. Como uma doença autoimune que destrói o organismo que a mantém.
Estes radicais são oriundos de países devastados pela guerra e pela miséria; são crianças e jovens socialmente órfãos, renegados a viver em situação ultrajante, que acabam adotados por diferentes facções, que baseiam sua existência na violência e no fanatismo. Estes grupos oferecem a estes jovens o que a sociedade lhes renegou: um futuro, uma possibilidade, uma expectativa; um objetivo a ser alcançado.
Jovens em situação vulnerável – isto é: vivendo sem condições mínimas de dignidade e cidadania – tornam-se literalmente bombas-relógios nas mãos de criminosos que, igualmente, um dia foram jovens em situação vulnerável. O medo gera violência, e a maioria destes jovens nasceu e cresceu em circunstâncias de total insegurança e incerteza. Isto precisamos compreender: todo assassino, todo radical, todo bandido sanguinário, já foi uma criança inocente – como seu filho, seu afilhado, seu irmãozinho. Ninguém nasce terrorista. Tornamo-nos, geralmente por conta do contexto que nos abriga, e da falta de perspectiva no futuro.
Precisamos, enquanto sociedade, cuidar desta criança que ainda é inocente. Ela é nossa responsabilidade. E cuidar desta criança é cuidar da nossa própria pele, pois somos nós que criamos os monstros que, daqui uns dias, nos atacarão.
Então vamos prestar atenção em nossos jovens. Vamos oferecer condições para que eles cresçam de forma saudável; vamos oportunizá-los, criar expectativas para suas vidas. Vamos mostrar que eles têm muito a perder.
Porque enquanto ignorarmos a raiz deste problema, e continuarmos buscando a solução da guerra na guerra, e da violência na violência, seguiremos como animais acuados: atacando, marginalizando, segregando, odiando. Com medo o tempo todo.
Somos todos seres humanos, e é assim que precisamos ser tratados: como seres humanos. Seja em Paris, na Síria, na África, na Rússia, em Minas Gerais, no Complexo do Alemão, na rua da minha casa, no colégio da minha vila, no centro da minha cidade.