27 novembro 2015

“365 dias de consciência humana”: por que esse papo é uma balela

Vinte de novembro foi o Dia da Consciência Negra, o que nos levou a ver, ler e ouvir incontáveis vezes a famigerada frase, que diz: “Não precisamos de um dia da consciência negra, mas de 365 dias de consciência humana”.
Na teoria, até faz algum sentido. Mas só na teoria. Pois tal afirmação busca desqualificar uma questão que, apesar de incômoda e desconfortável, faz parte da nossa sociedade: o racismo.
Se não fôssemos racistas, não precisaríamos de um dia da consciência negra. Mas acontece que somos; logo, precisamos sim.
É por isso que existem negros lutando contra a segregação racial; mulheres lutando contra o machismo; homossexuais lutando contra a homofobia. E também é por isso que não existe dia da consciência branca, e nem homens oprimidos lutando contra o feminismo, e muito menos heterossexuais lutando contra a “heterofobia”.
Para que a luta contra qualquer preconceito tenha sentido, é preciso primeiramente que o preconceito a ser combatido exista.
E para saber se você é vítima de discriminação, basta se perguntar: eu já sofri abusos e ataques apenas por ser homem? Eu já fui revistado pela polícia ou pelo segurança da loja apenas por ser branco? Eu já fui humilhado e agredido apenas por ser heterossexual? Em resumo: eu já fui cerceado em meus direitos civis por conta do meu sexo, da cor da minha pele, ou da minha identidade sexual?
Se a resposta for não, adivinha? Você não sofre discriminação, amigão. Logo, não há por que lutar contra um preconceito que simplesmente não existe.
Enquanto houver mais negros na cadeia do que na universidade; enquanto as mulheres sofrerem mais violência em casa do que em qualquer outro lugar; enquanto homossexuais forem espancados e assassinados apenas por que são homossexuais, precisaremos desesperadamente do Dia da Consciência Negra, do Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher, do Dia do Orgulho Gay.
E a reação negativa, constrangedora e preconceituosa de muitas pessoas a estes movimentos sociais só nos mostra a importância e a necessidade destes movimentos sociais.
No dia em que negros e brancos, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, forem tratados da mesma maneira, não haverá mais racismo, nem machismo, nem homofobia. Logo, não haverá necessidade de combater estes preconceitos, porque eles não existirão mais.
Infelizmente este dia ainda está longe.
Mas seguimos caminhando em sua direção.

Foto: Marcos Musse.