11 julho 2015

Você TEM CERTEZA que é Maju?

Você já sabe do que eu estou falando, né? Recentemente, a página do Jornal Nacional no Facebook publicou em sua linha do tempo uma foto da jornalista Maria Júlia Coutinho, a Maju, e o resultado foi exatamente como esperávamos: uma chuva de ofensas racistas deploráveis, que me recuso a reproduzir aqui.
Logo em seguida, milhares de pessoas saíram em defesa da jornalista – até o engessado e robótico William Bonner gravou um vídeo com a produção do Jornal Nacional. E surgiu então a hashtag: #SomosTodosMaju.
Lindo, sim. Verdadeiro, nunca.
Porque nós não somos todos Maju. Se fôssemos, não viveríamos em um país marcado a ferro e fogo pela força e pela crueldade do racismo. Não um racismo tão explícito, como constatamos nos comentários da foto de Maju; mas um racismo sutil e sorrateiro, institucionalizado, escondidinho em nossas entranhas.
Prova disso é o “choque” de muitas pessoas com os comentários racistas que Maju recebeu. Parece que muita gente ficou impressionada, horrorizada, bestificada. E eu pergunto: ficou por quê? Maju não é a primeira, e infelizmente não será a última a sofrer racismo em solo tupiniquim. Todos os dias – e eu disse TODOS OS DIAS – negros e pardos são vítimas do preconceito: quando vão procurar um emprego; quando entram em uma loja; quando são abordados pela polícia; quando caminham pela rua e as senhorinhas seguram a bolsa contra o corpo, com medo de serem assaltadas.
Os negros são maioria acachapante nos presídios (73% da população carcerária brasileira é formada por jovens negros – sendo que, destes, 66% não concluíram o ensino fundamental*), e nas favelas (quase 70% das pessoas que vivem na pobreza extrema são negras**), e minoria gritante nas universidades (somente 8,8% dos graduados são negros***).
77% dos jovens assassinados no país são negros****. A polícia brasileira mata três vezes mais negros do que brancos – e entre os policiais envolvidos nestes assassinatos, adivinha? 79% são brancos*****. Os negros e os pardos, apesar de representarem 53% da população******, são minoria nas capas de revistas, no protagonismo de novelas e – veja só! – até mesmo na bancada dos principais telejornais do Brasil. Como, por exemplo, o Jornal Nacional.
Este é o país que se choca profundamente quando alguém chama uma jornalista negra de “preta fedida”. E nos chocamos porque não temos sequer a decência de assumir nosso racismo. Ignoramos sumariamente um histórico perverso de escravidão e subserviência, ao qual a sociedade branca submeteu os negros, e sempre que um negro reclama, lá vem um grupo de brancos dizendo que ele está “exagerando”, “fazendo drama” e “se vitimizando”. Porque nem reclamar do racismo os negros podem.
Então, não: não somos todos Maju. Muito pelo contrário. O racismo está impregnado em nós como uma tatuagem malfeita; como um tumor maligno que destrói nossa capacidade de percepção e compreensão do que acontece bem embaixo do nosso nariz.
Mas não se iludam: os negros e as verdadeiras Majus não ficarão mais calados, apanhando quietinhos. Imagino que devam estar bem cansados de nós, brancos, e da nossa sociedade estúpida, mesquinha, racista e dissimulada.
Para finalizar, recomendo aos interessados o clipe “Boa Esperança”, do genial Emicida: “Cês diz que nosso pau é grande; espera até ver o nosso ódio”. Um dos clipes mais corajosos que já vi, e que trata justamente disso: a resistência e a reação negra.
Talvez acabe sobrando pra mim, e pra você. Mas isso também é resultado do fato de vivermos em um país negro, onde a maioria não é Maju nem por um minuto sequer.


* Dados do Ministério da Saúde / ** Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) / *** Dados do Ministério da Educação (MEC) / **** Dados da Anistia Internacional no Brasil / ***** Dados da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) / ****** Dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (Pnad)