27 julho 2015

O crime antes do crime

Texto publicado originalmente na TOP Revista.

João tem 17 anos, e naquela noite aguardava a saída dos alunos da universidade escondido atrás de uma árvore. O boné e o capuz de seu casaco escondiam seu rosto. Escolheria aleatoriamente um dos estudantes para realizar um assalto. Maria foi eleita. Ao ser abordada por João, entregou tudo o que ele pediu: bolsa, carteira, dinheiro, celular. Mesmo assim, antes de ir embora, João deu três tiros na sua cabeça. E Maria, que tinha somente 17 anos e estava no primeiro ano de faculdade, morreu.
Esta é uma história hipotética, mas poderia perfeitamente ser real. Aliás, é real. Existem centenas de Joãos e Marias por aí, morrendo e matando todos os dias. Porém, vamos nos focar neste exemplo. A família e os amigos de Maria ficarão revoltados, e com toda a razão. A tristeza de seus pais será infinita. A injustiça e o absurdo da situação são inegáveis. Maria tinha a vida inteira pela frente, e era uma jovem promissora, inteligente, querida por todos. A sensação de impotência e a raiva são impossíveis de controlar.
João deve ser punido, e isso é indiscutível. Afinal, nas ruas, seguirá cometendo crimes, e provavelmente voltará a matar outras Marias.
Entretanto, peço ao caro leitor que se aprofunde mais nesta narrativa “fictícia”. Que analise a situação de longe, com olhos os mais imparciais possíveis. Por que antes do crime que vitimou Maria, houve outro crime, tão sério, tão grave e tão revoltante quanto. Trata-se do crime que vitimou João.
Pois, apesar de terem a mesma idade, João e Maria possuem histórias bem diferentes. João, assim como 16 milhões de brasileiros que vivem na pobreza extrema (sobrevivendo com menos de R$1 por dia), cresceu em um barraco de quarto e sala com a mãe e os seis irmãos. Nunca foi para o colégio. O pai morreu quando ainda era criança, assassinado. A mãe se tornou alcoólatra, e os filhos se criaram pelas ruas, como pintos. Faltou comida na mesa, faltou perspectiva, faltou dignidade, faltou saúde, faltou educação, faltou lazer, faltou tudo. Não tinha nem 12 anos e João já era viciado em drogas. Analfabeto, dependente químico e marginalizado desde o berço, suas referências eram os bandidos que se avizinhavam – os únicos que tinham o que ele nem sonhava ter; inclusive, e principalmente, respeito. Cresceu conhecendo a raiva intimamente, e aprendeu da pior maneira que não era bem-vindo na sociedade. Com 14 anos, já assaltava e traficava há tempos.
Esta é outra história hipotética igualmente comum. Faz parte das estatísticas tanto quanto a morte de Maria. João e Maria são dois jovens brasileiros, ambos de 17 anos, filhos da mesma pátria – mas que tiveram vidas e oportunidades totalmente opostas. 
A sociedade deu para Maria todas as condições para que crescesse sadia, forte e inteligente; e esta mesma sociedade ofereceu para João todas as condições para que crescesse ignorante, violento e perigoso. Então eu pergunto: como a sociedade pode cobrar de João o mesmo que cobra de Maria?
É simples: não pode. João matou Maria, e merece ser punido. Fim. Mas e a sociedade, que matou João antes que ele aprendesse a andar, não merece? Merece, e é. Porque João, filho bastardo desta sociedade, lhe devolve com juros e correção monetária a violência que sofreu. E devolve matando Maria, a filha preferida, aquela para quem nunca faltou nada.
Quem perde no final desta história é João. E Maria. E a sociedade. E eu, você, meus pais, teus filhos. Não há final feliz para ninguém.
Porém, a sociedade não pensa assim. Ela se foca somente na consequência (o assassinato de Maria), e nunca na causa (o assassinato do cidadão que João poderia ser). A sociedade passa a vida podando os galhos do mal, sem nunca destruir sua raiz. Não compreende que, enquanto apara os ramos timidamente, vai alimentando e fortalecendo esta árvore nociva, que só produz frutos igualmente nocivos – os quais comemos até nos fartar.
Então, ao invés de se perguntar por que existem tantos Joãos em seu seio, a sociedade brada que João merece morrer, apodrecer na cadeia, ser linchado, humilhado, amarrado num poste, excluído o mais rapidamente possível do convívio social.
A punição ao criminoso é importante, justa e necessária. João precisa responder pelo que fez. Mas a sociedade precisa também. 
Porque houve um crime grave, 17 anos antes do crime grave que vitimou Maria – e foi por causa deste primeiro crime que o segundo crime aconteceu.