24 junho 2015

Eu poderia ser o bandido. E você também.

Publicado originalmente na TOP Revista.

Recentemente, marquei de tomar um café com uma amiga da faculdade. Combinamos de nos encontrar em uma cafeteria, e ela chegou atrasada. “Estava no Clube fazendo sauna”, me explicou. Pedimos o café – R$8 cada um. Fazia frio, mas o ar-condicionado deixava o ambiente aquecido e confortável. Não demorou, e esta minha amiga me contou que andava estressadíssima, porque sua diarista havia abandonado o trabalho para cuidar dos filhos. “Depois do Bolsa Família, esse povo não quer mais saber de serviço, Jana!”. Foi o que ela me disse.
Olhei para fora. Do outro lado da rua, um grupo de homens trabalhava na construção de um prédio. A maioria usava manga curta, naquele frio horrível. Nós estávamos no ar-condicionado, tomando um café superfaturado. Mas para ela, que estava fazendo sauna em plena terça-feira de tarde, “o povo” era vagabundo.
Deixei a cafeteria pensando sobre isso. Já era quase cinco e meia da tarde, e os alunos do Rui Barbosa, um colégio particular caríssimo aqui de Carazinho, saíam da aula. Na frente da escola, uma fila de carros aguardava os estudantes. Eram seus pais, que haviam ido buscá-los – apesar de a maioria morar ali em volta, no centro. As crianças vestiam um uniforme bonito e quentinho, e muitas usavam gorros, luvas e cachecóis.
Segui meu caminho. Perto de casa, passei por um contêiner de lixo, e percebi que ele estava entreaberto. Ao lado, um adolescente maltrapilho, usando bermuda e chinelos – naquele frio! – esperava o menino mais novo, e por isso mesmo menor, que se encontrava dentro do contêiner, catando papelão e latinhas de cerveja. Este menino tinha mais ou menos a mesma idade das crianças pelas quais eu havia recém passado, e que deixavam o colégio. Mas ele estava dentro de um contêiner de lixo. Ao lado deles, um carrinho improvisado de entulhos e alguns cachorros – tão maltratados quanto os meninos.
Cheguei em casa triste e cansada. Triste e cansada de viver em uma sociedade incapaz de enxergar a diferença abissal que existe entre aqueles dois meninos no lixo e aquelas crianças na escola. Uma sociedade que usa casacos, luvas e gorros, mas acredita que “basta se esforçar para sair da pobreza”. Uma sociedade cruel e ingrata, que não reconhece os privilégios dos quais usufrui – e tampouco percebe a pobreza gritante que existe bem embaixo do seu nariz.
Esta minha amiga sempre estudou em colégio particular, e depois cursou uma faculdade também particular – assim como eu. Esta minha amiga, que chama de vagabundo quem recebe o Bolsa Família, nunca trabalhou na vida, porque nunca precisou. Porém, esta minha amiga, assim como a sociedade onde vivemos, não compreende o tanto de benefícios que possui, e por isso mesmo repete clichês do tipo “É só estudar”, “É só querer”, “Bandido bom é bandido morto”, “Bolsa Família é coisa de vadio”.
Essa minha amiga não vê as crianças que catam lixo, e nem os trabalhadores que carregam tijolos no frio, enquanto ela toma um café de R$8 em uma cafeteria com ar-condicionado logo depois de fazer sauna – tudo pago pelo papai.
Eu, assim como essa minha amiga, também sou privilegiada. Tive todas as oportunidades deste mundo. Nunca passei fome, nem frio, nem qualquer necessidade ou privação. Nunca catei lixo, nunca morei na rua. Nunca sofri violência, preconceito, discriminação. Nunca entrei em um contêiner. Por isso, se hoje eu sou uma pessoa honesta; se eu trabalho; se eu colaboro com a minha comunidade e dou algum orgulho aos meus pais, não é por que eu sou uma “cidadã de bem”. É por que tive sorte. Por razão que desconheço, a vida permitiu que eu vivesse com conforto em um mundo tão miserável e desigual.
Mas, ao contrário desta minha amiga, eu não sou ingrata. Eu não acredito na meritocracia em uma sociedade onde as oportunidades não são iguais. Eu sei que não cheguei até aqui só por causa do meu esforço e dedicação; eu tive regalias desde que nasci. Eu enxergo os meus privilégios, e eu também enxergo os meninos no lixo, e os trabalhadores de manga curta, no frio.
Eu consigo me colocar no lugar deles, e por isso posso garantir: se eu vivesse na pobreza, sem chances, sem perspectivas, com frio, com fome, eu não seria uma “cidadã de bem”. Eu provavelmente enfiaria uma arma na cara dessa minha amiga – que, neste caso, nem minha amiga seria – e a mandaria me passar o dinheiro e o celular e calar a boca. E talvez, por ela representar uma sociedade que sempre me desprezou, no fim eu atiraria bem nas suas fuças, só de raiva.
E aí eu me tornaria um bandido repulsivo. E todos diriam que eu deveria morrer – porque, afinal, bandido bom é bandido morto e blábláblá. Eu nunca teria feito projetos em escolas, nem escrito livros, e muito menos participaria de ações sociais. Eu não tentaria tornar nossa sociedade melhor – pelo contrário. Eu atacaria esta sociedade com a mesma fúria e desprezo com que esta sociedade sempre me atacou.
Entendam: eu não estou aqui defendendo o criminoso. Quem errou, deve pagar, e fim. Mas seria inteligente de nossa parte tentar prevenir o mal, ao invés de somente remediá-lo. Porque enquanto ignorarmos a desigualdade e a miséria que assola nosso país, fechando os olhos para nossos muitos privilégios, e repetindo os mesmos clichês que forjaram nossa sociedade, seguiremos fabricando bandidos em série, como sempre fizemos.
Discorda de mim? Tudo bem. Mas me responda: e se o privilegiado não fosse você? Se, ao invés de estar no ar-condicionado tomando café gourmet, você estivesse no contêiner catando lixo? Ainda assim você seria um “cidadão de bem”?
Eu não.