18 junho 2015

Eu não fiquei triste com o cancelamento da Jornada Nacional de Literatura

Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

Esta frase pode parecer incoerente, já que trabalho com literatura de diferentes maneiras: sou leitora, sou escritora, sou editora, sou aprendiz. Também sou vizinha de Passo Fundo, a “Capital Nacional da Literatura”, que por 34 anos abrigou 15 edições da Jornada. Por todas estas razões, o lógico seria eu não apenas ficar triste, mas furiosa e indignada com o cancelamento da 16ª edição do evento. Mas não fiquei tanto quanto deveria – ou poderia.
Quem me conhece, sabe que nunca concordei com muitos aspectos da Jornada: o alto custo das inscrições, a elitização do público, o completo desprezo por autores e artistas locais, o espetáculo em detrimento do debate, entre outras coisinhas.
Mas isso não importa mais. Porque quis o destino que neste ano a Jornada fosse cancelada pela primeira vez. Alegaram falta de verba e de apoio e etc. Precisavam da bagatela de R$3,5 milhões, e não conseguiram.
O fato é que, após o cancelamento desta edição, e o afastamento de Tânia Rösing da coordenação da Jornada, um futuro incerto se apresenta aos nossos olhos; um futuro incerto, porém promissor.
O reitor da Universidade de Passo Fundo, José Carlos Carles de Souza, garantiu que a Jornada irá “mudar de formato”, e é aqui que reside a esperança.
Quem sou eu para opinar, mas creio que esta reformulação deva ser estrutural, isto é: permear as entranhas da Jornada, tornando-a mais atrativa, mais acessível, mais abrangente. Maior, em sua essência e importância.
Acho que a Jornada deve ir até a comunidade; deve sair do campus, sair do centro, e abraçar também escolas e instituições de ensino da periferia – lugares literalmente invisíveis para a maioria de nós. Afinal, estes alunos também têm o direito de participar de um evento que ocorre há mais de três décadas em sua própria cidade, e o qual eles só conhecem pela televisão.
A Jornada precisa obrigatoriamente ser mais barata; até por que, os estudantes – que deveriam ser seu principal público-alvo – não costumam desfrutar de muita grana. Estejam eles na universidade ou não.
Até arrisco dizer que, através destas reformulações, é possível tornar a Jornada menos onerosa. Talvez nem precise mais de milhões de reais para fazer acontecer. E além de ficar mais em conta, certamente alcançará mais público – logo, todo mundo ganha: a UPF, a comunidade, os estudantes, os professores, os leitores, os escritores, eu e você.
No entanto, e independente das minhas ressalvas em relação à Jornada, considero importante frisar que respeito o trabalho realizado nestes 34 anos. Não seria louca de não respeitar. Reconheço a relevância do evento para a formação de leitores, e admiro tudo o que foi feito até agora. Porque é melhor uma Jornada cheia de problemas, do que nenhuma Jornada.
E é exatamente isso que temos agora: nenhuma Jornada.
Mas não nos lamentemos, amigos. Eu creio que a mudança é sempre boa. Toda vez que aquilo que parecia certo desmorona, geralmente encontramos formas criativas e surpreendentes de nos superar, de modo que acabamos saindo da peleja mais fortes do que quando entramos. 
E se o mundo mudou tanto nestes últimos 34 anos, por que a Jornada não haveria de mudar?
Então, espero sinceramente que a UPF, e todos os envolvidos, encontrem uma alternativa para dar seguimento ao trabalho que foi realizado até aqui. Tenho certeza de que existem milhares de opções incríveis e possíveis, e eles haverão de descobrir a mais apropriada – apropriada para todos, do centro e da vila, do colégio particular e do colégio público, da sala de professores e da mesa de bar. 
De qualquer maneira, obrigada Tânia Rösing, por tudo o que você fez nestes 34 anos.
Mas agora é hora da Jornada Nacional de Literatura seguir por novos caminhos.