20 março 2015

Quanto vale R$60?



Publicado originalmente no Jornal O Informativo Regional.

Por estes dias, recebi uma notícia ruim. 
Tão ruim, que me inspirou a escrever este texto. 
Como alguns de vocês talvez saibam, sou sócia da Editora Os Dez Melhores – selo responsável pelo Projeto Nascedouro, que busca incentivar a leitura e a escrita entre crianças e adolescentes. 
Já promovemos alguns trabalhos em Carazinho/RS e em Sananduva/RS, como o “Dia Literário”, e o lançamento dos livros "Conte um Conto Vol. I", “Conte um Conto Vol. II” e “Jovens Escritores Brasileiros”, que reuniram textos e desenhos de mais de cem alunos gaúchos, do Grupo Geração 148, da Escola de Danças Arabesque, do Colégio Estadual Sananduva e da Escola Amélia Lenzi Raymundi. Projetos legais e que me trazem orgulho, não só profissionalmente, mas pessoalmente também.
Para viabilizar estes projetos, trabalhamos através de financiamento coletivo familiar; isto é: cada aluno/autor adquire um número X de exemplares (que varia entre dois e cinco livros), por um valor médio de R$30, e assim a obra é lançada. Fazemos isso, pois, caso contrário, o projeto teria terminado antes mesmo de começar. Afinal, existe uma série de investimentos necessários para o lançamento de um livro, como a realização das oficinas, a transcrição, a revisão, a edição, a diagramação, os registros, a impressão, o transporte, o lançamento, a divulgação.
O fato é que os pais dos alunos/autores investem entre R$60 e R$150, e ganham em troca entre dois e cinco exemplares de um livro contendo textos e desenhos de seu próprio filho ou filha. Não me parece um mau negócio. Mas para alguns, é – e aqui chegamos ao ponto crucial deste texto: a notícia ruim que eu recebi por estes dias.
Estava em tratativas com uma escola da região de Sananduva/RS, para realizar um destes projetos literários envolvendo seus alunos. Quase 400 estudantes, desde a pré-escola até o nono ano, participariam de dois volumes de um livro de poesias, que reuniria textos e desenhos da gurizada. O material seria produzido pelos alunos durante uma semana literária, com palestras e oficinas ministradas por mim e pelo meu sócio e colega escritor, Alexandre. Imaginem que lindo que seria!
Pois bem. Para viabilizar financeiramente o projeto – que exigiria da editora um trabalho exclusivo de quase cinco meses – o investimento era que cada aluno adquirisse dois exemplares do livro no qual participa como autor, no valor de R$30 cada. Totalizando R$60.
A escola em questão – que, considero importante frisar, é uma instituição que abriga alunos de classe média e alta – apresentou o projeto aos pais, que não aceitaram. Sessenta reais é caro demais, segundo eles. Onde já se viu pagar esse dinheirão todo por dois livrinhos que não servem para nada?
O projeto foi cancelado, e esta foi uma notícia muito ruim para mim. Repito: não só profissionalmente – até por que, no trabalho recebemos ‘não’ o tempo todo. Mas pessoalmente doeu no coração. Por alguma razão incompreensível, estes pais acharam caro investir R$60 para que seus filhos participassem de uma semana de atividades culturais, que culminaria na publicação de um livro! E que poderia significar tanto para uma criança, ao ponto de mudar a sua vida.
Mudou a minha. Eu fui uma adolescente problemática, e não posso dizer que não causei dores de cabeça aos meus pais. Só sosseguei quando me encontrei – e eu me encontrei nos livros. A literatura me salvou das drogas, me salvou da solidão, me salvou dos meus próprios fantasmas. E se me salvou, é claro que pode salvar muitas outras pessoas.
Mas R$60 é muito dinheiro! Imagine só: dá pra comprar uma pizza e uma coca! Ou colocar 15 litros de gasolina pra ficar dando voltas no centro no domingo de tardezinha. Com R$60 eu posso tomar cinco doses de uísque na boate. Posso comprar umas gramas de cocaína, e até alguns baseados. Quem sabe ir à zona, e pagar por uma mina?
Estes pais, que consideraram ‘muito caro’ investir R$60 para que seus filhos publiquem seus textos e desenhos em um livro, reclamam que o governo não investe em educação. Falam mal do PT e/ou do PSDB, a quem acusam de omissos e negligentes. Estes pais acham um absurdo quando os professores fazem greve pedindo melhores salários. Estes pais dão muito mais do que R$60 para seus filhos comprarem celulares, cervejas, roupas, gasolina e – pasmem! – drogas também.
O que me mostra que temos os governantes que merecemos. Eles nos representam com perfeição. Os políticos são o reflexo do povo que governam, e nunca o contrário. E se eles não investem em educação; se eles não consideram a literatura e a cultura importantes, é por que nós também não.
Logo, está tudo como deveria estar neste país intelectualmente pobre e miseravelmente corrupto que chamamos de Brasil.