12 março 2015

Precisamos falar sobre o aborto



* Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

Eu sou espírita. 
Acredito em Deus, em vida após a morte, em reencarnação, em carma, na lei de causa e efeito. Por conta desta crença religiosa, considero errado abortar. Se eu engravidasse, provavelmente não abortaria. Até mesmo por que, sou casada, moro em uma boa casa, tenho pais presentes e companheiros; também tenho um trabalho, um salário, e certa estabilidade financeira e emocional. Mesmo se eu não planejasse, um filho neste momento não seria uma desgraça.
No entanto, eu sou exceção em um país onde a desigualdade social grita e bate com força. Onde a pobreza faz cativos milhares de brasileiros e brasileiras, e a educação é ultrapassada, a saúde é uma tragédia, a miséria é alarmante, a corrupção é endêmica. A maioria das mulheres deste Brasil vive uma situação social muito mais precária e limitadora do que a minha. Concorda?
Agora vamos imaginar que a minha realidade seja outra: eu tenho uma mãe alcoólatra e um pai desconhecido. Moro num casebre de quarto e sala com minha mãe, minha avó e meus quatro irmãos. Não terminei o ensino fundamental, pois tive que parar de estudar para trabalhar e cuidar da minha mãe alcoólatra. Tenho um emprego e ganho um salário mínimo. Eu engravido. O pai da criança se recusa a assumi-la. Eu não tenho estabilidade financeira, e tampouco emocional. Não tenho qualquer suporte, não tenho a quem recorrer. E estou grávida. Como faz? Nesta situação, e mesmo sendo espírita, admito que o aborto seria uma solução real.
Então alguns dirão: mas existem métodos contraceptivos! É só se cuidar! Bláblá.
Bem, amigos. Lamento ter de lhes dizer, mas métodos contraceptivos falham. E falham muito. A pílula anticoncepcional, por exemplo, possui um índice de falha de 1%. Se tomar o comprimido religiosamente, sem esquecer um único dia, você estará 99% segura. Só há 1% de chance de engravidar. Logo, há uma chance.
Mais de cem milhões de mulheres tomam pílula anticoncepcional no mundo. Segundo as estatísticas, mesmo se prevenindo, pelo menos um milhão irá engravidar. Muitas destas mulheres irão abortar. Muitas ficarão felizes e postarão fotos barrigudas no Facebook; mas milhares de outras irão abortar. E estas mulheres que irão abortar são espíritas, católicas, crentes, descrentes, ricas, pobres, negras, brancas, médicas e faxineiras. Elas irão abortar, e fim. 
Só que algumas irão até uma clínica de quatro andares, serão atendidas por uma equipe médica, e farão seu aborto com segurança. Por que podem pagar. 
Outras irão a aborteiros de fundo de quintal, serão tratadas sem nenhum cuidado ou higiene, e provavelmente acabarão morrendo sozinhas, esvaindo-se em sangue em cima de uma mesa de açougue. Estas, é claro, são as que não podem pagar. A maioria.
A descriminalização do aborto não tem nada a ver com religião, com fé, com crença pessoal. Tem a ver com saúde pública. Por que abortar, as mulheres já abortam. A questão é que o aborto só está legalizado para quem tem dinheiro – é mais um dos muitos privilégios de quem pode pagar. E isso é inadmissível.
Nenhuma mulher acha bonito abortar. Ninguém sonha com o primeiro aborto como sonha com o primeiro beijo. Os motivos que levam uma mulher a fazer esta escolha pertencem somente a ela, assim como seu corpo e seu útero. E já que ela vai abortar de qualquer maneira, que aborte dentro da lei. Que possa, ao menos, ser tratada como um ser humano, em um momento que é obviamente difícil, triste e doloroso para qualquer mulher. 
Seja ela espírita, católica, crente, descrente, rica, pobre, negra, branca, médica ou faxineira. Seja ela eu ou você.