18 março 2015

Eu, coxinha?



Publicado na TOP Revista/Março de 2015.

Admito: eu não pertenço a nenhum grupo oprimido. 
Sou branca, heterossexual, classe média; não moro na periferia. Estudei em colégio particular e, depois, cursei uma universidade particular. Quando eu preciso de um médico, não vou para a fila do SUS. Também não uso transporte público, e moro em um apartamento confortável. Eu votei no Aécio – não por convicção política; apenas por julgar que ele era o candidato ‘menos pior’. Como já disse em outra ocasião, ter de votar em Dilma/PT ou Aécio/PSDB foi como escolher entre cortar o braço ou a perna. Com dor no coração, eu escolhi cortar a perna. Mas em nenhum momento, nem por um único instante, eu pensei que o candidato tucano seria a salvação do Brasil. Até por que, obviamente não é.
Em contrapartida, sou completamente avessa ao impeachment da presidente Dilma. Sou redondamente contra a intervenção militar. Nunca chamei nossa presidente de vadia, de puta, ou a mandei tomar no cu. Sou totalmente a favor de programas sociais, como o Bolsa Família, da mesma forma que sou a favor da legalização das drogas, da regulamentação do aborto, da institucionalização do casamento homoafetivo. Também considero a evangelização de nosso parlamento um retrocesso monstruoso.
Apesar disso, segundo leio na internet, eu sou uma coxinha – seja lá o que isso signifique. Integro uma elite branca ignorante que busca dar um golpe na democracia brasileira. Segundo me informam, eu não quero que meu filho estude com o filho da empregada, e minhas panelas são de teflon. Mandam-me ir morar na Europa, caso eu esteja insatisfeita. Chamam-me de histérica, desonesta, estúpida. Afirmam que eu ‘odeio os pobres’.
Só que não é verdade. Eu acredito e defendo a democracia acima de tudo. Quero que a presidente eleita cumpra seu mandato, como manda a lei. E Deus nos livre de haver intervenção militar no país! Eu não acho que bandido bom é bandido morto, sou contra a redução da maioridade penal, e jamais me incomodaria por ver o filho da empregada estudando com o meu filho – muito pelo contrário. Eu não odeio os pobres, não odeio os ricos, e tampouco odeio a classe média. E, não, minhas panelas velhas não são de teflon. 
Então eu pergunto: onde eu me encaixo neste país polarizado e maluco? Um país onde ou você é elite branca coxinha, ou você é petralha ladrão corrupto? Eu respondo: não me encaixo em lado nenhum, em partido nenhum.
Eu só quero um país melhor pra gente. Pra toda essa gente que forma o povo brasileiro – do filho do patrão ao filho da empregada. Quero um país mais justo, menos violento, menos desigual, e quero ver os corruptos – TODOS os corruptos, independente do partido que integram – na cadeia, julgados e condenados com a mesma severidade com que julgamos e condenamos ladrões de pote de margarina.
Eu fui ao protesto do dia 15 de março de 2015, do mesmo jeito que fui aos protestos de junho de 2013. E nas duas manifestações eu vi muita gente rica: empresários, herdeiros, playboys, latifundiários – a tal da elite branca coxinha/reacionária/ignorante, presumo eu. Mas também vi muita gente pobre e desfavorecida; desempregados, professores, pais de família, homossexuais, caminhoneiros, trabalhadores, e até mendigos.
Eu fui pra rua neste dia 15 de março pedir o fim da corrupção – este câncer maligno que corrói nosso país há tanto tempo. E assim como eu, milhares de outros queriam somente isso: o fim da corrupção. Não pediam intervenção militar, não pediam a saída da presidente; pediam apenas o fim da corrupção. O que me parece justo, legítimo e plausível. Não significa que apenas o PT é corrupto; antes fosse! Se o nosso mal fosse o PT, os problemas do Brasil teriam só 12 anos, e não 500.
Significa, isto sim, que desde junho de 2013 todos os políticos estão na berlinda, cagados até as meias. Significa que o povo aprendeu o caminho da rua, e agora nenhum colarinho branco pode nos roubar em paz. Significa que paramos de discutir BBB, e agora falamos sobre política. O recado das ruas não é só para o PT. É para toda a imunda e corrompida classe política.
E pra mim isso é lindo. Por que o papel do cidadão é não deixar quem lhe governa ter cinco minutos de sossego. E se um dia o PSDB voltar ao poder, e organizarem uma manifestação contra o PSDB – o suposto partido da elite branca/coxinha/ignorante ao qual, segundo dizem, eu pertenço – eu certamente irei pra rua outra vez.
Eu sempre irei pra rua. Toda a vez que eu tiver a chance de fazer qualquer político perder o sono, eu o farei. Seja ele de que partido for.
Por que, em se tratando de política, eu sou e sempre serei oposição.