10 março 2015

A Literatura (essa desgraçada!)



Eu já realizei muitas entrevistas com escritores, estreantes ou não, e uma pergunta que quase sempre faço é: “a literatura é sua amiga ou sua inimiga?”.
100% deles respondem que a literatura é sua amiga de fé, irmã, camarada.
Acho curioso por que, se alguém fizesse esta pergunta para mim, eu não hesitaria em responder: minha inimiga.
Sempre foi.
Para mim, a literatura é como um filho problemático: me perturba, me tira o sossego, me enche o saco, me hostiliza. Inferniza minha vida, rouba meu tempo e meu dinheiro, me bate na cara, me humilha, não me dá cinco minutos de paz.
Só que de vez em quando – e somente de vez em quando – este filho me dá um carinho e um beijo de boa noite.
E no dia seguinte volta a me atormentar.
Mas se eu perdesse este filho; se ele morresse ou desaparecesse; como qualquer mãe eu me acabaria de dor e de tristeza.
Dá para entender?
É ruim com ela. E seria muito pior sem ela.
Às vezes sinto que esta é minha sina, meu castigo, meu presente: a literatura (essa desgraçada!) é minha salvação e, principalmente, minha maldição.