03 fevereiro 2015

Jair Bolsonaro não é o problema



* Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional de dezembro de 2014.

Recentemente, e como sempre, Jair Bolsonaro falou merda. Desta vez, disse em plenário que não estupraria a deputada Maria do Rosário por que “ela não merece”. Afinal, algumas mulheres merecem. Mais uma declaração bizarra para uma coleção de declarações bizarras, preconceituosas e horripilantes, marca registrada do deputado queridinho da Tradicional Família Brasileira.
Bolsonaro não quer saber de direitos civis e igualdade – premissa básica para qualquer país que pretende crescer e se desenvolver. Bolsonaro acredita que algumas pessoas são melhores do que outras: que o branco é superior ao negro; que o homem é superior à mulher; que o heterossexual é superior ao homossexual. E estas classes “inferiores” devem ser combatidas com veemência e violência.
Mas, apesar de tudo, não creio que Jair Bolsonaro seja o problema. Por que ele não é a causa; é a consequência. Bolsonaro não é deputado por que deu um golpe e tomou o poder. Ele foi eleito democraticamente – e não somente isso: foi o deputado mais votado nas últimas eleições, enquanto seu filho, Flávio Bolsonaro, foi o terceiro mais votado. Vou além: com as eleições deste ano, Bolsonaro foi eleito para o seu sétimo mandato. Eu disse SÉTIMO mandato. Ou seja: se ele está onde está, falando os despautérios que fala, não é por acaso. É, isto sim, por que representa a opinião e o posicionamento de boa parte dos brasileiros, que concordam que brancos, homens e heterossexuais são superiores a negros, mulheres e homossexuais. São pessoas que sustentam e endossam suas declarações preconceituosas. E estas pessoas, que votam, elegem e defendem Bolsonaro, estas sim são motivos de preocupação. De muita preocupação.
Bolsonaro é o deputado mais votado de um país onde, a cada 5 minutos, uma mulher é agredida*. Onde, a cada 2 horas, uma mulher é assassinada*. Um país onde 77% dos jovens assassinados são negros**. Onde, a cada 10 minutos, uma mulher é estuprada***. Onde um homossexual é morto a cada 28 horas, colocando o Brasil na liderança de um ranking mundial de violência contra homossexuais****.
Mas Bolsonaro e seus milhares de eleitores querem proteger quem não precisa de proteção, e agredir quem já é agredido o tempo inteiro. E isso me incomoda.
Acredito que estes eleitores, que assinam embaixo das declarações odiosas deste pouco nobre deputado, não possuem mulheres, negros e gays em suas famílias e em seus círculos de relações. Caso possuíssem, não poderiam defender Bolsonaro, sob o risco de proteger quem ataca os seus. 
Só que eu possuo. 
Eu tenho negros e gays em minha família e entre meus amigos mais próximos e – vejam só! – eu sou mulher, e não estou livre de integrar as estatísticas. De certo modo, já integro. Afinal, eu sofri violência doméstica, e tenho muitas amigas que também sofreram. Uma, inclusive, foi estuprada, e nem procurou a polícia, porque, segundo ela, “não adianta”. Eu tive um amigo assassinado brutalmente só por que era gay. 
Então, não. Eu jamais defenderei o opressor e atacarei o oprimido.
Pelo contrário. Seguirei fazendo parte do grupo que batalha pelo fim da violência, pelo fim do racismo, pelo fim do preconceito. Um grupo que sempre defenderá o direito de todo cidadão de andar pela rua sem medo de ser agredido e assassinado na próxima esquina, apenas por causa de seu sexo, de sua cor, de seu desejo sexual. Continuarei fazendo parte do grupo que luta para tornar nosso país mais justo e igualitário. Mais justo e igualitário para negros, gays, mulheres, índios, nordestinos. Mas também para o Bolsonaro e seus eleitores, e para os defensores da Ditadura Militar, e para a preconceituosa e tradicional família brasileira.
Por que, quando a igualdade é instaurada e o país melhora, melhora para todos. 
Até para os cretinos.

* Dados do Mapa da Violência de 2012 – Homicídio de Mulheres / ** Dados da Anistia Internacional no Brasil / *** Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública / **** Dados do Grupo Gay da Bahia (GGB)