10 janeiro 2015

30.



Quando eu tinha 16 anos imaginava que, aos 30, eu seria uma pessoa equilibrada.
Tranquila.
Ponderada.
Achava que teria filhos, e um emprego estável, e um salário alto.
Acreditava piamente que moraria na casa própria, e que saberia dirigir, e que seria mais fácil compreender o mundo e as pessoas.
Imaginava que eu teria parado de fumar, de beber, de explodir, de atirar o vaso contra a parede. 
Achava que me livraria da cólera que sempre me fez gritar, e achava até que encontraria uma maneira de domesticar meu cabelo Black Bloc.
Ontem eu fiz 30 anos e não.
Nada disso aconteceu.
Porém, apesar de continuar me afogando em um copo de água ácida, eu encontrei um lugar onde posso ser em paz.
Este lugar fica dentro de mim, e é onde não me sinto desconfortável nunca.
Continuo a mesma bagunça que eu era quando tinha 16.
Mas hoje posso dizer que aprendi a me encontrar dentro desta bagunça, e que gosto e respeito o caos que eu sou.
Descobri que a indignação que sempre me maltratou poderia me proteger – era só uma questão de direcioná-la do jeito certo.
E entendendo melhor a desordem, e compreendendo que não posso lutar contra, acabei me juntando a ela.
Eu e a desordem, amigas para sempre.
Hoje, aos 30, posso dizer que, se fosse uma pessoa tranquila, com emprego estável e salário alto; se eu houvesse domesticado meu cabelo Black Bloc e parado de gritar; se eu não sentisse mais esta raiva que me assombra, mas que também me impulsiona e fortalece; eu não seria eu.
Eu seria outra pessoa.
E eu não quero ser outra pessoa.
Por que eu gosto de mim. Gosto de quem eu sou, e de quem eu me tornei. Gosto de não controlar nada – nem meu cabelo e nem minha vida – e gosto de estar onde estou, e de vibrar na frequência instável que eu vibro.
Eu gosto da fúria que existe em mim, por que esta fúria é minha.
E não querer ser outra pessoa é a melhor e maior conquista que eu poderia desejar neste dia.
Então, se a Jana de 30 pudesse falar com a Jana de 16 anos, ela diria: relaxa que vai dar certo.