23 dezembro 2015

1º Capítulo: “O Duplo da Terra”!

Já está no ar o primeiro capítulo do meu terceiro livro, O Duplo da Terra, próximo lançamento da Editora Os Dez Melhores!
Clique AQUI e confira!
Lançamento previsto para março de 2016!


 Ilustração: Muha Bazila.

15 dezembro 2015

2ª Mostra de Arte em Carazinho!

Assessoria de Comunicação Editora Os Dez Melhores


Chega o final do ano e já sabemos o que esperar: as famigeradas retrospectivas, que buscam relembrar tudo de ruim que aconteceu nos últimos doze meses.
Contudo, indo na contramão destas tradições pessimistas, o Rancho Cavalo de Tróia marcou para o dia 26 de dezembro sua própria retrospectiva – neste caso, a Rocktrospectiva, a virada rock and roll do Saloon. Um evento que busca celebrar e relembrar o que de melhor passou pelas dependências do Rancho neste ano. E há muito a se recordar!
Em 2015 o Rancho Cavalo de Tróia seguiu como um ponto de resistência da arte marginal de Carazinho, abrindo espaço não só para músicos e bandas de rock, metal, punk e blues, mas também para a literatura, para a fotografia, para o artesanato, e para tantas outras formas de manifestações culturais.
E é justamente por que o Rancho luta com bravura para manter a arte e a cultura local em movimento, que a Editora Os Dez Melhores fez dali um lugar para chamar de seu.
No dia 26 de dezembro, além dos shows das bandas Black Hot Coffee, Chapeleiros de Vênus, Valance, DIRT e RG do Blues, vai acontecer a 2ª Edição da Mostra de Arte, uma realização do Rancho Cavalo de Tróia, que conta com o apoio da Editora Os Dez Melhores, de Carazinho/RS, e da Revista Café Espacial, de São Paulo/SP.
Dia 26, a partir das 20h, vai rolar exposição de fotografias, quadros, ilustrações, pirografia e artesanato, e também shows acústicos, apresentações de música e mágica, e divulgação de literatura e HQs. Sem contar a Briquelândia, onde todo mundo pode levar aquela guitarra esquecida atrás do armário, os pedais abandonados, os vinis empoeirados e os livros amarelados, para vender ou trocar.
A Editora Os Dez Melhores orgulhosamente vai dividir seu espaço com a Revista Café Espacial, e vai rolar descontos e distribuição de brindes.
Uma oportunidade imperdível de reunir os artistas que movimentam e fazem acontecer a cultura em Carazinho e região, e trocar ideias, divulgar seu trabalho, ouvir música boa e conhecer gente legal.
Então, pega leve no natal, pois dia 26 de dezembro, a partir das 20h, 2ª Mostra de Arte durante a Rocktrospectiva do Rancho Cavalo de Tróia, em Carazinho/RS (BR 386, entrada para Xadrez).  
Uma noite para relembrar e celebrar o que a vida tem de melhor: amigos, música, arte, liberdade e cultura.
Tudo aqui, ao nosso alcance.
Confirme sua presença AQUI.
Quer saber o que rolou na 1ª Mostra de Arte? Clique AQUI.


27 novembro 2015

“365 dias de consciência humana”: por que esse papo é uma balela

Vinte de novembro foi o Dia da Consciência Negra, o que nos levou a ver, ler e ouvir incontáveis vezes a famigerada frase, que diz: “Não precisamos de um dia da consciência negra, mas de 365 dias de consciência humana”.
Na teoria, até faz algum sentido. Mas só na teoria. Pois tal afirmação busca desqualificar uma questão que, apesar de incômoda e desconfortável, faz parte da nossa sociedade: o racismo.
Se não fôssemos racistas, não precisaríamos de um dia da consciência negra. Mas acontece que somos; logo, precisamos sim.
É por isso que existem negros lutando contra a segregação racial; mulheres lutando contra o machismo; homossexuais lutando contra a homofobia. E também é por isso que não existe dia da consciência branca, e nem homens oprimidos lutando contra o feminismo, e muito menos heterossexuais lutando contra a “heterofobia”.
Para que a luta contra qualquer preconceito tenha sentido, é preciso primeiramente que o preconceito a ser combatido exista.
E para saber se você é vítima de discriminação, basta se perguntar: eu já sofri abusos e ataques apenas por ser homem? Eu já fui revistado pela polícia ou pelo segurança da loja apenas por ser branco? Eu já fui humilhado e agredido apenas por ser heterossexual? Em resumo: eu já fui cerceado em meus direitos civis por conta do meu sexo, da cor da minha pele, ou da minha identidade sexual?
Se a resposta for não, adivinha? Você não sofre discriminação, amigão. Logo, não há por que lutar contra um preconceito que simplesmente não existe.
Enquanto houver mais negros na cadeia do que na universidade; enquanto as mulheres sofrerem mais violência em casa do que em qualquer outro lugar; enquanto homossexuais forem espancados e assassinados apenas por que são homossexuais, precisaremos desesperadamente do Dia da Consciência Negra, do Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher, do Dia do Orgulho Gay.
E a reação negativa, constrangedora e preconceituosa de muitas pessoas a estes movimentos sociais só nos mostra a importância e a necessidade destes movimentos sociais.
No dia em que negros e brancos, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, forem tratados da mesma maneira, não haverá mais racismo, nem machismo, nem homofobia. Logo, não haverá necessidade de combater estes preconceitos, porque eles não existirão mais.
Infelizmente este dia ainda está longe.
Mas seguimos caminhando em sua direção.

Foto: Marcos Musse.

20 novembro 2015

A Semente do Medo

Não há nada pior do que viver com medo. Com aquela sensação de insegurança, de vulnerabilidade. A iminência da tragédia é quase pior do que a tragédia em si. Por isso, a série de atentados terroristas que ocorreu em Paris, na última sexta-feira 13, fez mais do que matar covardemente 130 pessoas, e ferir quase 350. Ela plantou uma semente que dificilmente não germinará: a semente do medo.
E pessoas com medo se tornam, também, potencialmente perigosas. Tal e qual um animal acuado que, percebendo a ameaça, ataca, pessoas amedrontadas tendem a assumir uma postura agressiva e combativa quando se sentem em situação de risco. Trata-se de nosso instinto automático de sobrevivência.
O problema é que violência não se resolve com violência. Não se apaga fogo com gasolina, e não se dá cachaça para o alcoólatra parar de tomar cachaça. Quando aparece uma erva daninha no seu quintal, você deve arrancá-la pela raiz. Porque podar seus ramos não impedirá que ela se alastre pelo seu jardim.
Logo, a primeira pergunta que devemos nos fazer é: quem são estas pessoas capazes de fuzilar centenas de alunos e professores em uma universidade, ou de entrar atirando indiscriminadamente em uma boate lotada? Como foi que os convenceram de que é melhor se explodir no meio da multidão, do que seguir com sua vida numa boa?
A resposta parece clara: estes criminosos foram criados e alimentados pela própria sociedade que, agora, eles atacam. Como uma doença autoimune que destrói o organismo que a mantém.
Estes radicais são oriundos de países devastados pela guerra e pela miséria; são crianças e jovens socialmente órfãos, renegados a viver em situação ultrajante, que acabam adotados por diferentes facções, que baseiam sua existência na violência e no fanatismo. Estes grupos oferecem a estes jovens o que a sociedade lhes renegou: um futuro, uma possibilidade, uma expectativa; um objetivo a ser alcançado.
Jovens em situação vulnerável – isto é: vivendo sem condições mínimas de dignidade e cidadania – tornam-se literalmente bombas-relógios nas mãos de criminosos que, igualmente, um dia foram jovens em situação vulnerável. O medo gera violência, e a maioria destes jovens nasceu e cresceu em circunstâncias de total insegurança e incerteza. Isto precisamos compreender: todo assassino, todo radical, todo bandido sanguinário, já foi uma criança inocente – como seu filho, seu afilhado, seu irmãozinho. Ninguém nasce terrorista. Tornamo-nos, geralmente por conta do contexto que nos abriga, e da falta de perspectiva no futuro.
Precisamos, enquanto sociedade, cuidar desta criança que ainda é inocente. Ela é nossa responsabilidade. E cuidar desta criança é cuidar da nossa própria pele, pois somos nós que criamos os monstros que, daqui uns dias, nos atacarão.
Então vamos prestar atenção em nossos jovens. Vamos oferecer condições para que eles cresçam de forma saudável; vamos oportunizá-los, criar expectativas para suas vidas. Vamos mostrar que eles têm muito a perder.
Porque enquanto ignorarmos a raiz deste problema, e continuarmos buscando a solução da guerra na guerra, e da violência na violência, seguiremos como animais acuados: atacando, marginalizando, segregando, odiando. Com medo o tempo todo.
Somos todos seres humanos, e é assim que precisamos ser tratados: como seres humanos. Seja em Paris, na Síria, na África, na Rússia, em Minas Gerais, no Complexo do Alemão, na rua da minha casa, no colégio da minha vila, no centro da minha cidade.

16 novembro 2015

Eu quero ver sangue!

Aposto cinco pila que o leitor ficou chocado com o título deste texto. Talvez por que, em nível consciente, a maioria de nós considera-se uma pessoa pacífica, amorosa e ordeira. No entanto, sabemos que é o nosso inconsciente quem dita as regras por aqui, e assim passamos a maior parte de nossas vidas pensando, dizendo e agindo conforme manda nosso instinto. E sabe o que quer o nosso instinto? Ele quer ver sangue.
E isso pode ser comprovado pela personalidade coletiva da sociedade em que vivemos. Uma sociedade que gosta de vigiar e punir; que gosta de controlar, de reprimir, de criticar, de julgar. Seja através de nossas ações, seja através de nossas opiniões, parece-me evidente que seguimos como a plateia das antigas arenas, quando o povo se reunia para assistir, extasiado, o próprio povo digladiar-se.
Acham que eu exagero? Pois então ouçam a voz que vem das ruas. Não a voz de protestos políticos; mas a voz cotidiana, que se manifesta através de opiniões violentas sobre pessoas que deveriam, apenas, ser tratadas como pessoas. “Bandido bom é bandido morto”. “Tem mulher que merece apanhar”. “Com essa roupa aí ela está pedindo para ser estuprada”. “Prefiro um filho morto a um filho gay”. “Isso é falta de laço”. “Tem que matar”. “Tem que moer a pau”. “Tomara que morra”. Sangue, sangue, SANGUE!
Somos muito mais selvagens do que pensamos. E a violência que trazemos dentro de nós é a violência que enxergamos nas ruas – e que criticamos, como se não tivéssemos nada a ver com ela. Falta-nos compaixão pelo próximo; falta-nos preocupação com qualquer um que não seja nós mesmos, e os nossos.
Durante muito tempo eu também quis ver sangue. E deixava isso claro através das minhas atitudes, da minha maneira de se expressar, dos meus julgamentos raivosos e violentos contra tudo e contra todos que não se encaixassem perfeitamente nos meus padrões.
Hoje estou em franco processo de mudança, e talvez esta seja a maior conquista de toda a minha existência. Eu não quero mais ver sangue. Porque eu sei que o sangue que hoje é do outro, amanhã pode ser o meu. Ou dos meus. Hoje eu consigo compreender que a minha felicidade, que a minha integridade e que a minha própria segurança depende diretamente da felicidade, da integridade e da segurança de todos.
Porque somente uma sociedade menos indiferente à dor alheia poderá, um dia, almejar eliminar sua própria dor.

30 outubro 2015

Quem é o seu deus?

Todos os religiosos são devotos de algum deus. E independente de como cada um nomeia o seu, creio que, em um ponto, todos concordam: deus é um cara bacana. Seja lá quem for este deus, ele é do bem. Certo? Certo.
Mas se deus é legal; se ele é do lado bom da força; por que raios a maioria de seus supostos seguidores não é? Afinal, se deus é gente boa, ele não pode ser assim, tão agressivo e azedo como vocês o pintam. Se deus é pai de todos, suponho que também seja pai dos travestis, das prostitutas, dos criminosos, dos umbandistas, dos ateus, dos miseráveis, dos viciados, dos gays, dos jogadores de rúgbi.
Vejam o caso de Jesus Cristo: quando ele teoricamente viveu entre nós, há mais ou menos dois mil anos, só andou com os excluídos e com os marginalizados. Não me lembro de nenhuma parte de sua história onde ele menciona curar homossexuais, linchar bandidos, ou atirar pedras em crianças com outra fé.
Então, ou deus é um sujeito preconceituoso, mal-humorado e violento, ou seus seguidores não estão entendendo da missa um terço. Fico com a segunda opção.
Porque debocha da lógica um deus que não respeita a diferença. Que não compreende o sofrimento do outro, que desconhece a empatia. Não aceito – porque minha razão não permite – um deus tão cruel, vingativo, intolerante e megalomaníaco. Neste deus, que muitos seguem, eu não acredito.
O deus que eu chamo de meu é um cara legal e pacífico. Não se importa se você é gay, crente, promíscuo, leproso, dançarino, asiático: ele te aceita, e fim. Este deus que é meu não perde tempo com picuinhas e com detalhes irrelevantes, como a sua profissão, a sua religião, a cor da sua pele, o seu desejo sexual ou a sua conta bancária. Ele quer apenas saber se você é um sujeito bacana, como Ele é.
O meu deus está interessado nas tuas atitudes; em quem você é no seu dia a dia. Ele espera que você ame os outros – e se não puder amar, que ao menos os respeite. Ele fica de olho no jeito como tratamos o garçom e o porteiro e o empresário rico, e se nos importamos quando enxergamos uma pessoa dormindo na rua, seja ela criança ou não. Ele somente deseja que a gente ajude quem não pode se ajudar, e que tenhamos um pouco de decência e compaixão na forma como vemos o mundo, e o próximo.
O deus que é meu aceita a diversidade – e não só aceita, como a celebra e a admira, já que Ele próprio a criou.
No entanto, para muitas pessoas, só uma fé tem valor: a sua.
Estas pessoas frequentam religiosamente templos e cultos, mas já saem da igreja falando mal do vizinho. Estas pessoas rezam o dia inteiro, mas julgam o próximo com uma severidade que não usam para julgar a si mesmas. Estas pessoas apedrejam crianças, atiram homossexuais do décimo andar, e odeiam qualquer crença ou filosofia que vá contra suas certezas miúdas e egocêntricas.
O deus destas pessoas não é o meu deus.

É o seu?

05 agosto 2015

Eu amo fazer política!

Originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

Essa afirmação pode soar esquisita em tempos atuais. Especialmente vinda de uma pessoa como eu, que nunca se candidatou a cargo nenhum, que não é filiada a nenhuma sigla partidária, que jamais militou em favor de qualquer bandeira. Mas eu amo política, e a pratico diariamente.
Porque, na minha visão, há uma diferença crucial entre política e politicagem, e vou explicá-la dando um exemplo.
Certa vez, um amigo muito querido, pelo qual tenho enorme respeito, me procurou, pois estava pensando em se candidatar a vereador em sua cidade, e queria saber a minha opinião. Este amigo sempre esteve envolvido em trabalhos voluntários, era colaborador de uma ONG para crianças com HIV, e não se negava a ver a pobreza e a desigualdade que o cercava – como cerca a todos nós. Um homem livre de preconceitos, generoso, daqueles que trazem soluções, e não problemas. Um cara realmente admirável.
Por tudo isso, quando ele me fez esta pergunta, confesso que fiquei um pouco atordoada. Mas não hesitei em responder:
– Você quer ser vereador porque pretende fazer mais pela sua cidade, ou por vaidade?
Ele me encarou intrigado, arregalando os olhos. E também não hesitou em responder:
– Para fazer mais pela minha cidade, é claro.
– Então, meu amigo, não se candidate. Porque ou você entra para a política por vaidade, ou você não entra.
Conheço N casos de pessoas bacanas e bem-intencionadas que, depois de eleitas para ocupar cargos públicos, se tornaram um peso morto sobre a Terra. Gente ativa, criativa e produtiva, que em poucos meses não era capaz de levantar a bunda de sua cadeira – de couro, é lógico – e fazer qualquer coisa pelo próximo.
O sistema político está apodrecido, e naturalmente apodrece quem dele se aproxima. Não importa o tamanho da sua boa intenção; a engrenagem vai te engolir, meu chapa. E então restarão somente duas opções: ou você sai, ou você abraça o diabo.
Então – eu disse para este amigo – se você quiser fazer mais pela sua cidade, continue fazendo exatamente o que você está fazendo. Somando, ao invés de subtraindo. Apresentando saídas, e não empecilhos. Assim você estará fazendo mais do que a maioria, e muito, muito, muito mais do que qualquer político é capaz de fazer.
Não desperdice sua energia e sua boa vontade com as falcatruas e as maracutaias da politicagem ordinária e escrota que é exercida neste país.
Porque política eu faço todo dia, e amo. Eu faço política quando vou até uma escola de periferia falar sobre literatura. Quando escrevo textos sem nenhuma maquiagem, dando minhas opiniões. Quando me manifesto toda vez que vejo uma injustiça. Quando olho para o mendigo e para o menino de rua, e não penso que eles são vagabundos que merecem morrer. Eu vivo a política o tempo inteiro, porque não consigo separar quem eu sou daquilo que penso e faço.
Eu pratico política; os políticos praticam politicagem. Eu amo política, e detesto, desprezo, abomino a politicagem. Por isso eu jamais me candidataria à vereadora/senadora/deputada, ou mesmo para presidente do grêmio estudantil. Porque, se eu fizer isso, em pouco tempo não farei mais política; farei apenas politicagem.
Se nossos políticos – todos eles, independente do partido – fossem menos vaidosos e megalomaníacos, e se dedicassem a fazer política com o mesmo afinco e entusiasmo com o qual se dedicam a fazer politicagem, que país melhor e mais bonito nós teríamos!
Meu amigo não se candidatou a vereador.
E continua fazendo política, porque ele a ama tanto quanto eu. 


27 julho 2015

O crime antes do crime

Texto publicado originalmente na TOP Revista.

João tem 17 anos, e naquela noite aguardava a saída dos alunos da universidade escondido atrás de uma árvore. O boné e o capuz de seu casaco escondiam seu rosto. Escolheria aleatoriamente um dos estudantes para realizar um assalto. Maria foi eleita. Ao ser abordada por João, entregou tudo o que ele pediu: bolsa, carteira, dinheiro, celular. Mesmo assim, antes de ir embora, João deu três tiros na sua cabeça. E Maria, que tinha somente 17 anos e estava no primeiro ano de faculdade, morreu.
Esta é uma história hipotética, mas poderia perfeitamente ser real. Aliás, é real. Existem centenas de Joãos e Marias por aí, morrendo e matando todos os dias. Porém, vamos nos focar neste exemplo. A família e os amigos de Maria ficarão revoltados, e com toda a razão. A tristeza de seus pais será infinita. A injustiça e o absurdo da situação são inegáveis. Maria tinha a vida inteira pela frente, e era uma jovem promissora, inteligente, querida por todos. A sensação de impotência e a raiva são impossíveis de controlar.
João deve ser punido, e isso é indiscutível. Afinal, nas ruas, seguirá cometendo crimes, e provavelmente voltará a matar outras Marias.
Entretanto, peço ao caro leitor que se aprofunde mais nesta narrativa “fictícia”. Que analise a situação de longe, com olhos os mais imparciais possíveis. Por que antes do crime que vitimou Maria, houve outro crime, tão sério, tão grave e tão revoltante quanto. Trata-se do crime que vitimou João.
Pois, apesar de terem a mesma idade, João e Maria possuem histórias bem diferentes. João, assim como 16 milhões de brasileiros que vivem na pobreza extrema (sobrevivendo com menos de R$1 por dia), cresceu em um barraco de quarto e sala com a mãe e os seis irmãos. Nunca foi para o colégio. O pai morreu quando ainda era criança, assassinado. A mãe se tornou alcoólatra, e os filhos se criaram pelas ruas, como pintos. Faltou comida na mesa, faltou perspectiva, faltou dignidade, faltou saúde, faltou educação, faltou lazer, faltou tudo. Não tinha nem 12 anos e João já era viciado em drogas. Analfabeto, dependente químico e marginalizado desde o berço, suas referências eram os bandidos que se avizinhavam – os únicos que tinham o que ele nem sonhava ter; inclusive, e principalmente, respeito. Cresceu conhecendo a raiva intimamente, e aprendeu da pior maneira que não era bem-vindo na sociedade. Com 14 anos, já assaltava e traficava há tempos.
Esta é outra história hipotética igualmente comum. Faz parte das estatísticas tanto quanto a morte de Maria. João e Maria são dois jovens brasileiros, ambos de 17 anos, filhos da mesma pátria – mas que tiveram vidas e oportunidades totalmente opostas. 
A sociedade deu para Maria todas as condições para que crescesse sadia, forte e inteligente; e esta mesma sociedade ofereceu para João todas as condições para que crescesse ignorante, violento e perigoso. Então eu pergunto: como a sociedade pode cobrar de João o mesmo que cobra de Maria?
É simples: não pode. João matou Maria, e merece ser punido. Fim. Mas e a sociedade, que matou João antes que ele aprendesse a andar, não merece? Merece, e é. Porque João, filho bastardo desta sociedade, lhe devolve com juros e correção monetária a violência que sofreu. E devolve matando Maria, a filha preferida, aquela para quem nunca faltou nada.
Quem perde no final desta história é João. E Maria. E a sociedade. E eu, você, meus pais, teus filhos. Não há final feliz para ninguém.
Porém, a sociedade não pensa assim. Ela se foca somente na consequência (o assassinato de Maria), e nunca na causa (o assassinato do cidadão que João poderia ser). A sociedade passa a vida podando os galhos do mal, sem nunca destruir sua raiz. Não compreende que, enquanto apara os ramos timidamente, vai alimentando e fortalecendo esta árvore nociva, que só produz frutos igualmente nocivos – os quais comemos até nos fartar.
Então, ao invés de se perguntar por que existem tantos Joãos em seu seio, a sociedade brada que João merece morrer, apodrecer na cadeia, ser linchado, humilhado, amarrado num poste, excluído o mais rapidamente possível do convívio social.
A punição ao criminoso é importante, justa e necessária. João precisa responder pelo que fez. Mas a sociedade precisa também. 
Porque houve um crime grave, 17 anos antes do crime grave que vitimou Maria – e foi por causa deste primeiro crime que o segundo crime aconteceu. 

13 julho 2015

O meu pai é uma pessoa rara.

Alguém que está sempre sorrindo, em um mundo onde a maioria vive de cara fechada.
Uma pessoa compreensiva e amável, em um mundo onde quase ninguém ama e compreende.
Durante muito tempo, quando eu era mais jovem, acreditei que o imenso coração do meu pai o tornava frágil. Muitas vezes eu o vi cercado de gente cruel, gente má, gente sem nenhum caráter, e ele era tão diferente destas pessoas, que eu morria de medo que elas pudessem feri-lo, magoá-lo, machucá-lo.
Durante muito tempo eu achei que deveria proteger meu pai, pois sua afabilidade em lidar com o mundo o deixava vulnerável.
Hoje eu sei que sempre estive errada.
A doçura e o amor que vem do meu pai jamais o tornaram fraco ou frágil.
Bem pelo contrário.
Somente o deixaram mais forte, mais resistente, mais seguro, e esta é a maior lição que ele me ensinou.
Porque eu sempre acreditei que deveríamos reagir atacando.
Que não poderíamos “levar desaforo pra casa”. Que era preciso gritar, xingar, chutar a porta.
Foi ele quem me ensinou que a melhor reação não é o ataque; mas o amor.
Meu pai sabe amar como poucos sabem, e eu tenho a sorte e o privilégio de ser filha desse cara.
Sem ele, eu não seria quem eu sou.
Não sei quem eu poderia ser, mas certamente seria alguém pior.
Aliás, o mundo inteiro seria um lugar pior sem ele.
Então, obrigada papito.
Porque se este mundo insano e mal-amado não me engoliu e não me transformou em uma pessoa insana e mal-amada, foi por causa de você.
E eu te amo de um jeito que as palavras não conseguem descrever!
Você é a pessoa mais linda e mais forte que eu conheço.
Feliz aniversário.


11 julho 2015

Você TEM CERTEZA que é Maju?

Você já sabe do que eu estou falando, né? Recentemente, a página do Jornal Nacional no Facebook publicou em sua linha do tempo uma foto da jornalista Maria Júlia Coutinho, a Maju, e o resultado foi exatamente como esperávamos: uma chuva de ofensas racistas deploráveis, que me recuso a reproduzir aqui.
Logo em seguida, milhares de pessoas saíram em defesa da jornalista – até o engessado e robótico William Bonner gravou um vídeo com a produção do Jornal Nacional. E surgiu então a hashtag: #SomosTodosMaju.
Lindo, sim. Verdadeiro, nunca.
Porque nós não somos todos Maju. Se fôssemos, não viveríamos em um país marcado a ferro e fogo pela força e pela crueldade do racismo. Não um racismo tão explícito, como constatamos nos comentários da foto de Maju; mas um racismo sutil e sorrateiro, institucionalizado, escondidinho em nossas entranhas.
Prova disso é o “choque” de muitas pessoas com os comentários racistas que Maju recebeu. Parece que muita gente ficou impressionada, horrorizada, bestificada. E eu pergunto: ficou por quê? Maju não é a primeira, e infelizmente não será a última a sofrer racismo em solo tupiniquim. Todos os dias – e eu disse TODOS OS DIAS – negros e pardos são vítimas do preconceito: quando vão procurar um emprego; quando entram em uma loja; quando são abordados pela polícia; quando caminham pela rua e as senhorinhas seguram a bolsa contra o corpo, com medo de serem assaltadas.
Os negros são maioria acachapante nos presídios (73% da população carcerária brasileira é formada por jovens negros – sendo que, destes, 66% não concluíram o ensino fundamental*), e nas favelas (quase 70% das pessoas que vivem na pobreza extrema são negras**), e minoria gritante nas universidades (somente 8,8% dos graduados são negros***).
77% dos jovens assassinados no país são negros****. A polícia brasileira mata três vezes mais negros do que brancos – e entre os policiais envolvidos nestes assassinatos, adivinha? 79% são brancos*****. Os negros e os pardos, apesar de representarem 53% da população******, são minoria nas capas de revistas, no protagonismo de novelas e – veja só! – até mesmo na bancada dos principais telejornais do Brasil. Como, por exemplo, o Jornal Nacional.
Este é o país que se choca profundamente quando alguém chama uma jornalista negra de “preta fedida”. E nos chocamos porque não temos sequer a decência de assumir nosso racismo. Ignoramos sumariamente um histórico perverso de escravidão e subserviência, ao qual a sociedade branca submeteu os negros, e sempre que um negro reclama, lá vem um grupo de brancos dizendo que ele está “exagerando”, “fazendo drama” e “se vitimizando”. Porque nem reclamar do racismo os negros podem.
Então, não: não somos todos Maju. Muito pelo contrário. O racismo está impregnado em nós como uma tatuagem malfeita; como um tumor maligno que destrói nossa capacidade de percepção e compreensão do que acontece bem embaixo do nosso nariz.
Mas não se iludam: os negros e as verdadeiras Majus não ficarão mais calados, apanhando quietinhos. Imagino que devam estar bem cansados de nós, brancos, e da nossa sociedade estúpida, mesquinha, racista e dissimulada.
Para finalizar, recomendo aos interessados o clipe “Boa Esperança”, do genial Emicida: “Cês diz que nosso pau é grande; espera até ver o nosso ódio”. Um dos clipes mais corajosos que já vi, e que trata justamente disso: a resistência e a reação negra.
Talvez acabe sobrando pra mim, e pra você. Mas isso também é resultado do fato de vivermos em um país negro, onde a maioria não é Maju nem por um minuto sequer.


* Dados do Ministério da Saúde / ** Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) / *** Dados do Ministério da Educação (MEC) / **** Dados da Anistia Internacional no Brasil / ***** Dados da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) / ****** Dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (Pnad)

24 junho 2015

Eu poderia ser o bandido. E você também.

Publicado originalmente na TOP Revista.

Recentemente, marquei de tomar um café com uma amiga da faculdade. Combinamos de nos encontrar em uma cafeteria, e ela chegou atrasada. “Estava no Clube fazendo sauna”, me explicou. Pedimos o café – R$8 cada um. Fazia frio, mas o ar-condicionado deixava o ambiente aquecido e confortável. Não demorou, e esta minha amiga me contou que andava estressadíssima, porque sua diarista havia abandonado o trabalho para cuidar dos filhos. “Depois do Bolsa Família, esse povo não quer mais saber de serviço, Jana!”. Foi o que ela me disse.
Olhei para fora. Do outro lado da rua, um grupo de homens trabalhava na construção de um prédio. A maioria usava manga curta, naquele frio horrível. Nós estávamos no ar-condicionado, tomando um café superfaturado. Mas para ela, que estava fazendo sauna em plena terça-feira de tarde, “o povo” era vagabundo.
Deixei a cafeteria pensando sobre isso. Já era quase cinco e meia da tarde, e os alunos do Rui Barbosa, um colégio particular caríssimo aqui de Carazinho, saíam da aula. Na frente da escola, uma fila de carros aguardava os estudantes. Eram seus pais, que haviam ido buscá-los – apesar de a maioria morar ali em volta, no centro. As crianças vestiam um uniforme bonito e quentinho, e muitas usavam gorros, luvas e cachecóis.
Segui meu caminho. Perto de casa, passei por um contêiner de lixo, e percebi que ele estava entreaberto. Ao lado, um adolescente maltrapilho, usando bermuda e chinelos – naquele frio! – esperava o menino mais novo, e por isso mesmo menor, que se encontrava dentro do contêiner, catando papelão e latinhas de cerveja. Este menino tinha mais ou menos a mesma idade das crianças pelas quais eu havia recém passado, e que deixavam o colégio. Mas ele estava dentro de um contêiner de lixo. Ao lado deles, um carrinho improvisado de entulhos e alguns cachorros – tão maltratados quanto os meninos.
Cheguei em casa triste e cansada. Triste e cansada de viver em uma sociedade incapaz de enxergar a diferença abissal que existe entre aqueles dois meninos no lixo e aquelas crianças na escola. Uma sociedade que usa casacos, luvas e gorros, mas acredita que “basta se esforçar para sair da pobreza”. Uma sociedade cruel e ingrata, que não reconhece os privilégios dos quais usufrui – e tampouco percebe a pobreza gritante que existe bem embaixo do seu nariz.
Esta minha amiga sempre estudou em colégio particular, e depois cursou uma faculdade também particular – assim como eu. Esta minha amiga, que chama de vagabundo quem recebe o Bolsa Família, nunca trabalhou na vida, porque nunca precisou. Porém, esta minha amiga, assim como a sociedade onde vivemos, não compreende o tanto de benefícios que possui, e por isso mesmo repete clichês do tipo “É só estudar”, “É só querer”, “Bandido bom é bandido morto”, “Bolsa Família é coisa de vadio”.
Essa minha amiga não vê as crianças que catam lixo, e nem os trabalhadores que carregam tijolos no frio, enquanto ela toma um café de R$8 em uma cafeteria com ar-condicionado logo depois de fazer sauna – tudo pago pelo papai.
Eu, assim como essa minha amiga, também sou privilegiada. Tive todas as oportunidades deste mundo. Nunca passei fome, nem frio, nem qualquer necessidade ou privação. Nunca catei lixo, nunca morei na rua. Nunca sofri violência, preconceito, discriminação. Nunca entrei em um contêiner. Por isso, se hoje eu sou uma pessoa honesta; se eu trabalho; se eu colaboro com a minha comunidade e dou algum orgulho aos meus pais, não é por que eu sou uma “cidadã de bem”. É por que tive sorte. Por razão que desconheço, a vida permitiu que eu vivesse com conforto em um mundo tão miserável e desigual.
Mas, ao contrário desta minha amiga, eu não sou ingrata. Eu não acredito na meritocracia em uma sociedade onde as oportunidades não são iguais. Eu sei que não cheguei até aqui só por causa do meu esforço e dedicação; eu tive regalias desde que nasci. Eu enxergo os meus privilégios, e eu também enxergo os meninos no lixo, e os trabalhadores de manga curta, no frio.
Eu consigo me colocar no lugar deles, e por isso posso garantir: se eu vivesse na pobreza, sem chances, sem perspectivas, com frio, com fome, eu não seria uma “cidadã de bem”. Eu provavelmente enfiaria uma arma na cara dessa minha amiga – que, neste caso, nem minha amiga seria – e a mandaria me passar o dinheiro e o celular e calar a boca. E talvez, por ela representar uma sociedade que sempre me desprezou, no fim eu atiraria bem nas suas fuças, só de raiva.
E aí eu me tornaria um bandido repulsivo. E todos diriam que eu deveria morrer – porque, afinal, bandido bom é bandido morto e blábláblá. Eu nunca teria feito projetos em escolas, nem escrito livros, e muito menos participaria de ações sociais. Eu não tentaria tornar nossa sociedade melhor – pelo contrário. Eu atacaria esta sociedade com a mesma fúria e desprezo com que esta sociedade sempre me atacou.
Entendam: eu não estou aqui defendendo o criminoso. Quem errou, deve pagar, e fim. Mas seria inteligente de nossa parte tentar prevenir o mal, ao invés de somente remediá-lo. Porque enquanto ignorarmos a desigualdade e a miséria que assola nosso país, fechando os olhos para nossos muitos privilégios, e repetindo os mesmos clichês que forjaram nossa sociedade, seguiremos fabricando bandidos em série, como sempre fizemos.
Discorda de mim? Tudo bem. Mas me responda: e se o privilegiado não fosse você? Se, ao invés de estar no ar-condicionado tomando café gourmet, você estivesse no contêiner catando lixo? Ainda assim você seria um “cidadão de bem”?
Eu não.


18 junho 2015

Eu não fiquei triste com o cancelamento da Jornada Nacional de Literatura

Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

Esta frase pode parecer incoerente, já que trabalho com literatura de diferentes maneiras: sou leitora, sou escritora, sou editora, sou aprendiz. Também sou vizinha de Passo Fundo, a “Capital Nacional da Literatura”, que por 34 anos abrigou 15 edições da Jornada. Por todas estas razões, o lógico seria eu não apenas ficar triste, mas furiosa e indignada com o cancelamento da 16ª edição do evento. Mas não fiquei tanto quanto deveria – ou poderia.
Quem me conhece, sabe que nunca concordei com muitos aspectos da Jornada: o alto custo das inscrições, a elitização do público, o completo desprezo por autores e artistas locais, o espetáculo em detrimento do debate, entre outras coisinhas.
Mas isso não importa mais. Porque quis o destino que neste ano a Jornada fosse cancelada pela primeira vez. Alegaram falta de verba e de apoio e etc. Precisavam da bagatela de R$3,5 milhões, e não conseguiram.
O fato é que, após o cancelamento desta edição, e o afastamento de Tânia Rösing da coordenação da Jornada, um futuro incerto se apresenta aos nossos olhos; um futuro incerto, porém promissor.
O reitor da Universidade de Passo Fundo, José Carlos Carles de Souza, garantiu que a Jornada irá “mudar de formato”, e é aqui que reside a esperança.
Quem sou eu para opinar, mas creio que esta reformulação deva ser estrutural, isto é: permear as entranhas da Jornada, tornando-a mais atrativa, mais acessível, mais abrangente. Maior, em sua essência e importância.
Acho que a Jornada deve ir até a comunidade; deve sair do campus, sair do centro, e abraçar também escolas e instituições de ensino da periferia – lugares literalmente invisíveis para a maioria de nós. Afinal, estes alunos também têm o direito de participar de um evento que ocorre há mais de três décadas em sua própria cidade, e o qual eles só conhecem pela televisão.
A Jornada precisa obrigatoriamente ser mais barata; até por que, os estudantes – que deveriam ser seu principal público-alvo – não costumam desfrutar de muita grana. Estejam eles na universidade ou não.
Até arrisco dizer que, através destas reformulações, é possível tornar a Jornada menos onerosa. Talvez nem precise mais de milhões de reais para fazer acontecer. E além de ficar mais em conta, certamente alcançará mais público – logo, todo mundo ganha: a UPF, a comunidade, os estudantes, os professores, os leitores, os escritores, eu e você.
No entanto, e independente das minhas ressalvas em relação à Jornada, considero importante frisar que respeito o trabalho realizado nestes 34 anos. Não seria louca de não respeitar. Reconheço a relevância do evento para a formação de leitores, e admiro tudo o que foi feito até agora. Porque é melhor uma Jornada cheia de problemas, do que nenhuma Jornada.
E é exatamente isso que temos agora: nenhuma Jornada.
Mas não nos lamentemos, amigos. Eu creio que a mudança é sempre boa. Toda vez que aquilo que parecia certo desmorona, geralmente encontramos formas criativas e surpreendentes de nos superar, de modo que acabamos saindo da peleja mais fortes do que quando entramos. 
E se o mundo mudou tanto nestes últimos 34 anos, por que a Jornada não haveria de mudar?
Então, espero sinceramente que a UPF, e todos os envolvidos, encontrem uma alternativa para dar seguimento ao trabalho que foi realizado até aqui. Tenho certeza de que existem milhares de opções incríveis e possíveis, e eles haverão de descobrir a mais apropriada – apropriada para todos, do centro e da vila, do colégio particular e do colégio público, da sala de professores e da mesa de bar. 
De qualquer maneira, obrigada Tânia Rösing, por tudo o que você fez nestes 34 anos.
Mas agora é hora da Jornada Nacional de Literatura seguir por novos caminhos.


02 junho 2015

Contra DADOS não há argumentos: parte 2

Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

Em minha última coluna, dei início a uma série de textos que tratarão, estatisticamente, de temas sérios e de extrema importância, porém ainda considerados tabus em nosso país. 
Falo da legalização das drogas, da redução da maioridade penal, da descriminalização do aborto, do feminismo, do racismo, da homofobia – assuntos sobre os quais todo mundo tem uma opinião, geralmente baseada naquilo que cada um acha, e não naquilo que, de fato, é.
Já falamos sobre a legalização das drogas e a redução da maioridade penal, dois tópicos que estão mais entrelaçados do que supõe nossa vã filosofia, como os números bem nos mostraram. E nesta edição, abordaremos o feminismo, um movimento ainda considerado por muitos como ‘exagerado’ e ‘desnecessário’.
Segundo afirmam seus opositores, as feministas dramatizam questões simples; reclamam de tudo, e suas reivindicações não têm razão de ser.
Vamos ver o que os números nos dizem? Vamos sim!

* No Brasil, três de cada cinco mulheres já sofreram violência em seus relacionamentos (1).

* 56% dos homens admitem que já agrediram suas companheiras, xingando, batendo, empurrando, estuprando e/ou impedindo-a de sair de casa (2).

* 77% das mulheres que relatam viver em situação de violência sofrem agressões semanal ou diariamente (3).

* Somente em 2012, a cada quatro horas uma mulher foi assassinada no Brasil antes de completar 30 anos. O assassinato de mulheres é 60% maior na faixa até 30 anos (4).

* 30% das mulheres dizem acreditar que as leis do país não são capazes de protegê-las da violência doméstica (5). 52% delas acham que juízes e policiais desqualificam o problema (6).

* Seis em cada 10 brasileiros conhecem pelo menos uma mulher que foi vítima de violência doméstica (7). Os quatro restantes também conhecem; só que ainda não descobriram.

* Em todo o mundo, entre 100 e 140 milhões de mulheres sofreram mutilações genitais nos anos recentes. Além disso, só na África, mais de 3 milhões de meninas correm o risco de serem mutiladas neste ano. 70 milhões de mulheres se casaram antes dos 18 anos, geralmente contra a sua vontade (8).

* No Brasil, a cada 15 segundos uma mulher é espancada (9). A cada 4 minutos, uma mulher é estuprada (10). A cada 2 horas, uma mulher é assassinada. Em uma lista de 87 países, o Brasil ocupa a sétima colocação entre os que mais matam suas mulheres (11). Em 80% dos casos, os assassinos são seus namorados, maridos e companheiros (12). Isto significa que, somente ao final deste dia, 5.760 mulheres serão agredidas no Brasil; 360 serão estupradas, e 12 serão assassinadas.

Ou seja: o feminismo não é somente importante; é imprescindível, fundamental, absolutamente necessário. 
Então, antes de sair por aí se envergonhando publicamente, dizendo besteiras como ‘agora tudo é machismo’ ou ‘parem de reclamar e vão lavar louça’, conheça (e reconheça) os dados alarmantes que envolvem a violência contra a mulher. 
Porque todo homem que tem mãe, irmã, amiga ou filha possui sérios motivos para se preocupar.


(1) Instituto Avon/Data Popular (2014); (2) Data Popular/Instituto Avon (2013); (3) Balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR); (4) Instituto Sangari/Mapa da Violência – Os Jovens do Brasil (2014); (5) DataSenado (2013); (6) Instituto Avon/Ipsos (2011); (7) Instituto Avon/Ipsos (2011); (8) Organização Mundial da Saúde (OMS); (9) Fundação Perseu Abramo; (10) Anuário Nacional de Segurança Pública; (11) Mapa da Violência – Homicídio de Mulheres; (12) Governo Federal. 

22 maio 2015

Contra DADOS não há argumentos: parte 1

Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

Sempre que falamos sobre descriminalização das drogas, legalização do aborto, redução da maioridade penal, feminismo, racismo e homofobia, nos baseamos muito mais em opiniões e crenças pessoais, e muito menos em números e estatísticas. 
Porém, o que eu e você achamos, pensamos ou acreditamos não importa, diante dos fatos.
Então, para que possamos ao menos reavaliar nossas certezas, inicio hoje uma série de textos que carinhosamente chamarei de “Contra DADOS não há argumentos”, onde listarei alguns números que você deve levar em consideração, antes de sair por aí dando uma opinião fundamentada apenas pelo que você ACHA.
E nesta edição o tema é: Legalização das Drogas e Redução da Maioridade Penal. Dois assuntos aparentemente independentes, mas que estão direta e profundamente interligados. Entenda:

* O Brasil possui uma população carcerária de 548 mil pessoas. No entanto, nossos estabelecimentos penais dispõem de somente 310,6 mil vagas; um déficit de 237,4 mil vagas (1). Atualmente, as prisões brasileiras abrigam em média 17 detentos em um espaço onde só caberiam 10 (2).
Ou seja: não tem lugar nem para os presos que já estão presos. Que dirá para os milhares de jovens de 16 e 17 anos que agora entrarão para estas estatísticas.

* No Brasil, 70% da população carcerária masculina está detida por furto, roubo e tráfico de drogas, sendo que a maior parte destes furtos e roubos são cometidos justamente por usuários de drogas. No caso da população carcerária feminina, o número de presas apenas por tráfico chega a 65% (3).
Ou seja: a descriminalização das drogas literalmente esvaziaria nossos presídios, medonhamente lotados.

* 72% dos internos da Fundação Casa estão apreendidos por tráfico de drogas, segundo levantamento da própria instituição. Em cidades como Franca/SP, São Carlos/SP e Araçatuba/SP, o total de internos detidos por tráfico chega a 90%.  Dentre os crimes cometidos por adolescentes, apenas 0,9% são homicídios.
Ou seja: a generosa maioria dos menores de idade que estão presos neste momento não cometeu crimes hediondos. A maior parte, inclusive, é dependente de drogas, e encontrou no tráfico uma solução para sustentar o próprio vício. Lembrando que vício = dependência química = doença. 
Em contrapartida, temos um alto índice de adolescentes mortos: 82 jovens são assassinados por dia no Brasil, segundo dados da Anistia Internacional.
Ou seja: eles morrem bem mais do que matam.

* O tráfico de drogas movimenta 400 bilhões de dólares por ano em todo o mundo. Para comparar, a indústria farmacêutica global fatura 300 bilhões; a do tabaco, 204 bilhões; e a do álcool, 252 bilhões (4).
Ou seja: a guerra contra as drogas já está perdida, amigos. E faz tempo.

E por último, mas não menos importante:
* O Brasil gasta cerca de R$21 mil por ano com cada detento do sistema prisional estadual – nove vezes mais do que o investimento realizado por aluno do ensino médio, que não passa de R$2,3 mil (5).
Ou seja: analise o que dizem as estatísticas, e tire suas próprias conclusões.

Dados:

(1) Centro Internacional de Estudos Penitenciários; (2) Ministério da Justiça; (3) Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (DMF) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ); (4) Organização das Nações Unidas (ONU); (5) Campanha Nacional pelo Direito à Educação. 

14 abril 2015

Não acredite em tudo o que dizem para você.



Texto originalmente publicado no Jornal O Informativo Regional.

“Mas eu vi na TV; eu li na revista; eu ouvi no rádio”. Quantas vezes não é este o argumento, quando alguém busca comprovar ou dar credibilidade para sua opinião? Um argumento tão profundo quanto uma poça d’água, e tão frágil quanto um copo de cristal caindo do oitavo andar. 
É preciso entender: emissoras de rádios e TVs, revistas e jornais, são feitos por pessoas. Pessoas como eu e você, que mentem, que deturpam, que interpretam cada situação baseadas somente naquilo que são, e acreditam. “Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”, já disse a escritora Anaïs Nin. Logo, o fato de uma notícia estar na mídia não significa, de forma nenhuma, que é a verdade absoluta.
Ademais, sabemos que o que mantém qualquer TV, jornal, rádio ou revista é a propaganda. Sem anunciantes, veículo nenhum se sustenta. E, adivinhem? Por trás destes anunciantes também existem pessoas, que como todas as pessoas possuem interesses, e mentem, e deturpam, e omitem. 
Imaginemos que o diretor de uma grande empresa matou sua esposa, e que esta grande empresa é a maior anunciante da região. Esta empresa patrocina todos os veículos de comunicação de determinada cidade. Agora, imaginemos se estes veículos, patrocinados pela empresa deste diretor criminoso, irão informar com imparcialidade a notícia de que o homem que mais lhe dá lucros é um assassino. Não, não irão. E é por isso que governos, sejam municipais, estaduais ou federais, costumam ser os maiores anunciantes de qualquer canal de comunicação.
Isso quando o veículo não comercializa a própria notícia. Ao invés de vender apenas o espaço publicitário, vende também a reportagem. Mas a reportagem não é publicada como ‘informe publicitário’ – o que, pelo menos, precaveria que aquelas informações estão sendo pagas por um anunciante. A propaganda é vendida como notícia, e a gente lê, ouve e vê jurando que é notícia. Só que não é.
Nunca haverá neutralidade jornalística enquanto houver anunciantes e políticos atuando nas redações de veículos de comunicação. Então, não acredite em tudo o que dizem para você. Não acredite nem mesmo em mim, e neste texto que escrevo. Não sem antes pensar – mas só vale se você pensar com a sua própria cabeça.
Uma nação evoluída é capaz de duvidar, de contestar, de repensar. Não engole tudo o que lhes dão. Em contrapartida, um povo ainda oprimido, ainda ignorante, ainda manipulado, compra como verdade tudo o que aparece nos jornais, TVs, rádios e revistas. 
Ainda fazemos parte deste segundo grupo, infelizmente.