07 novembro 2014

Nordestino tem que morrer?



* Texto originalmente publicado no Jornal O InformativoRegional.

Devo iniciar este texto dizendo que eu não votei na Dilma. Em minha opinião, Aécio era o candidato “menos pior” deste segundo turno. Veja bem, eu disse “menos pior”. Por que, sinceramente, nenhum deles passa perto de me representar. Escolher entre Dilma/PT e Aécio/PSDB é como escolher entre cortar o braço ou a perna. Eu optei por cortar a perna.
No entanto – e apesar de ter votado no Aécio – não posso deixar de registrar minha repulsa com relação à postura de alguns eleitores do PSDB, que parecem não saber exatamente como funciona a democracia – e muitíssimo menos a empatia. Li e ouvi verdadeiros absurdos, embasados por um discurso de ódio que eu morrerei sem entender: vamos separar o Nordeste do Brasil, por que gaúchos e paulistas carregam o país nas costas e sustentam vagabundo. Nordestino tem que morrer; nordestino tem que continuar na miséria; nordestino tem que ser excluído, marginalizado, esquecido, agredido – como se já não fossem. Afinal, eles merecem. Afinal, eles votaram no PT.
Talvez os gaúchos e os paulistas inteligentes e trabalhadores não saibam, mas a miséria vigente no Brasil, e especialmente no Nordeste, atinge patamares inacreditáveis – tão inacreditáveis que não conseguimos sequer imaginar. São centenas de milhares de pessoas que (sobre) vivem muito, muito, muito abaixo da tal linha da pobreza – linha esta que a maioria de nós simplesmente desconhece.
O que você chama de bolsa esmola é todo o dinheiro que muitas famílias, nordestinas ou não, têm para se sustentar o mês inteiro – algo em torno de R$70. Setenta reais que eu e você gastamos sábado de noite, quando pedimos uma pizza e algumas cervejas. São mais de 14 milhões de famílias (quase 50 milhões de pessoas) beneficiadas pelo programa. Será que todas são formadas por vagabundos cachaceiros?
Mas eu e você, que gastamos R$70 em uma pizza, achamos que nordestino tem que morrer. Eu e você, que nunca fomos privados de nada, que nunca passamos fome nem sede, que nunca dormimos na rua, que temos água quente no chuveiro e carro e casa e escola e ar-condicionado, e quando ficamos doentes procuramos um médico particular; eu e você, que não sabemos nada de miséria, juramos que é preciso separar os estados mais ricos dos estados mais pobres, por que, né? Não vamos sustentar vagabundos ignorantes que votam no PT. 
Mas será que são eles os vagabundos ignorantes? Ou somos nós, incapazes de enxergar e entender o tamanho da pobreza que assola nosso Brasil? Muitos nordestinos votaram na Dilma por medo de perder os míseros R$70 que ganham por mês, e com os quais – e sei lá eu de que jeito – sustentam sua família. Eles estão errados? Ou no lugar deles você faria o mesmo? 
Aliás, você consegue se colocar no lugar deles?
Separar o Nordeste do Brasil não resolve o problema do Nordeste. E muito menos o problema do Brasil. Somente a educação pode nos salvar da imensa ignorância na qual estamos mergulhados – nordestinos, gaúchos, paulistas, brasileiros. Só uma educação decente pode nos libertar da miséria em que vivemos – seja esta miséria social ou intelectual. Assim, quem sabe, chegará um dia em que poderemos votar no melhor candidato; e não apenas no “menos pior”.
O nordestino não tem que morrer. O nordestino, e todos os brasileiros, têm é que viver com dignidade, ter casa, comida na mesa, água encanada, trabalho, saúde, educação. O nordestino, assim como eu e você, também tem o direito de pedir uma pizza e algumas cervejas no sábado de noite. 
Então, fica Nordeste! Por que não é excluindo e odiando que faremos deste Brasil um país melhor e menos triste de se viver.