24 setembro 2014

O manifestante solitário de 20 de setembro




O desfile farroupilha realizado em Carazinho/RS no sábado, dia 20/09, já estava terminando. Foi então que um jovem com o rosto coberto, usando bombacha e salto alto, adentrou a avenida segurando um cartaz contra a homofobia.
Eu conheço o manifestante, e talvez você também conheça. Seu nome é Leonardo. Fomos apresentados ano passado e, de cara, soube que ele era alguém disposto a lutar até o fim para poder ser quem é sem sofrer represálias. Afinal, ele é um homem que usa saia, que usa salto, que usa maquiagem, e aparentemente isso incomoda muito a família tradicional brasileira e seus mil tabus.
Infelizmente não assisti ao desfile. Mas meu pai sim e, quando voltou, me contou: “Jana, um cara entrou na avenida de salto alto e bombacha!”. É o Leonardo, pensei na hora! Porque não conheço ninguém nesta cidade com coragem suficiente para invadir um santuário de tradicionalistas usando salto alto e bombacha.
O fato é que, concordando ou discordando, só não dá para ignorá-lo. Pois com sua audácia, típica de uma personalidade indomesticável, Leonardo trouxe para Carazinho um debate vital: por que, ao invés de excluir os gays, não os incluímos? Por que, ao invés de usar a cultura gaúcha como desculpa para aflorar nosso preconceito, não a usamos para vencer a discriminação? Por que, afinal de contas, o homossexual incomoda tanto os “heterossexuais”?
Todos estes questionamentos não surgiriam se Leonardo não houvesse se manifestado em um desfile farroupilha – e por isso ele estava na hora certa e no lugar certo. Se vestisse bombacha e salto alto na Parada Gay, por exemplo, passaria despercebido, e hoje não estaríamos aqui, debatendo este assunto tão urgente.
Pode-se censurar ou idolatrar o Leonardo, mas não se pode acusá-lo de ser covarde. Tudo, menos covarde. Sei de muito cabra-macho que coça o saco e cospe no chão, que assa carne gorda e enlaça a prenda pelo pescoço, mas não tem um terço da coragem e do atrevimento que o Leonardo teve. Conheço poucos com a sua força. Tão poucos que, quando soube do ocorrido, concluí na hora que era ele.
Contudo, se faz necessária uma correção: li nos jornais que sua manifestação foi solitária. Não, meus caros; não foi. Ele estava lá representando todos os excluídos e marginalizados de nossa Carazinho; todos que não se encaixam – e nem querem se encaixar – nos apertados sapatos que a sociedade nos obriga a calçar. O Leonardo estava lá me representando também, e aos filhos que um dia eu terei.
E é pela sua coragem, e pela sua atitude forte, aguerrida e brava, que eu o admiro, o respeito, o amo. Pois, como disse um amigo meu, “se vamos falar de macheza no 20 de setembro, esta com certeza é a maior que eu já vi”.

13 setembro 2014

Você está pronto para o poliamor?



* Publicado originalmente no Jornal Pois é de agosto de 2014.

O escritor Deco Rodrigues, autor do romance Três Contra Todos, escreveu uma história de amor. E seria apenas mais uma história de amor, caso os dois apaixonados em questão não fossem três: Eduarda, Lucas e Rafaela.

Confesso que, tão logo o livro caiu em minhas mãos, imaginei o que todo mundo geralmente imagina quando se fala em poligamia: sexo e promiscuidade. Nada mais. O que só denota o preconceito que ainda carregamos, e que está tão arraigado que nem percebemos. O livro tem, sim, cenas de sexo. Mas de forma nenhuma elas norteiam a história. São pontuais, quase discretas.
Observem o quanto fui tola ao julgar que a obra seria basicamente erótica só por que o casal era um trio.
Três Contra Todos foi escrito através da perspectiva dos três protagonistas, cada qual narrando os acontecimentos que resultaram em sua relação. O autor Deco Rodrigues foi habilidoso ao estruturar a personalidade de seus personagens; tanto, que é possível distingui-los somente pela forma singular como contam sua história.
Contudo, creio que o maior mérito do livro ainda é falar sobre poliamor sem qualquer resquício de moralismo ou tentativa de catequização. A obra não levanta uma bandeira, seja contra ou a favor da poligamia, e se limita apenas a contar o que aconteceu: fatos, não versões. Desta forma, o leitor assimila, quase sem notar, a naturalidade daquela relação, que foge de todos os conceitos megalomaníacos e deturpados de amor romântico e fidelidade irrestrita. Até a questão de Lucas ser viúvo e pai de uma criança, que é criada como filho pelo trio – o que invariável e imediatamente causa histeria coletiva – passa despercebida, soa corriqueira. Como deve ser.
Eduarda, Lucas e Rafaela não são depravados vestindo látex e segurando um chicotinho. São pessoas normais, com empregos normais e vidas normais. São fiéis entre si. Fica claro que são uma família como qualquer outra, que não possui nem mais nem menos conflitos do que a minha ou a sua. A polêmica, o drama, o escândalo, que costumam estar associados ao poliamor, quem promove é a própria sociedade ‘monogâmica’.
Sugiro ao leitor, independente do que pense sobre o assunto, que leia Três Contra Todos. Não há, na obra, qualquer pretensão de convencer alguém de alguma coisa. Trata-se apenas de um lado da história que costumamos julgar sem conhecer.
Quer dizer, um lado da história não. Três.

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