20 junho 2014

Protesto silencioso - Parte II.


"Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
 
perderam o sentido, apenas querem explodir". 
(Fragmentos do poema Nosso Tempo, de Carlos Drummond de Andrade)


 

08 junho 2014

Adeus, Capitão.



Em setembro de 2009 eu escrevi um texto, postado neste blog, sobre a saída de Fernandão do Sport Club Internacional, e o fato dele enfrentar o mesmo Inter que defendeu, dentro do mesmo Beira-Rio no qual ergueu tantas taças, vestindo então a camiseta do Goiás.
Encerrei este texto dizendo: “De camiseta verde ou vermelha e branca, você sempre será um dos nossos”.
Em maio de 2010 escrevi outro texto sobre Fernandão, desta vez cheia de amargura, pois nesta época ele jogava no São Paulo, e novamente enfrentou o Inter no Beira-Rio. Marcou gol, comemorou, e meu coraçãozinho colorado não suportou. Chamei-o de desgarrado, traidor, falso, cínico, amigo da onça. Eu estava magoada com o nosso capitão. E sabemos que somente quem amamos e respeitamos é capaz de nos magoar de verdade.
Mas um ídolo não cai assim, tão facilmente.
Quando Fernandão veio treinar o Inter, lá em 2012, voltei atrás em minhas acusações e o apoiei. Como poderia não apoiar? Chorei junto com ele quando foi demitido, alguns meses depois, e chorei junto com ele outra vez quando, em ocasião da reinauguração do Beira-Rio, ele ressaltou seu amor pela torcida colorada. Como poderia não chorar?
E hoje, ao acordar, chorei junto com toda a nação colorada ao saber da terrível notícia de seu falecimento precoce. Um acidente de helicóptero levou embora nosso capitão. Não acreditando, acessei diferentes sites, esperando que algum deles me dissesse que foi um engano, um equívoco, um mal-entendido. Mas não. Em todos constava uma foto de Fernandão e os dizeres: 18/03/1978 – 07/06/2014.
Mas um ídolo não morre assim, tão facilmente.
E foi o que ele fez entre os dias 18/03/1978 e 07/06/2014 que o torna eterno. Indiscutivelmente eterno.
Fernandão foi embora deixando para trás milhares de torcedores órfãos, que neste momento tentam entender e acreditar o que é incompreensível e inacreditável. Em nossos corações e em nossas lembranças – e nos muitos troféus que levantou – estará marcada sua passagem, seus feitos, suas palavras e suas lágrimas, e não haverá um único colorado neste mundo que não contará aos seus filhos e netos que viveu na mesma época que um dos maiores ídolos do Sport Club Internacional.
Contaremos que o vimos no vestiário, antes do jogo contra o temido Barcelona, dizendo tudo o que os outros jogadores precisavam ouvir para entrar em campo sem medo. Contaremos que o vimos voltar para Porto Alegre carregando a taça de Campeão Mundial, e gritando a plenos pulmões: vamô, vamô Inter! Contaremos sobre o seu amor pelo clube que também amamos, e sobre as lágrimas que derramamos juntos, e o respeito que ele sempre teve com a gente, torcida apaixonada.
E nossos filhos e netos saberão que tivemos um capitão que poucos times podem se orgulhar de ter tido. Um capitão forte, aguerrido e bravo; um capitão que era também torcedor, como nós, e que deixou a embarcação colorada cedo demais.
Hoje eu choro, junto com todos os colorados que sabem que Fernandão é, sim, insubstituível. E que deixará saudades, muitas saudades, e uma grande admiração de todos que puderam acompanhar sua breve e vencedora trajetória.
Como as palavras simplesmente desaparecem neste momento, e as lágrimas insistem em cair, embaçando minha visão, encerro este texto triste com a mesma frase com a qual encerrei o texto que escrevi em 2009:
Por mais que disfarcemos, tem horas que aquilo que vai em nosso coração transborda. Entra em erupção. E só nos resta sair em silêncio, e tentar entender o que não dá para entender”.
Vai com Deus, Capitão.
Aqui ou aí, você sempre será um dos nossos.