24 abril 2014

“Dois Bolos e As Instâncias Superiores do Jornal Zero Hora” – ou “Por que Meu Pai Cancelou Sua Assinatura”



Entre 2010 e 2014 o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, conseguiu a façanha de me dar dois bolos fenomenais.
Em 15 de dezembro de 2010, Carlos André Moreira, repórter do ZH, entrou em contato comigo:

Oi,  Jana, tudo bem? Aqui quem escreve é o Carlos André Moreira, da Zero Hora.
Seguinte: estamos preparando aqui na Zero Hora um material especial para o Verão que consiste na publicação, aos sábados, de contos inéditos de alguns escritores bacanas. A temática é "verão". Tirando isso, e o tamanho do texto, que consiste em cerca de 60 linhas em espaço 12 do word, o autor tem liberdade total para trabalhar como quiser o tema em termos de proposta, cenário, tom, etc.
Pensamos em te convidar para essa empreitada, o que achas? A ideia é que o autor também produza, se quiser, uma ilustração para sua história, seja em desenho, seja em foto, podendo ser bastante conceitual ou abstrata.
Fico no aguardo de tua resposta para combinarmos os detalhes
Grande abraço

É lógico que eu aceitei, feliz da vida.
Contei para meus pais, meu marido e... só. Optei por manter cautela – e olha que ‘manter cautela’ não é algo que eu costume fazer – e decidi contar a novidade somente quando o texto estivesse devidamente publicado.
Sábia decisão.
Dali alguns dias, nova mensagem do Carlos André no meu e-mail:

Oi, Jana, tudo bem?
Seguinte, primeiramente, desculpa pelo atraso em te responder, mas houve algumas mudanças editoriais e eu precisei me informar direitinho para poder explicar tudo certinho.
Muito obrigado por teres topado, mas, infelizmente, por questões financeiras, decidiu-se optar por uma única pessoa como colunista pelo verão todo em vez de uma por semana, como era nosso plano original - o que facilitaria até uma possível remuneração.
Novamente, desculpe a demora na resposta, obrigado por teres topado e peço desculpas pessoalmente - foi uma decisão em instâncias acima de minha alçada. Mas espero que possamos contar contigo em uma ocasião futura.
Abraço
Carlos André

Pelo menos fui lembrada, pensei ingenuamente.
De lá pra cá, lancei meu segundo livro e passei a trabalhar na Editora Os Dez Melhores. Sempre encaminhei releases e notícias para o Zero Hora, seja de trabalhos pessoais, seja de trabalhos da editora, e nunca obtive retorno nenhum. Mas tudo bem. Até por que, sei que um mínimo espaço em um jornal de grande circulação não é algo que se consiga estalando os dedos.
Até que dia 05 de abril de 2014 a Editora Os Dez Melhores lançou, através do selo Nascedouro, o livro Conte um Conto Vol. II, que reúne 63 textos de crianças e adolescentes, todos alunos do Colégio Estadual Sananduva – um dos finalistas ao Prêmio RBS de Educação 2013. E, como muitos sabem, RBS e Zero Hora são do mesmo conglomerado de comunicação, e respondem às mesmas "instâncias superiores".
Na semana anterior ao lançamento, entrei em contato com o jornal Zero Hora encaminhando o release deste lançamento. E, desta vez, admito: estava otimista, afinal, era um livro escrito por alunos de uma das escolas finalistas de um projeto promovido pela própria Zero Hora. Ora, por que não?
“Por que as coisas não funcionam assim, Janaína”.
Eu devia saber.
Mas não sabia.
Foi então que Luã Hernandez, também repórter do Zero Hora, telefonou para minha casa e conversou com meu pai. Pediu meu telefone. Depois me ligou três ou quatro vezes. Luã também conversou com Jossandra, uma das professoras que colaborou efetivamente para o lançamento do livro. Pediu que eu lhe encaminhasse fotos, releases, a capa do livro – inclusive da obra Conte um Conto Vol. I, lançada ano passado em Carazinho/RS.
Fiquei contente, claro! Contei aos alunos/autores que sairia uma reportagem sobre o lançamento no Jornal Zero Hora, e todos vibraram. Se isso significava muito para mim, imagina para a gurizada.
Os dias se passaram e nada da matéria sair. Foi então que Luã entrou novamente em contato, por e-mail & por telefone, dizendo que, naquela semana, a reportagem seria publicada, e só não havia sido ainda por falta de espaço no jornal. Pediu-me mais algumas informações, mais algumas fotos, e desapareceu na imensidão do mar sem fim.
E lá se vão mais de 20 dias que isso tudo aconteceu, e não saiu sequer uma frase no jornal sobre o lançamento.
Logicamente não sairá mais.
A grande questão deste imbróglio não é o jornal Zero Hora não dar espaço para mim e para os projetos da minha editora. Isso eu posso compreender, com certa facilidade até.
O que me deixa intrigada e – por que não dizer? – frustrada também, é que, por duas ocasiões diferentes, o ZH entrou em contato comigo por livre e espontânea vontade e, na hora do vamos ver, deu pra trás.
E que fique claro: não tenho nada contra o Carlos e o Luã, os dois jornalistas que me escreveram. Pois, como Carlos bem frisou em seu segundo e-mail,foi uma decisão em instâncias acima de minha alçada”.
Semana retrasada, conversando com um amigo – que, aliás, já trabalhou na RBS – eu disse:
- Se o cara faz um projeto literário envolvendo crianças, o ZH não te dá uma linha. Mas se eu mato uma criança, passo até no Jornal Nacional.
Dito e feito: alguns dias depois encontraram o corpo do menino Bernardo Boldrini, de 11 anos, e só faltou o ZH fazer um suplemento especial contando todos os detalhes do crime. A tragédia foi matéria de capa por vários dias consecutivos; teve edição especial no Jornal do Almoço. Exploraram a desgraça até onde foi possível. Um circo dos horrores digno de sair correndo e gritando.
Vejam bem: não estou dizendo aqui que o jornal não deveria dar espaço para o assassinato brutal e revoltante de uma criança. É claro que deveria. Mas deveria também dar espaço para projetos e iniciativas que buscam oferecer uma oportunidade para estas mesmas crianças – e aqui não me refiro somente ao Nascedouro. Pois, da mesma forma que ‘instâncias superiores’ vetaram a divulgação do lançamento do livro Conte um Conto Vol. II, certamente já vetaram também centenas de outros projetos, que estão acontecendo neste exato momento, e dos quais sequer sabemos. Por isso acreditamos que o mundo está acabando quando, na verdade, não está.
O que aprendi com tudo isso:

1) Que se eu tivesse alguns mil reais para investir, o lançamento do Conto um Conto Vol. II estaria amanhã mesmo no ZH. Na capa. Com foto colorida.

2) Que não é por que os jornais só noticiam tragédias que só existem tragédias. Notícia boa não dá ibope. Não se esqueçam disso, crianças.

3) Que, quando o Zero Hora te ligar, amigo, não se empolgue. Possivelmente vai rolar um bolo para você também. A não ser, é claro, que você seja amigo próximo das instâncias superiores, ou que tenha alguns mil reais para investir.

Eu lamento, principalmente pelos alunos/autores que ficaram tão empolgados por nada. Lamento pelos estudantes que, desde o lançamento do livro, estão comprando o Zero Hora todos os dias, para ver se a matéria já saiu.
Isso me deixa péssima, e me revolta também.
Mas não há mal que não venha para o bem.
Recentemente meu pai, leitor fiel e assíduo do jornal Zero Hora, me informou que irá cancelar sua assinatura, por todos os motivos listados neste texto.
Pode parecer uma besteira, e é claro que o Zero Hora não vai nem perceber que perdeu um assinante, da mesma forma que sequer tomará conhecimento deste texto que escrevo, e da minha indignação.
Porém, estamos fazendo a nossa parte.
Se não concordamos com determinada postura – seja de uma pessoa, de uma instituição, ou de um veículo de comunicação – o melhor que os incomodados podem fazer é se retirar.
E da próxima vez que algum jornalista do Zero Hora me telefonar, perguntarei primeiro se as instâncias superiores do jornal sabem desta ligação.
Por que, né?
De bolos do ZH já bastam os dois que eu levei, comi, não gostei e ainda não digeri.

23 abril 2014

Sobre o Vini e a Graça.



Eu conheci o Vinícius na faculdade.
Eu fazia publicidade, ele, jornalismo. Acho. O fato é que nunca fomos amigos próximos. A gente se via nos corredores da FAC, oi, oi, e era só.
O tempo passou, eu me formei, e nunca mais soube dele.
Ano passado, assisti um vídeo de uma moça muito bonita, chamada Graça, que lutava contra o câncer. Nesta gravação, ela pedia ajuda para realizar seu tratamento, que era absurdamente caríssimo, e precisava ocorrer em outro país.
E qual não foi minha surpresa quando vejo o Vini no vídeo também.
Ele e Graça são casados, moram em Portugal, e tem um filhinho.
Assim, adicionei o Vini no Face. Depois adicionei a Graça. Fiz minha doação, e posso dizer que, mesmo de longe, me envolvi em suas histórias. Vibrei junto quando eles conseguiram reunir o valor necessário para custear o tratamento. Vi quando viajaram, atrás da cura. Fiquei triste quando Graça teve de se internar novamente no hospital. E até os dias de hoje acompanho as postagens feitas por eles, e pela página Vamos Ajudar a Graça a Vencer o Cancro.
Ocorre que, não foi nem uma e nem duas vezes que eu estava me sentindo triste, desanimada, pra baixo, e entrei no Face e li postagens do Vini. Sempre otimista, sempre cheio de fé e de força.
Nestas horas lembro-me de pensar: porra, eu sou um lixo.
Estou aqui, toda trabalhada no drama, fazendo um tsunami numa poça de água, enquanto o Vini está aí, mostrando como é que se faz.
Juro, eu me envergonhava.
Afinal, lembro do Vini na faculdade. Apesar de nunca termos sido próximos, certamente ele compartilhava de sonhos e anseios muito parecidos com os meus. Com toda a certeza nunca imaginou a turbulência pela qual sua vida ia passar, e nem sabia da força que tinha.
E, mesmo sendo mais novo do que eu – Vini tem 27 anos – ele já me ensinou tanto, tanto, tanto, que preciso lhe agradecer.
Hoje, por exemplo, eu acordei triste. 
Desmotivada, abatida, com vontade de dar uma banana pra humanidade e sair correndo gritando palavrões.
Resolvi entrar no Facebook e qual foi a primeira postagem que eu vi?
Do Vinícius.

“Por vezes me encontro perdido em um mar repleto de "problemas", e não me encontro neles, não me vejo, parece não ser eu. Sofro, e muito, de modo que ninguém pode, quer, precisa, e nem deve imaginar...
Dá vontade de não levantar, mas 2 segundos depois estou pronto para "carregar" tudo outra vez. Não é por que sinto que tenho que fazer, que é minha obrigação, é mais simples (...) Não há muito tempo para pensar, o tempo todo é agir; mesmo não dando pra tudo, é sempre o meu máximo que está aqui”.

O que mais eu posso acrescentar?
Obrigada, Vini.