20 dezembro 2013

Amazon: a Porta da Esperança?

A chegada da Amazon ao Brasil trouxe um novo ânimo para todo escritor iniciante que não conseguia espaço em uma grande editora, e tampouco possuía dinheiro suficiente para investir no lançamento de seu livro através de uma pequena ou média editora.
A possibilidade de publicar sua obra em formato digital, vendê-la para o mundo inteiro e ainda ganhar 70% de lucro sobre o preço de capa, que você define, é realmente sensacional.
E eu não sou nem louca de criticar a Amazon ou quem publica através dela. Muito pelo contrário. Eu mesma acabo de me cadastrar, e acho que por meio de sua plataforma alcançamos a maioridade no que diz respeito à democracia literária.
PORÉM – e sempre há um porém – algumas pessoas parecem excessivamente deslumbradas com as possibilidades oferecidas pela Amazon, parecendo esquecer-se de que, para vender livros, não basta disponibilizá-lo ao público leitor. É preciso mais.
Bem mais.
Decidi escrever sobre este assunto após ler uma matéria publicada no site Escribe Romántica, intitulado Como Publicar na Amazon (de graça!). O texto diz tudo o que o novo autor quer ouvir e acreditar. Frases como “... a Amazon está mudando a vida de centenas de escritores, que há poucos meses atrás não conseguiam divulgar-se, e agora estão sendo descobertos por milhões de fãs e contratados por grandes editoras”; ou “Você pode dividir listas de best-sellers com autores consagrados como Paulo Coelho”; ou ainda “Você pode ganhar a vida escrevendo livros comodamente em sua casa”.
Risos, muitos risos.
E o pior é que vários autores não só acreditam nisso tudo, como têm certeza absoluta de que a Amazon é uma espécie de Porta da Esperança para o novo autor.
Primeiro ponto que precisa ser compreendido: publicar e divulgar são duas coisas completamente diferentes, amigo.
A ideia de que basta cadastrar seu livro na Amazon e você vai vender livros tal qual pão quente no fim da tarde é tão absurda quanto acreditar que você vai publicar um livro em formato tradicional, através de uma editora tradicional, e vai vender livros tal qual pão quente no fim da tarde.
Publicar é uma coisa – muito simples e acessível, aliás. Divulgar é outra coisa, bem diferente e bem, bem, bem mais cara.
Logo, pouco importa se o seu livro está na Amazon, no catálogo de uma editora ou na estante da livraria. Importa se alguém quer lê-lo. E para alguém querer lê-lo, precisa antes saber que o livro existe. E para isso, por fim, é necessário divulgação.
Segundo ponto: confesso que sei de pessoas que publicaram seus livros através da Amazon e hoje estão ricas e famosas escrevendo comodamente em suas casas. Uma delas é E. L. James, a autora de Cinquenta Tons de Cinza, que vendeu 250 mil e-books através da Amazon antes de ter os direitos adquiridos por uma grande editora e vender muitos milhões de exemplares em todo o sistema solar.
Contudo, também sei de pessoas que pagaram para publicar seu primeiro livro e hoje estão igualmente ricas e famosas escrevendo comodamente em suas casas. Uma delas se chama Paulo Coelho. O escritor pagou para publicar seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, em 1982 – cujo exemplar, hoje, pode custar até cinco mil reais.
O que quero dizer com isso: não confundam meio com mensagem. Se o livro for bom, se estiver bem escrito, se possuir apelo comercial (leia-se público leitor), ele venderá, independente se estiver escrito em papel higiênico, em PDF ou em papel pólen 90g.
Logo, publicar pela Amazon não torna automaticamente seu livro um fenômeno de vendas. O que fará de seu livro um sucesso ou um fracasso é seu conteúdo, e aí pouco importa se este conteúdo estará disponível em e-book, em um blog ou em um livro tradicional.
Terceiro ponto: se você mora no Brasil, ESQUEÇA ganhar a vida escrevendo livros comodamente em casa. Veja que ambos os exemplos que dei são de escritores que publicam no Brasil, mas publicam também (e principalmente) fora do Brasil. Em terras tupiniquins, nem mesmo renomados escritores ganham a vida escrevendo comodamente em casa. Que dirá eu ou você. Um dos maiores prêmios literários do país, o Jabuti, paga um troféu e R$3.500 (valor bruto) para o primeiro colocado de cada categoria.
Um troféu e R$3.500 (valor bruto!!!) para o melhor livro do país em cada categoria. Quer dizer.
Escritores escrevem, mas não escrevem apenas livros. Escrevem peças, reportagens, matérias, crônicas, roteiros, colunas semanais, slogans. Isso quando não dão palestras, oficinas, aulas, editam livros, trabalham em agências de publicidade ou em repartições públicas.
E é assim que pagam suas contas. Se dependessem somente da venda de seus livros, passariam fome, literalmente.
Contudo, o mais impressionante sobre esta questão envolvendo a Amazon é a ideia delirante que muitos ditos escritores têm do mercado editorial. A maioria sequer vê o mercado editorial como um mercado. Tratam a publicação de seu livro não como um trabalho como outro qualquer, mas como um “sonho”, envolto em muito romantismo e fantasia.
Acreditam piamente que irão publicar hoje e amanhã já estarão na lista dos mais vendidos, sentados de frente com Gabi, ganhando rios de dinheiro e tendo fãs histéricos os atacando no supermercado para pedir autógrafo.
E, o pior: a maioria destes escritores não consegue escrever três linhas sem cometer pelo menos três erros gramaticais bizarros.
Então eles publicam na Amazon e, um mês depois, venderam cinco livros – pra mãe, pro pai, pra vó, pro tio e pro primo. Aí vem a frustração, claro, pois eles realmente acreditaram no que matérias como esta que citei, do site Escribe Romántica, diziam. Naturalmente o sujeito, ao invés de procurar por novas alternativas; ao invés de buscar se aperfeiçoar e aprender que concerteza não existe, prefere se tornar um rancoroso azedo que passa o tempo todo falando mal das editoras, da Amazon, do mercado editorial, dos leitores, dos escritores, do país e do universo, sem perceber que, na realidade, quem errou foi ele, que CONCERTEZA superestimou seu talento literário.
Não há mais espaço para gênios, ainda mais em um mundo onde, finalmente, a literatura democratizou-se em definitivo. Até pouco tempo, ou você publicava através de um grande selo, ou azar o seu. Hoje, além de existirem dezenas de editoras especializadas na publicação do novo autor, ainda existem plataformas como a Amazon e a Publique-se, da Livraria Saraiva, que oportunizam a publicação de novos escritores – e de graça.
Não tenho dúvidas de que o escritor que souber aproveitar tem tudo para encontrar seu lugar ao sol, seja através da Amazon, através de uma publicação independente, através de uma editora tradicional ou de todas as alternativas acima citadas.
Mas o meio nunca poderá fazer nada pela mensagem.
Logo, apenas disponibilizar seu livro na Amazon, acreditando que isto basta para que ocorra sua efetiva comercialização – e mais: seu estouro literário interplanetário – é risível.
Sem divulgação e sem uma boa história, não importa onde a obra estará: ela não vai vender.
Porque, se fosse tão fácil assim, não haveria mais autores desconhecidos neste mundo. Estaríamos todos de frente com Gabi.

* Originalmente publicado no site Homo Literatus.

15 dezembro 2013

A Favor do Best-Seller

Muita gente dita intelectualizada costuma depreciar livros Best-Sellers. Paulo Coelho talvez seja o autor mais execrado, dentre todos. O pessoal questiona a qualidade das obras, o talento dos autores, a inteligência dos leitores. Definitivamente não os engolem.
Eu, no entanto, defendo os Best-Sellers – apesar de não lê-los, mais por falta de tempo do que de vontade. O que sempre gerou discussões acaloradas, que costumam iniciar no momento em que menciono Paulo Coelho. Enfim.
Não estou aqui para discutir qualidade literária – um conceito bastante relativo, convenhamos. Estou aqui para falar em leitores.
O brasileiro, reza a lenda, não lê nem anúncio de frango assado no domingo; que dirá um livro! Mas, graças aos Best-Sellers, muita gente que nunca leu nada na vida lê pela primeira vez. E a leitura, como sabemos, só precisa de uma chance para nos fisgar para sempre.
Já imaginaram quantas mulheres, que nem horóscopo de revista liam, leram 50 Tons de Cinza – um livro com quase 500 páginas? Já calcularam quantas crianças e adolescentes, que o mais próximo da leitura que chegaram foi acompanhando as atualizações de seus amigos no Facebook, leram as infinitas sagas Harry Potter e Crepúsculo? E quantos caras, que não assistiam filmes legendados por que não acompanhavam ‘as letrinhas’, leram todos os livros do Dan Brown?
Best-Sellers possuem esta função quase social: colocar um livro na mão de gente que nunca pensou em pegar um livro nas mãos.
Ora, sabemos que, para nos tornarmos leitores, precisamos somente começar. E é aqui que reside o X da questão. As pessoas nunca começam, e assim envelhecem e morrem sem nunca passar perto de um livro.
Este é um problema sério que se inicia em casa, claro, e se fortalece na escola. É quando, na quinta série, a professora de português solicita a leitura de Dom Casmurro. Obviamente todo mundo sai correndo e gritando, em desespero. E depois de Dom Casmurro na quinta série, a maioria tem certeza absoluta de que ler é o troço mais chato que existe no universo.
Porém, hoje, estes mesmos alunos que correram desesperados do Dom Casmurro na quinta série leram toda a saga Crepúsculo. E depois de lerem toda a saga Crepúsculo, é muito provável que voltem a ler, e leiam mais e mais, até que a leitura se torne o que deve ser: um hábito.
E assim ganhamos mais um leitor no Brasil.
Este fenômeno é tão concreto, que editoras nacionais já apostam em Mega-Sellers. Sim, livros que vendem mais de um milhão de exemplares. No Brasil. Um milhão. De livros. Reflita.
O Padre Marcelo Rossi, por exemplo, é um que obteve a incrível façanha de vender OITO milhões de exemplares da obra Ágape, em um país cuja tiragem média de livros não passa de cinco mil.
E antes que venham os tomates sobre o exemplo do Padre Marcelo, saibam que o escritor Laurentino Gomes vendeu mais de um milhão de livros das obras 1808 (Ed. Planeta) e 1822 (Ed. Nova Fronteira). Ambas sobre a história do Brasil.
Já Raphael Draccon e Eduardo Spohr, por sua vez, venderam 200 mil e 600 mil livros, respectivamente.
(Considero importante observar o fato de que todos os autores citados são nacionais – os mesmos que não são lidos por ninguém em detrimento de autores estrangeiros blábláblá).
Em oito anos, a rede de livrarias Saraiva registrou um aumento de 500% nas vendas voltadas ao público infantojuvenil. Em 2007 foram vendidos 277 mil exemplares. Em 2012, 1,8 milhões.
Números altos para um país que, teoricamente, não lê.
Paula Pimenta é outra escritora que possui um público leitor altamente segmentado (e vende que nem água: foram 300 mil exemplares das séries Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série). Paula escreve para meninas entre 12 e 15 anos. Estas meninas lotam suas sessões de autógrafos e tratam Paula como se ela fosse um Beatle. Levam cartazes, faixas, gritam e desmaiam. Paula Pimenta, uma escritora, figura como ídolo para essa meninada ao lado de caras hollywoodianos como Justin Bieber.
Então eu pergunto: como podemos odiar os Best-Sellers, minha gente?
Eles fazem pela literatura o que Machado de Assis não consegue fazer: atrair leitores.
E estes leitores, após 50 Tons de Cinza, Dan Brown e Paulo Coelho, têm muito mais chances de, afinal, ler, entender e (talvez) até gostar de um Dom Casmurro da vida.
O gosto pela leitura, assim como todos os gostos, vai também se refinando.
Só que todo mundo precisa começar, e pouco importa se for lendo obituário de jornal ou Os Lusíadas. O que interessa é que se comece.
E como o Best-Seller é uma ampla porta de entrada para dezenas de milhares de leitores, então eu o respeito.
Se você acha que está ruim com eles, meu amigo, pense no quanto estaria pior sem eles. 

* Originalmente publicado no site Homo Literatus.

11 dezembro 2013

O Rabo Alheio

O mundo seria um lugar bem mais tranquilo e divertido se as pessoas parassem de castigar quem não é igual a elas mesmas.
Impressiona-me a maneira descarada e desrespeitosa como gente que deveria se apoiar e se fortalecer, acaba se ferindo e se podando, simplesmente por que acha que o outro deve ser, pensar e agir da exata maneira como ela mesma é, pensa e age.
Sob justificativas superficiais e tolas como ‘eu sei o que é melhor para você’ ou ‘eu só quero o seu bem’, estas pessoas vão invadindo a existência alheia, manipulando a individualidade alheia, e causando um estrago na vida alheia de proporções difíceis de mensurar.
Por exemplo: muitos pais não só acreditam como têm certeza absoluta que possuem o direito de escolher desde a roupa e o corte de cabelo que o filho irá usar, até a faculdade que irá cursar e, quiçá, com quem irá se casar. Casais, sob as mais variadas desculpas, agem como se fossem donos um do outro, descaracterizando o parceiro como ser, o tratando como mero objeto. ‘Minha casa, meu carro, minha mulher, meu filho, meu marido, meu celular’. Tudo no mesmo balaio. E não importa a idade: basta aparecer alguém que se veste diferente, que usa um cabelo diferente, que ouve uma música diferente ou – pior! – que pensa diferente, e pronto! Está imediatamente excluído do grupo.
É gay? Mãe solteira? Negro? Jogador de rúgbi? Puta? Ateu? Deus me livre!
O grupo não perdoa. O grupo não aceita nada que não caiba em seus duvidosos e apertados padrões. 
E neste grupo, amigos leitores, estão eu e vocês, que, sem perceber, também agimos assim. 
Deveríamos nos preocupar mais com o nosso rabo, e deixar o rabo alheio em paz. Mesmo que este rabo alheio seja o rabo do seu marido, filho, irmão, esposa, enteado. Já passou da hora de pararmos de nos tratar como autoridades máximas em todos os assuntos do universo, e deixar os outros viverem em paz, da maneira como julgam melhor.
A intolerância do mundo é a intolerância de cada um de nós. E no dia em que tivermos com a individualidade dos outros a mesma tolerância e respeito que temos com a nossa individualidade, então estaremos a caminho de um mundo melhor, mais justo e menos violento. 
Que é o que todos queremos. 
Não é?


* Originalmente publicado no jornal O Informativo Regional.