14 março 2013

Prefácio d'O Túmulo do Ladrão!


Beirando a Imperfeição

Está tudo perfeito. Não? Mas já esteve, certo? Errado. Talvez. Pena que nem a perfeição é perfeita. É enfadonha. Felicidade sem tristeza não faz sentido. Sorriso sem lágrima, muito menos. Em toda perfeição há mistério. E se um segredo se agiganta, é óbvio que nem tudo é tão perfeito assim.
Amorinha é um vilarejo pacato. Todos se conhecem. Todos trabalham. Todos são cidadãos exemplares. Ninguém erra. Ninguém mata. Ninguém rouba. Perfeito? Quem dera. Um túmulo na praça central esconde um mistério. E se um segredo se agiganta, é óbvio que nem tudo é tão perfeito assim.
O delegado Amorim nunca prendeu ninguém. Não há presídio. O único ladrão em quase cem anos, morreu. Foi morto, melhor. Mas quem matou não foi preso. Quem morreu, foi enterrado como mártir. Só que Amorinha não se abalou. Estranho? Mistério. E se um segredo se agiganta, é óbvio que nem tudo é tão perfeito assim.
Eis que, seis pessoas desaparecem. Somem. Zarpam. Escafedem-se. Um padre, um pai, uma viúva, um psicólogo, um empresário e uma professora. Seis perdas em seis dias. Amorinha se desespera. No sétimo, o terror cessa. Perfeitamente. Para onde foram? Quem os levou? Mistério. E se um segredo se agiganta, é óbvio que nem tudo é tão perfeito assim.
Repetir palavras em um texto o torna chato. Frases iguais, então, irritam. E terminar cada parágrafo do mesmo jeito beira a monotonia. Não? Sim. Pois repetir é a alma da perfeição. No mundo perfeito, tudo é sempre igual. Não há deslizes nem mudanças. Tudo e todos são previsíveis. Como Amorinha era até os estranhos sumiços.
Então, que venha a desordem. No filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, o vilão Coringa disserta sobre a babel. “Ninguém se apavora se tudo acontece como o planejado, mesmo se o plano for aterrorizante. Introduza um pouco de anarquia, mude a ordem pré-estabelecida, e tudo se torna caos. E sabe o que é bom no caos? O medo”. Diga-me agora: o que faz você temer?
Amorinha conheceu o medo. E, dela, emergiu um santo. Sim, um santo que era santo porque sabia morrer. Ou não? Que santo é esse? Louco, só pode. E louco foge à perfeição maçante do povoado. Até por que em mundo desigual, perfeição é mito. Em terra perfeita, porém, ser perfeito é ser normal. E tudo que é comum é sem graça.
Uma vila. Uma sociedade perfeita. Um túmulo. Um ladrão. Seis sumiços. Um santo. Um mistério policial eletrizante. O quebra-cabeça está montado: eis o enredo de O Túmulo do Ladrão, onde nuances bucólicas se entrelaçam com segredos cruéis e pitadas de sátira, hipocrisia e vingança. Um suspense que seduz.
Não conheci Jana Lauxen. Foi ela quem me conheceu um ano, nove meses e dois dias depois que nasceu. Inquieta, inteligente, insaciável, incrível. Inventamos personagens desde criança. Gostamos de contar histórias. A brincadeira virou vida real. E a aventura nos contra-ataca em textos tão imperfeitos como nós.
Descobrimos que a imperfeição pode ser bela e a loucura, genial. Por isso, é uma honra apresentar o segundo livro desta escritora tão sensível, que sabe o tamanho exato de cada frase, o lugar e pudor de cada palavra, o enlace de cada parágrafo. Uma história fascina, mas bem contada se eterniza. E Jana sabe o segredo.
Em O Túmulo do Ladrão, a perfeição se despe em frente ao espelho. A carapuça desfalece tenra diante de nós. A hipocrisia nos hipnotiza enquanto a realidade nos acorda ensopada de suor. Leia, sem parar. Pare, sem pensar. Pense, sem medo. Este livro não termina quando você o fecha. Desvende este mistério. Afinal, se um segredo se agiganta, é óbvio que nem tudo é tão perfeito assim. Mas pode ser inesquecível.

Leandro Becker,
Jornalista apaixonado e imperfeito.

03 março 2013

Vida de Editor.

Apesar da evidente falta de criatividade, este é o nome do novo Marcador do Blogue da Jana: Vida de Editor.
E, como o próprio nome pouco criativo diz, falará sobre o meu trabalho enquanto editora.
Atualmente trabalho editando novos autores para a Editora Multifoco (e gostaria de deixar bem claro que as opiniões expressas no Blogue da Jana são DA JANA, e não da Multifoco, certo?), mas já trabalhei como editora de alguns sites também, como da versão brasileira da revista eletrônica inglesa 3AM:Magazine, e também do E-Blogue.com (in memorian).
Minha ideia criando este Marcador é, primeiramente, expor o outro lado da mesma história.
Sim, pois, na internet, encontramos dezenas, senão centenas de textos, nas mais diferentes redes sociais, criticando editoras & editores: as primeiras são acusadas de desonestas, exploradoras, loucas por dinheiro; enquanto os segundos são taxados mal-humorados, mal-educados, mal-amados.
Ambos abutres comedores de fígado de criancinha.
- A editora não responde.
- O editor não me avisou.
- A editora não divulga.
- O editor não enviou o e-mail.
- A editora cobra para publicar.
- O editor não explicou direito.
Ok, ok.
Contudo, creio que seria interessante, especialmente aos muitos novos autores que circulam por aí, lerem e se interessarem em saber sobre o que se passa nos bastidores, por trás das cortinas onde, na sua frente, o autor enumera todos os problemas, as dificuldades e as sinistras maracutaias do mercado editorial brasileiro – sem, de fato, conhecê-lo.
Pois o que acontece em muitos casos é que, por falta de conhecimento, o novo autor comete erros primários e desnecessários, e emite opiniões absurdas e toma decisões e atitudes infantis e precipitadas, que nada mais fazem do que afastá-lo de qualquer possibilidade de um dia ser reconhecido como o escritor que gostaria de ser.
Por que ser escritor não é só escrever.
Se você só quer escrever, crie um blog, escreva e fim.
Mas se quer publicar seu livro, conquistar leitores e, talvez – quem sabe, algum dia – ganhar algum real trabalhando com literatura, e poder dizer que sua profissão é ESCRITOR, e que você PAGA SUAS CONTAS TRABALHANDO COM LITERATURA, bem.
Então você precisa fazer muito mais do que só escrever.
Quando, há dois anos, eu decidi ser maquiadora, eu precisei aprender a maquiar.
Não disse “vou ser maquiadora” hoje e amanhã estava maquiando a Gisele Bündchen no São Paulo Fashion Week.
Fui antes aprender, conhecer o mercado, os produtos, os preços, os salários, as opções. Não cheguei dando ordens e botando banca, por que isso teria arruinado minha carreira antes dela começar.
Né?
 
Sim, as editoras e os editores cometem erros.
Não somos santos e nem máquinas, e é claro que somos passíveis de errar.
Mas creio que imaginar que somente as editoras e os editores cometem erros, enquanto os autores fazem tudo correto, do jeito que deve ser, e – pobrezinhos! – são explorados, usados e abusados por um mercado editorial hostil, me parece no mínimo equivocado.
A diferença é que, quando o novo autor sente-se de alguma forma prejudicado, ele acessa o Facebook, o blog ou o Twitter, e publica meia dúzia de linhas falando mal da editora e do editor.
Seus amigos curtem, comentam, compartilham, ficam putos juntos com ele.
Mas quando a editora ou o editor sentem-se prejudicados pelo novo autor (e eles também são prejudicados, acreditem), eles não acessam o Facebook e postam: o Fulano de Tal (link para o perfil do Fulano de Tal) é um caloteiro, cretino, megalomaníaco safado!
E assim, todo mundo só sabe que as editoras são do mal, enquanto os autores são do bem.
As editoras exploram financeira e indiscriminadamente a literatura, enquanto o novo autor tenta preservá-la bravamente.
Olha gente.
Não é bem assim.
E é sobre isso, e sobre muitas outras coisas que o novo autor não tem como saber, se ninguém contar para ele como é, que escreverei e deixarei registrado sobre este Marcador sem nenhuma criatividade: Vida de Editor.
Aqui vou compartilhar a minha experiência como autora e como editora também, tudo sem mimimi, sem firulas, sem enfeitar a folha do caderno com coraçõezinhos no canto.
Agora, é preciso QUERER ENTENDER, né amigo?
Porque o problema de muitos novos autores – se for ver, o problema de boa parte da humanidade – é que as pessoas só entendem o que lhes convém.
Só entendem o que querem entender.
Para o resto são surdas, mudas, cegas, loucas.
Mas para estas não me interessa escrever; estas, aliás, sequer me interessa saber que existem.
Então se você é um novo autor, como eu sou, e está de boa neste mundo, como eu também estou, e se quer saber como tudo isso funciona, convido-o a acompanhar o novo Marcador do Blogue da Jana.
Vou contar sobre o meu trabalho, e sobre as alegrias e os problemas que ele me dá.
Vou escrever também sobre a parte prática do negócio, como preços de livros (eu ganho quantos exemplares cortesia?), tiragens (pensei em três mil exemplares de tiragem inicial), custos de produção (quantas opções de capas terei para escolher?), impressão (gostaria de imprimir 30 exemplares e que o preço de capa ficasse em torno de R$20), divulgação (por que a editora não faz um trabalho de divulgação sobre meu livro?).
ETC.
Vou apresentar algumas sugestões de trabalho na área editorial, para quem estiver disposto a viver só de literatura – sim, é possível.
Quero compartilhar aqui coisas sobre o meu trabalho, e sobre este mercado editorial e literário no qual estou inserida – e estou inserida em ambos os lados: sou editora, e sou nova autora também.
Acho que vai ser válido.
Eu teria gostado se, lá no começo, em 2001, 2002, alguém tivesse dito para mim o que pretendo dizer por aqui.
Teria economizado tempo e dinheiro, e isso teria sido ótimo.