11 dezembro 2013

O Rabo Alheio

O mundo seria um lugar bem mais tranquilo e divertido se as pessoas parassem de castigar quem não é igual a elas mesmas.
Impressiona-me a maneira descarada e desrespeitosa como gente que deveria se apoiar e se fortalecer, acaba se ferindo e se podando, simplesmente por que acha que o outro deve ser, pensar e agir da exata maneira como ela mesma é, pensa e age.
Sob justificativas superficiais e tolas como ‘eu sei o que é melhor para você’ ou ‘eu só quero o seu bem’, estas pessoas vão invadindo a existência alheia, manipulando a individualidade alheia, e causando um estrago na vida alheia de proporções difíceis de mensurar.
Por exemplo: muitos pais não só acreditam como têm certeza absoluta que possuem o direito de escolher desde a roupa e o corte de cabelo que o filho irá usar, até a faculdade que irá cursar e, quiçá, com quem irá se casar. Casais, sob as mais variadas desculpas, agem como se fossem donos um do outro, descaracterizando o parceiro como ser, o tratando como mero objeto. ‘Minha casa, meu carro, minha mulher, meu filho, meu marido, meu celular’. Tudo no mesmo balaio. E não importa a idade: basta aparecer alguém que se veste diferente, que usa um cabelo diferente, que ouve uma música diferente ou – pior! – que pensa diferente, e pronto! Está imediatamente excluído do grupo.
É gay? Mãe solteira? Negro? Jogador de rúgbi? Puta? Ateu? Deus me livre!
O grupo não perdoa. O grupo não aceita nada que não caiba em seus duvidosos e apertados padrões. 
E neste grupo, amigos leitores, estão eu e vocês, que, sem perceber, também agimos assim. 
Deveríamos nos preocupar mais com o nosso rabo, e deixar o rabo alheio em paz. Mesmo que este rabo alheio seja o rabo do seu marido, filho, irmão, esposa, enteado. Já passou da hora de pararmos de nos tratar como autoridades máximas em todos os assuntos do universo, e deixar os outros viverem em paz, da maneira como julgam melhor.
A intolerância do mundo é a intolerância de cada um de nós. E no dia em que tivermos com a individualidade dos outros a mesma tolerância e respeito que temos com a nossa individualidade, então estaremos a caminho de um mundo melhor, mais justo e menos violento. 
Que é o que todos queremos. 
Não é?


* Originalmente publicado no jornal O Informativo Regional.