15 dezembro 2013

A Favor do Best-Seller

Muita gente dita intelectualizada costuma depreciar livros Best-Sellers. Paulo Coelho talvez seja o autor mais execrado, dentre todos. O pessoal questiona a qualidade das obras, o talento dos autores, a inteligência dos leitores. Definitivamente não os engolem.
Eu, no entanto, defendo os Best-Sellers – apesar de não lê-los, mais por falta de tempo do que de vontade. O que sempre gerou discussões acaloradas, que costumam iniciar no momento em que menciono Paulo Coelho. Enfim.
Não estou aqui para discutir qualidade literária – um conceito bastante relativo, convenhamos. Estou aqui para falar em leitores.
O brasileiro, reza a lenda, não lê nem anúncio de frango assado no domingo; que dirá um livro! Mas, graças aos Best-Sellers, muita gente que nunca leu nada na vida lê pela primeira vez. E a leitura, como sabemos, só precisa de uma chance para nos fisgar para sempre.
Já imaginaram quantas mulheres, que nem horóscopo de revista liam, leram 50 Tons de Cinza – um livro com quase 500 páginas? Já calcularam quantas crianças e adolescentes, que o mais próximo da leitura que chegaram foi acompanhando as atualizações de seus amigos no Facebook, leram as infinitas sagas Harry Potter e Crepúsculo? E quantos caras, que não assistiam filmes legendados por que não acompanhavam ‘as letrinhas’, leram todos os livros do Dan Brown?
Best-Sellers possuem esta função quase social: colocar um livro na mão de gente que nunca pensou em pegar um livro nas mãos.
Ora, sabemos que, para nos tornarmos leitores, precisamos somente começar. E é aqui que reside o X da questão. As pessoas nunca começam, e assim envelhecem e morrem sem nunca passar perto de um livro.
Este é um problema sério que se inicia em casa, claro, e se fortalece na escola. É quando, na quinta série, a professora de português solicita a leitura de Dom Casmurro. Obviamente todo mundo sai correndo e gritando, em desespero. E depois de Dom Casmurro na quinta série, a maioria tem certeza absoluta de que ler é o troço mais chato que existe no universo.
Porém, hoje, estes mesmos alunos que correram desesperados do Dom Casmurro na quinta série leram toda a saga Crepúsculo. E depois de lerem toda a saga Crepúsculo, é muito provável que voltem a ler, e leiam mais e mais, até que a leitura se torne o que deve ser: um hábito.
E assim ganhamos mais um leitor no Brasil.
Este fenômeno é tão concreto, que editoras nacionais já apostam em Mega-Sellers. Sim, livros que vendem mais de um milhão de exemplares. No Brasil. Um milhão. De livros. Reflita.
O Padre Marcelo Rossi, por exemplo, é um que obteve a incrível façanha de vender OITO milhões de exemplares da obra Ágape, em um país cuja tiragem média de livros não passa de cinco mil.
E antes que venham os tomates sobre o exemplo do Padre Marcelo, saibam que o escritor Laurentino Gomes vendeu mais de um milhão de livros das obras 1808 (Ed. Planeta) e 1822 (Ed. Nova Fronteira). Ambas sobre a história do Brasil.
Já Raphael Draccon e Eduardo Spohr, por sua vez, venderam 200 mil e 600 mil livros, respectivamente.
(Considero importante observar o fato de que todos os autores citados são nacionais – os mesmos que não são lidos por ninguém em detrimento de autores estrangeiros blábláblá).
Em oito anos, a rede de livrarias Saraiva registrou um aumento de 500% nas vendas voltadas ao público infantojuvenil. Em 2007 foram vendidos 277 mil exemplares. Em 2012, 1,8 milhões.
Números altos para um país que, teoricamente, não lê.
Paula Pimenta é outra escritora que possui um público leitor altamente segmentado (e vende que nem água: foram 300 mil exemplares das séries Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série). Paula escreve para meninas entre 12 e 15 anos. Estas meninas lotam suas sessões de autógrafos e tratam Paula como se ela fosse um Beatle. Levam cartazes, faixas, gritam e desmaiam. Paula Pimenta, uma escritora, figura como ídolo para essa meninada ao lado de caras hollywoodianos como Justin Bieber.
Então eu pergunto: como podemos odiar os Best-Sellers, minha gente?
Eles fazem pela literatura o que Machado de Assis não consegue fazer: atrair leitores.
E estes leitores, após 50 Tons de Cinza, Dan Brown e Paulo Coelho, têm muito mais chances de, afinal, ler, entender e (talvez) até gostar de um Dom Casmurro da vida.
O gosto pela leitura, assim como todos os gostos, vai também se refinando.
Só que todo mundo precisa começar, e pouco importa se for lendo obituário de jornal ou Os Lusíadas. O que interessa é que se comece.
E como o Best-Seller é uma ampla porta de entrada para dezenas de milhares de leitores, então eu o respeito.
Se você acha que está ruim com eles, meu amigo, pense no quanto estaria pior sem eles. 

* Originalmente publicado no site Homo Literatus.