12 novembro 2013

Puro Título

* Crônica originalmente publicada na coletânea Colorados – Nada Vai Nos Separar (Ed. Multifoco, 2013) e na revista virtual Bar Colorado.

O primeiro jogo deu 3 a 2.
Para eles.
Dentro da nossa casa.
O Horror, O Horror!
Era a primeira partida da final do Gauchão 2011 e, após os noventa minutos iniciais, eu tentava pensar em passarinhos cantando em bosques verdejantes para tentar me acalmar.
Estava, admito, desacreditada.
Precisávamos fazer pelo menos dois gols na casa deles, e não tomar nenhum.
Era difícil, impossível negar.
A semana passou em euforia para os gremistas. Eram os campeões por antecipação. Faixas de Grêmio Campeão Gaúcho 2011 pipocavam aqui e ali; caixas de som eram levadas aos gramados para a comemoração.
No final de semana seguinte fui visitar meus pais, que moram em outra cidade. A volta, no fatídico domingo, estava marcada para as 16h. Achei bom. Pelo menos não veria, não saberia, não ouviria; estaria protegida e alienada dentro de um ônibus estrada afora.
Entramos no ônibus, eu e o marido, e nos acomodamos. Esbocei um sorrisinho. Sentia-me segura ali.
Então uma moça sentou-se no banco em frente ao nosso. Acomodou-se, puxou um radinho e começou a escutar o jogo.
Por minha vez, eu a) comecei a gritar e puxar seus cabelos histericamente ou b) ri.
Claro que eu ri; civilidade em primeiro lugar.
Também por que estava com o marido bem ao meu lado, insuportavelmente otimista, jurando que ganharíamos o jogo.
Pensei: ao menos nada haveria de ser pior do que ser obrigada a ouvir aquele jogo triste dentro de um ônibus sem ter para onde fugir.
Nunca devemos pensar isso, caro leitor.
A primeira lição que precisamos obrigatoriamente aprender sobre este mundo é que nada - e eu disse NADA - pode estar tão ruim que não possa piorar.
Porque o Grêmio fez um gol.
Sim.
Logo, precisávamos fazer pelo menos três gols.
Olhei para meu marido como quem diz ‘cadê teu Deus agora?’, enquanto escutava a moça do radinho gargantear: vamos meter um saco de gols nesses colorados.
A cretina ainda por cima era gremista!
Porém, quando os anjos fecham uma porta abrem uma janela, e logo a moça do radinho desceu, levando consigo aquele jogo desesperador.
Seguimos o restante da viagem em relativa paz.
Chegamos à rodoviária de Passo Fundo pouco antes das 17h. Estava um a um. Sorri discretamente, enquanto meu marido afirmava ‘eu disse, eu disse, nós vamos ganhar’.
Olhei-o disfarçando o sorriso, que escapava, e a esperança, que renascia fortemente, e afirmei ‘não se empolgue, ainda faltam dois gols’, tentando manter a razão soberana.
Terminei de falar e o Inter fez o segundo.
Tem horas em que eu adoro estar errada.
Intervalo, e nosso ônibus saindo.
Andamos cerca de trinta minutos e paramos no pedágio. Ouvi o motorista perguntar:
- Quanto tá o jogo?
NERVOS.
O que o sujeito do pedágio respondeu era música para os meus ouvidos:
- 3 a 1 pro Inter.
OI?
- Então ganhamos? – continuou o motorista, obviamente colorado.
Nem sei o que respondeu o outro.
Tinha de me controlar, afinal estávamos em um ônibus com velhinhas, crianças e mulheres grávidas, e, lembrem-se, a civilidade em primeiro lugar.
Olhei o relógio.
Pelos meus cálculos, faltavam uns vinte minutos para terminar o jogo, e tínhamos pelo menos uma hora de viagem pela frente.
Vinte longos minutos, que se arrastavam dolorosamente.
Meia hora depois, e aquele silêncio sepulcral no ônibus. Silêncio este que, se antes me trazia paz, agora me causava aflição.
- Por que meus pais ainda não me ligaram? – perguntei ao Alexandre, o marido otimista.
- Por que eles te ligariam?
- O jogo já deve ter terminado. E se o Inter tivesse ganhado, a primeira coisa que eles teriam feito era me telefonar.
- Bobagem, eles devem estar comemorando.
Mas não. Eu sabia que não. Jamais, em toda a minha existência, meus pais deixaram de me telefonar imediatamente ao final de um jogo vitorioso, ainda mais sabendo que eu não o assistia. E não seria hoje, justamente hoje, a primeira vez.
- Eles fizeram um gol – eu disse, como que admitindo o inadmissível.
- O Grêmio?
- Claro! Eles fizeram um gol e o jogo foi para os pênaltis. Por isso meus pais não me ligaram. O jogo não acabou. TENHO CERTEZA.
Não demorou e chegamos à rodoviária de Tapejara. Faltava meia hora para estarmos em casa. Tão logo estacionamos, o motorista literalmente se atirou para fora do ônibus. Colorado que era, também queria saber o que raios estava acontecendo.
Uma pequena multidão se aglomerava no bar da rodoviária, olhos vidrados na TV.
Pedi ao marido otimista, temerosa:
- Vai lá e vê o que está acontecendo.
Marido otimista levantou e saiu. Logo, gritos. Foguetório. Mais gritos. Comecei a entrar em pânico. Gritos e foguetório. Meus pais não ligavam. Marido nem motorista voltavam com notícias.
De repente ele, o marido otimista, entra ônibus adentro rindo.
Mandei a civilidade, as velhinhas, as crianças e as mulheres grávidas pra lá de logo ali, levantei e disse, voz hesitante:
- E aí?
Ele continuava rindo.
Sei lá, poderíamos ter perdido e ele estava tendo uma crise de pânico também.
- Ganhamos! – ele balbuciou.
- Ganhamos? Como assim ganhamos? O que aconteceu?
- Eles realmente fizeram o segundo gol, foi pros pênaltis e nós ganhamos.
Eu não acreditava.
- E por que meus pais não me ligaram ainda?
Ele ria e eu telefonava para casa.
Tudo poderia ser uma alucinação coletiva, e eu só acreditaria se ouvisse a notícia da boca de meus pais.
Minha mãe atendeu gritando palavras desconexas.
- Mãe???
- Aêêêê!
- Ganhamos, mãe?
- AAAAH!
Aí eu acreditei.
Porém, ainda tínhamos uns trinta minutos de viagem pela frente.
O motorista ia feliz, eu ia feliz, todo mundo ia feliz.
Chegamos e, claro, corri vestir o manto sagrado, peguei minhas economias e fui para a rua comemorar. Eu e o marido otimista.
Lá, tudo lindo, vermelho e vibrante.
Nunca conquistar um campeonato gaúcho foi tão gostoso. Quarenta potes de Nutella não seriam tão gostosos.
Mas o melhor ainda estava por vir.
Moro em uma cidade pequena, e o bar mais conhecido daqui é de um gremista fanático.
Nem preciso dizer que fomos reto pra lá.
Chegamos, sentamos, ele se aproximou.
Faixas de Grêmio Campeão Gaúcho 2011 voavam ao vento, caixas de som eram recolhidas em silêncio.
Um sujeito colorado, com uma barriguinha proeminente de aproximadamente dezesseis meses, se aproximou do dono do bar.
Ele, que perde o amigo, o cliente e a dignidade, mas não perde a piada, passou a mão na barriga saliente do torcedor colorado e falou:
- E essa barriga aí?
- Título. Puro título – respondeu o colorado barrigudinho.
O dono do bar, por sua vez, a) começou a gritar e puxar os cabelos do gordinho histericamente ou b) riu.
Ele riu, claro, pelo mesmo motivo que eu ri dentro do primeiro ônibus que pegamos. Ah, a civilidade.
E eu?
Ora, eu ri também.
Todos estavam rindo.
Naquele momento, todos os colorados que enchiam aquelas ruas possuíam panças proeminentes e, ao contrário de sempre, não fazíamos questão de encolhê-la, escondê-la, disfarçá-la com blusas largas.
Estávamos todos felizes com nossas barrigas salientes de aproximadamente dezesseis meses.
Não era gordura localizada nem pneuzinhos causados pelos potes de Nutella comidos na madrugada.
Era título.
Puro título.