29 agosto 2013

Geniais e Geniosos

Tudo começou assim: um amigo, também escritor, compartilhou no Facebook o link de uma matéria sobre Raphael Draccon, autor da saga Dragões de Éter (que vendeu 200 mil exemplares) e diretor do selo Fantasy, da Editora Casa da Palavra. Leia a matéria aqui.
Resumindo, nesta matéria o Raphael decreta o fim da era dos escritores introspectivos, e afirma que o autor que pretende conquistar seu espaço e público leitor precisa participar de feiras, eventos, oficinas, palestras, tudo o que puder aproximá-lo do leitor. Relembrou a importância da internet para se criar este público leitor, inclusive antes de procurar por uma editora – até para que exista algum público interessado em comprar seu livro, caso ele seja lançado.
Enquanto editor, disse que ‘faz uma varredura’ nos perfis de seus candidatos a autores, e que se encontrar algum post ‘falando mal de outro autor ou comprando briga na internet’, o autor é descartado na hora. Independente da qualidade de sua obra, subentende-se.
Este meu amigo escritor, que postou o link, discordava de Raphael.
Eu resolvi ler a matéria, e concordei com praticamente tudo o que dizia o mesmo Raphael.
Então fiz o que todo mundo faz: postei o link da entrevista na minha linha do tempo no Facebook.
E pelo jeito o pessoal que viu meu post teve a mesma opinião que o meu amigo, que postou o link primeiramente.
O pessoal não só discordou (100% dos comentários), como chamou o Raphael de ‘ridículo’ e ‘babaca’, entre outras colocações amigáveis.
Eu fiquei meio que chocada, sabe?
Digo isso por que vejo muitos caras, que escrevem pra caramba e que poderiam se dar muito bem enquanto escritores e promotores de literatura, se perderem por conta de posturas que estão muito mais ligadas ao que eles gostariam que fosse, do que ao que de fato é.
Uma das recorrentes questões levantadas é uma espécie de ‘prostituição’, ao qual o escritor se submeteria em relação ao ‘mercado editorial’. Marketing barato. A "lucianohuckanização" da literatura.
Ok, ok. Vamos refletir.
Primeiro: não compreendo por que você buscar um público-alvo, e manter uma comunicação direta com este público, seja através da internet, seja pessoalmente, ou ambas as coisas, seja ‘se prostituir’.
Definir um público-alvo é fundamental em qualquer projeto que se pretenda bem-sucedido (caso contrário você atira para todos os lados e não acerta ninguém).
- Ah, mas minha literatura não é um projeto! É arte, é amor, é dedicação, é um sonho, blábláblá.
Então, cara, se você trata sua literatura como um sonho, é como um sonho que ela permanecerá.
Escrever, ser escritor, é um trabalho como outro qualquer. Essa ideia de escritor na frente de uma Olivetti fumando cigarro e tomando café já era, amigo!
Se você quiser ficar na frente de uma Olivetti fumando cigarro, tomando café e escrevendo loucamente, tudo bem. Mas aí não queira fazer da literatura sua profissão. Trate-a como o que de fato ela é: um hobbie.
Dou um exemplo bem prático, mas que costuma ferir o coração de alguns escritores mais sensíveis: você vai abrir uma loja de roupas.
Então você pensa:

Abrir uma loja de roupas sempre foi meu sonho. Desde criancinha eu sonhava em abrir uma loja de roupas. Como é meu sonho de infância, não devo me preocupar, pois entendo tudo sobre loja de roupas. Minha loja de roupas será para todas as pessoas, de todas as idades, todas as cidades, todas as classes sociais! Abrirei as portas de minha loja de roupas, e esperarei os clientes fazerem fila na porta.

Aí o cara abre as portas da maldita loja de roupas e o que acontece?
Pois é.
Ocorre o mesmo com o escritor que se comporta desta maneira delirantemente romântica!
Se quiser abrir uma loja de roupas, e quiser que ela cresça e apareça e se fortaleça, e lhe traga lucros e reconhecimento, trate sua loja de roupas como um trabalho, e não como uma diversão, não como um sonho de infância.
Caso contrário, NÃO ABRA UMA LOJA DE ROUPAS! Ou você só terá prejuízos, frustrações e dores de cabeça.
Se quiser publicar, e participar de Bienais, e vender 200 mil exemplares de seu livro, e ser convidado para o programa do Jô (admita, é o seu sonho!), vai à luta, companheiro.
Mas se não quiser. Se quiser somente escrever e escrever, visceralmente, e publicar uma vez por ano um livro com tiragem de 30 exemplares, vender 9 livros para sua mãe e suas tias e devolver o resto para a editora, tudo bem.
Se quiser ter ‘liberdade, e não se vender para um mercado editorial falido e injusto, malvado e explorador’, tudo bem.
TUDO BEM MESMO.
É uma escolha.
Se preferir nunca publicar, por que o mundo é cruel, estúpido e sem coração, não publique.
É um direito seu.
Mas saiba que, seja lá o que você escolher, isso terá uma consequência. Então, aceite-a também.
Outro ponto levantado pelo pessoal que acha o Raphael um babaca ridículo foi a questão da qualidade das obras. Segundo entendi, o marketing enfia goela abaixo muito lixo literário, enquanto excelentes escritores ficam de fora.
Olha, pode ser. Apesar de que o conceito de literatura boa e literatura ruim seja um tanto relativo. Tem gente que lê Dan Brown e ama. E tem gente que lê Charles Bukowski e odeia. Isso é gosto, fazer o que?
Mas, de tudo isso, desprezar livros Best Sellers é o que mais me deixa alvorotada.
Vejam bem: eu não sou uma entusiasta do Best Seller. Confesso que não leio nenhum, mais por falta de tempo do que de vontade. Mas daí você não respeitar um sujeito que vendeu 200 mil, um milhão, dez milhões de exemplares de seu livro, ah! Tenha dó. 
Sabem para que serve o Best Seller, bonitos?
Pra gente que nunca leu, ler pela primeira vez. Estão entendendo? TEM GENTE QUE NUNCA LEU NADA NA VIDA, e lê o Best Seller por que a irmã, que também nunca leu nada na vida, leu e gostou.
Sabem quantas pessoas leram, por exemplo, 50 Tons de Cinza, e antes disto nunca haviam lido nada, nem horóscopo de jornal?
A maior dificuldade é fazer o cara que não lê ler o primeiro livro. E para isso o Best Seller serve muito bem.
Quantas pessoas, depois de lerem o Dan Brown, leram 50 Tons de Cinza, e lerão o próximo Best Seller, até um dia se tornarem leitores frequentes?
Se você não quer ler Best Sellers, não leia. Mas não despreze a importância que eles possuem – uma importância quase social.
Ademais, JURA que você, caro autor, não queria seu livro na lista dos dez mais vendidos da Veja (a revista ‘mais capitalista filha da puta do universo’)?
Me engana que eu gosto.
Enfim.
O resumo desta ópera é o seguinte: se não quiser estabelecer um público-alvo para sua literatura; se quiser somente escrever, e mais nada; se a escrita, para você, não é um trabalho, é uma diversão, uma válvula de escape; saiba que as chances de conseguir vender 200 mil exemplares são bem, bem pequenas.
Se você considera um sujeito que vendeu 200 mil livros no Brasil, e é editor de um selo respeitável, um babaca ridículo, tudo bem.
Se você acha que, só por que ele vendeu 200 mil exemplares sua literatura não tem qualidade (oi?), ou seu público (os adolescentes) não é exigente, cara, você não tem ideia do que está falando.
Mas tudo bem.
Cada um acredita no que prefere acreditar.
Só sei que eu sou escritora também, e já trabalhei como editora, tanto para uma editora de livros quanto para sites, e posso dizer com toda a certeza que muitos escritores talentosos perdem espaço para escritores medianos, mas que são mais profissionais no tratar de sua literatura.
Digo e repito, há anos: TALENTO NÃO É TUDO.
O ideal é encontrar um escritor talentoso e profissional, mas nem sempre acontece.
Aí o cara escreve super bem, é muito habilidoso e genial, pede para sua editora imprimir 30 livros e – pasmem! – não consegue vender os 30 livros que pediu!
Desculpa, mas o que vocês querem que a editora faça? Se você, que é o autor, não achou 30 leitores para comprar o seu livro, quer que a editora faça o quê? Um milagre?
- Que divulgue – dirão, em coro.
Mas divulgação custa caro, amigo! Muito caro, aliás. E ninguém vai investir em um autor desconhecido, que não tem 20 seguidores no seu blog, para ‘ver o que acontece’.
E vou além: então a editora pode e deve divulgar o autor, mas o autor não pode e não deve divulgar SEU PRÓPRIO TRABALHO?
A vida não é um filme da Disney, caso não tenham percebido.
O que nos leva para a última questão levantada pelo Raphael, e que gerou controvérsias na geral: ele disse que, enquanto editor, faz uma varredura nos perfis sociais de seus potenciais autores. Galera achou isso maior invasão de privacidade, muito constrangedor.
É sério, gente?
Vocês não sabiam que empresas costumam literalmente bisbilhotar nos perfis de seus empregados, e candidatos a empregados, para ver o que fazem, o que pensam, o que gostam e o que não gostam? Para, inclusive, avaliar se o perfil do sujeito fecha com o perfil da empresa? Por isso mesmo que não é uma boa ideia postar uma foto bêbada sem roupa em cima de uma mesa se o teu chefe é um dos teus seguidores.
O mesmo acontece em uma editora.
Sim, por que uma editora – veja só que surpresa! – é uma empresa como outra qualquer. Não é uma Fantástica Fábrica de Literatura, como alguns parecem imaginar. 
Além do mais, a editora precisa saber se o candidato a escritor possui um público-alvo, se o seu livro tem potencial para vender, como o autor interage e atua nas suas redes sociais.
E dependendo do que a editora ver, poderá inclusive apostar e investir em você e em seu livro.
Capiche?
Mas, como disse, o mundo se divide entre aqueles que trabalham com o que é, e aqueles que trabalham com o que gostariam que fosse.
Entre aqueles que buscam aprender com os que já percorreram os caminhos que você está começando a percorrer, e aqueles que só fazem reclamar por que o mundo não é um bolinho com glacê, como imaginavam.
E independente do que você pense, no que acredita, se concorda ou não, é assim que é.
Se vai mudar no futuro? Ora, por que não?
Sempre sugiro que, ao invés de somente reclamar, por que não fazer acontecer?
Se não confia nas editoras, publique por conta própria, ou abra uma editora nos moldes que acredita serem os corretos.
Se acha o mercado filho da puta, não participe dele.
Se mantendo esta postura você vender 200 mil exemplares – independente da qualidade e da genialidade de sua obra – por favor, me ligue e me conte o segredo.
Até lá, saiba que de escritores geniais e geniosos o mercado está saturado.
Precisamos de escritores que falem menos e façam mais. Que sejam talentosos, sim, mas que sejam também (e principalmente) profissionais e comprometidos.
Ok. Tendo NOÇÃO DE REALIDADE já está de bom tamanho.
Mas se você não concorda com este status quo, que busque alternativas para mudá-lo.
Ficar em casa na internet vomitando opiniões embasadas em nada, além de achismos e sonhos de infância, não colaborará para que seu livro chegue às mãos de mais leitores.
Mas caso isso aconteça, lembre-se: me liga.

OBS.: Esqueci de incluir no texto uma questão relevante. Como você deve ter percebido, o título da matéria sobre o Raphael Draccon é “Rubem Fonseca, hoje, não seria publicado”. A galera ficou altamente histérica com esta afirmação. Mas vamos contextualizar a frase do cara nesta reportagem: Raphael dizia que o autor recluso tem poucas chances de se dar bem no mercado literário atual. O Rubem, como todos sabem, não sai de casa nem para comprar pão na padaria, que dirá comparecer em feiras e eventos, ou se aproximar de seus leitores. Manter contato com o leitor, seja pessoal, seja virtualmente, é algo que Rubem definitivamente não faz. Se HOJE Rubem fosse um autor jovem e desconhecido, possivelmente teria dificuldades para publicar, ou, ao menos, para vender sua obra.  Não por que não sabe escrever; não por que sua literatura não tem qualidade. Mas por que não sabe (e não quer) se relacionar com seus leitores. Existem por aí milhares de Rubem Fonseca (em talento e em comportamento), que não encontrarão seu espaço embaixo deste sol chamado literatura por causa de sua postura fechada e reclusa. Rubem Fonseca, assim como dezenas de outros escritores ‘das antigas’, surgiu e se consagrou em outros tempos. Tempos em que ser escritor não era cool e nem cult – muito pelo contrário. Tempos em que não havia internet e redes sociais. Tempos em que não existiam 982 editoras por metro quadrado lançando bilhões de autores todos os dias, misturando bons e maus escritores em um mesmo balaio.
É só isso. Então menos, gente. BEM MENOS.