20 dezembro 2013

Amazon: a Porta da Esperança?

A chegada da Amazon ao Brasil trouxe um novo ânimo para todo escritor iniciante que não conseguia espaço em uma grande editora, e tampouco possuía dinheiro suficiente para investir no lançamento de seu livro através de uma pequena ou média editora.
A possibilidade de publicar sua obra em formato digital, vendê-la para o mundo inteiro e ainda ganhar 70% de lucro sobre o preço de capa, que você define, é realmente sensacional.
E eu não sou nem louca de criticar a Amazon ou quem publica através dela. Muito pelo contrário. Eu mesma acabo de me cadastrar, e acho que por meio de sua plataforma alcançamos a maioridade no que diz respeito à democracia literária.
PORÉM – e sempre há um porém – algumas pessoas parecem excessivamente deslumbradas com as possibilidades oferecidas pela Amazon, parecendo esquecer-se de que, para vender livros, não basta disponibilizá-lo ao público leitor. É preciso mais.
Bem mais.
Decidi escrever sobre este assunto após ler uma matéria publicada no site Escribe Romántica, intitulado Como Publicar na Amazon (de graça!). O texto diz tudo o que o novo autor quer ouvir e acreditar. Frases como “... a Amazon está mudando a vida de centenas de escritores, que há poucos meses atrás não conseguiam divulgar-se, e agora estão sendo descobertos por milhões de fãs e contratados por grandes editoras”; ou “Você pode dividir listas de best-sellers com autores consagrados como Paulo Coelho”; ou ainda “Você pode ganhar a vida escrevendo livros comodamente em sua casa”.
Risos, muitos risos.
E o pior é que vários autores não só acreditam nisso tudo, como têm certeza absoluta de que a Amazon é uma espécie de Porta da Esperança para o novo autor.
Primeiro ponto que precisa ser compreendido: publicar e divulgar são duas coisas completamente diferentes, amigo.
A ideia de que basta cadastrar seu livro na Amazon e você vai vender livros tal qual pão quente no fim da tarde é tão absurda quanto acreditar que você vai publicar um livro em formato tradicional, através de uma editora tradicional, e vai vender livros tal qual pão quente no fim da tarde.
Publicar é uma coisa – muito simples e acessível, aliás. Divulgar é outra coisa, bem diferente e bem, bem, bem mais cara.
Logo, pouco importa se o seu livro está na Amazon, no catálogo de uma editora ou na estante da livraria. Importa se alguém quer lê-lo. E para alguém querer lê-lo, precisa antes saber que o livro existe. E para isso, por fim, é necessário divulgação.
Segundo ponto: confesso que sei de pessoas que publicaram seus livros através da Amazon e hoje estão ricas e famosas escrevendo comodamente em suas casas. Uma delas é E. L. James, a autora de Cinquenta Tons de Cinza, que vendeu 250 mil e-books através da Amazon antes de ter os direitos adquiridos por uma grande editora e vender muitos milhões de exemplares em todo o sistema solar.
Contudo, também sei de pessoas que pagaram para publicar seu primeiro livro e hoje estão igualmente ricas e famosas escrevendo comodamente em suas casas. Uma delas se chama Paulo Coelho. O escritor pagou para publicar seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, em 1982 – cujo exemplar, hoje, pode custar até cinco mil reais.
O que quero dizer com isso: não confundam meio com mensagem. Se o livro for bom, se estiver bem escrito, se possuir apelo comercial (leia-se público leitor), ele venderá, independente se estiver escrito em papel higiênico, em PDF ou em papel pólen 90g.
Logo, publicar pela Amazon não torna automaticamente seu livro um fenômeno de vendas. O que fará de seu livro um sucesso ou um fracasso é seu conteúdo, e aí pouco importa se este conteúdo estará disponível em e-book, em um blog ou em um livro tradicional.
Terceiro ponto: se você mora no Brasil, ESQUEÇA ganhar a vida escrevendo livros comodamente em casa. Veja que ambos os exemplos que dei são de escritores que publicam no Brasil, mas publicam também (e principalmente) fora do Brasil. Em terras tupiniquins, nem mesmo renomados escritores ganham a vida escrevendo comodamente em casa. Que dirá eu ou você. Um dos maiores prêmios literários do país, o Jabuti, paga um troféu e R$3.500 (valor bruto) para o primeiro colocado de cada categoria.
Um troféu e R$3.500 (valor bruto!!!) para o melhor livro do país em cada categoria. Quer dizer.
Escritores escrevem, mas não escrevem apenas livros. Escrevem peças, reportagens, matérias, crônicas, roteiros, colunas semanais, slogans. Isso quando não dão palestras, oficinas, aulas, editam livros, trabalham em agências de publicidade ou em repartições públicas.
E é assim que pagam suas contas. Se dependessem somente da venda de seus livros, passariam fome, literalmente.
Contudo, o mais impressionante sobre esta questão envolvendo a Amazon é a ideia delirante que muitos ditos escritores têm do mercado editorial. A maioria sequer vê o mercado editorial como um mercado. Tratam a publicação de seu livro não como um trabalho como outro qualquer, mas como um “sonho”, envolto em muito romantismo e fantasia.
Acreditam piamente que irão publicar hoje e amanhã já estarão na lista dos mais vendidos, sentados de frente com Gabi, ganhando rios de dinheiro e tendo fãs histéricos os atacando no supermercado para pedir autógrafo.
E, o pior: a maioria destes escritores não consegue escrever três linhas sem cometer pelo menos três erros gramaticais bizarros.
Então eles publicam na Amazon e, um mês depois, venderam cinco livros – pra mãe, pro pai, pra vó, pro tio e pro primo. Aí vem a frustração, claro, pois eles realmente acreditaram no que matérias como esta que citei, do site Escribe Romántica, diziam. Naturalmente o sujeito, ao invés de procurar por novas alternativas; ao invés de buscar se aperfeiçoar e aprender que concerteza não existe, prefere se tornar um rancoroso azedo que passa o tempo todo falando mal das editoras, da Amazon, do mercado editorial, dos leitores, dos escritores, do país e do universo, sem perceber que, na realidade, quem errou foi ele, que CONCERTEZA superestimou seu talento literário.
Não há mais espaço para gênios, ainda mais em um mundo onde, finalmente, a literatura democratizou-se em definitivo. Até pouco tempo, ou você publicava através de um grande selo, ou azar o seu. Hoje, além de existirem dezenas de editoras especializadas na publicação do novo autor, ainda existem plataformas como a Amazon e a Publique-se, da Livraria Saraiva, que oportunizam a publicação de novos escritores – e de graça.
Não tenho dúvidas de que o escritor que souber aproveitar tem tudo para encontrar seu lugar ao sol, seja através da Amazon, através de uma publicação independente, através de uma editora tradicional ou de todas as alternativas acima citadas.
Mas o meio nunca poderá fazer nada pela mensagem.
Logo, apenas disponibilizar seu livro na Amazon, acreditando que isto basta para que ocorra sua efetiva comercialização – e mais: seu estouro literário interplanetário – é risível.
Sem divulgação e sem uma boa história, não importa onde a obra estará: ela não vai vender.
Porque, se fosse tão fácil assim, não haveria mais autores desconhecidos neste mundo. Estaríamos todos de frente com Gabi.

* Originalmente publicado no site Homo Literatus.

15 dezembro 2013

A Favor do Best-Seller

Muita gente dita intelectualizada costuma depreciar livros Best-Sellers. Paulo Coelho talvez seja o autor mais execrado, dentre todos. O pessoal questiona a qualidade das obras, o talento dos autores, a inteligência dos leitores. Definitivamente não os engolem.
Eu, no entanto, defendo os Best-Sellers – apesar de não lê-los, mais por falta de tempo do que de vontade. O que sempre gerou discussões acaloradas, que costumam iniciar no momento em que menciono Paulo Coelho. Enfim.
Não estou aqui para discutir qualidade literária – um conceito bastante relativo, convenhamos. Estou aqui para falar em leitores.
O brasileiro, reza a lenda, não lê nem anúncio de frango assado no domingo; que dirá um livro! Mas, graças aos Best-Sellers, muita gente que nunca leu nada na vida lê pela primeira vez. E a leitura, como sabemos, só precisa de uma chance para nos fisgar para sempre.
Já imaginaram quantas mulheres, que nem horóscopo de revista liam, leram 50 Tons de Cinza – um livro com quase 500 páginas? Já calcularam quantas crianças e adolescentes, que o mais próximo da leitura que chegaram foi acompanhando as atualizações de seus amigos no Facebook, leram as infinitas sagas Harry Potter e Crepúsculo? E quantos caras, que não assistiam filmes legendados por que não acompanhavam ‘as letrinhas’, leram todos os livros do Dan Brown?
Best-Sellers possuem esta função quase social: colocar um livro na mão de gente que nunca pensou em pegar um livro nas mãos.
Ora, sabemos que, para nos tornarmos leitores, precisamos somente começar. E é aqui que reside o X da questão. As pessoas nunca começam, e assim envelhecem e morrem sem nunca passar perto de um livro.
Este é um problema sério que se inicia em casa, claro, e se fortalece na escola. É quando, na quinta série, a professora de português solicita a leitura de Dom Casmurro. Obviamente todo mundo sai correndo e gritando, em desespero. E depois de Dom Casmurro na quinta série, a maioria tem certeza absoluta de que ler é o troço mais chato que existe no universo.
Porém, hoje, estes mesmos alunos que correram desesperados do Dom Casmurro na quinta série leram toda a saga Crepúsculo. E depois de lerem toda a saga Crepúsculo, é muito provável que voltem a ler, e leiam mais e mais, até que a leitura se torne o que deve ser: um hábito.
E assim ganhamos mais um leitor no Brasil.
Este fenômeno é tão concreto, que editoras nacionais já apostam em Mega-Sellers. Sim, livros que vendem mais de um milhão de exemplares. No Brasil. Um milhão. De livros. Reflita.
O Padre Marcelo Rossi, por exemplo, é um que obteve a incrível façanha de vender OITO milhões de exemplares da obra Ágape, em um país cuja tiragem média de livros não passa de cinco mil.
E antes que venham os tomates sobre o exemplo do Padre Marcelo, saibam que o escritor Laurentino Gomes vendeu mais de um milhão de livros das obras 1808 (Ed. Planeta) e 1822 (Ed. Nova Fronteira). Ambas sobre a história do Brasil.
Já Raphael Draccon e Eduardo Spohr, por sua vez, venderam 200 mil e 600 mil livros, respectivamente.
(Considero importante observar o fato de que todos os autores citados são nacionais – os mesmos que não são lidos por ninguém em detrimento de autores estrangeiros blábláblá).
Em oito anos, a rede de livrarias Saraiva registrou um aumento de 500% nas vendas voltadas ao público infantojuvenil. Em 2007 foram vendidos 277 mil exemplares. Em 2012, 1,8 milhões.
Números altos para um país que, teoricamente, não lê.
Paula Pimenta é outra escritora que possui um público leitor altamente segmentado (e vende que nem água: foram 300 mil exemplares das séries Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série). Paula escreve para meninas entre 12 e 15 anos. Estas meninas lotam suas sessões de autógrafos e tratam Paula como se ela fosse um Beatle. Levam cartazes, faixas, gritam e desmaiam. Paula Pimenta, uma escritora, figura como ídolo para essa meninada ao lado de caras hollywoodianos como Justin Bieber.
Então eu pergunto: como podemos odiar os Best-Sellers, minha gente?
Eles fazem pela literatura o que Machado de Assis não consegue fazer: atrair leitores.
E estes leitores, após 50 Tons de Cinza, Dan Brown e Paulo Coelho, têm muito mais chances de, afinal, ler, entender e (talvez) até gostar de um Dom Casmurro da vida.
O gosto pela leitura, assim como todos os gostos, vai também se refinando.
Só que todo mundo precisa começar, e pouco importa se for lendo obituário de jornal ou Os Lusíadas. O que interessa é que se comece.
E como o Best-Seller é uma ampla porta de entrada para dezenas de milhares de leitores, então eu o respeito.
Se você acha que está ruim com eles, meu amigo, pense no quanto estaria pior sem eles. 

* Originalmente publicado no site Homo Literatus.

11 dezembro 2013

O Rabo Alheio

O mundo seria um lugar bem mais tranquilo e divertido se as pessoas parassem de castigar quem não é igual a elas mesmas.
Impressiona-me a maneira descarada e desrespeitosa como gente que deveria se apoiar e se fortalecer, acaba se ferindo e se podando, simplesmente por que acha que o outro deve ser, pensar e agir da exata maneira como ela mesma é, pensa e age.
Sob justificativas superficiais e tolas como ‘eu sei o que é melhor para você’ ou ‘eu só quero o seu bem’, estas pessoas vão invadindo a existência alheia, manipulando a individualidade alheia, e causando um estrago na vida alheia de proporções difíceis de mensurar.
Por exemplo: muitos pais não só acreditam como têm certeza absoluta que possuem o direito de escolher desde a roupa e o corte de cabelo que o filho irá usar, até a faculdade que irá cursar e, quiçá, com quem irá se casar. Casais, sob as mais variadas desculpas, agem como se fossem donos um do outro, descaracterizando o parceiro como ser, o tratando como mero objeto. ‘Minha casa, meu carro, minha mulher, meu filho, meu marido, meu celular’. Tudo no mesmo balaio. E não importa a idade: basta aparecer alguém que se veste diferente, que usa um cabelo diferente, que ouve uma música diferente ou – pior! – que pensa diferente, e pronto! Está imediatamente excluído do grupo.
É gay? Mãe solteira? Negro? Jogador de rúgbi? Puta? Ateu? Deus me livre!
O grupo não perdoa. O grupo não aceita nada que não caiba em seus duvidosos e apertados padrões. 
E neste grupo, amigos leitores, estão eu e vocês, que, sem perceber, também agimos assim. 
Deveríamos nos preocupar mais com o nosso rabo, e deixar o rabo alheio em paz. Mesmo que este rabo alheio seja o rabo do seu marido, filho, irmão, esposa, enteado. Já passou da hora de pararmos de nos tratar como autoridades máximas em todos os assuntos do universo, e deixar os outros viverem em paz, da maneira como julgam melhor.
A intolerância do mundo é a intolerância de cada um de nós. E no dia em que tivermos com a individualidade dos outros a mesma tolerância e respeito que temos com a nossa individualidade, então estaremos a caminho de um mundo melhor, mais justo e menos violento. 
Que é o que todos queremos. 
Não é?


* Originalmente publicado no jornal O Informativo Regional.

24 novembro 2013

Lançamento do livro Conte um Conto!

É hoje, bonitos!
Entre 17h e 20h deste belo domingo ensolarado acontece em Carazinho/RS o lançamento do livro Conte Um Conto, organizado por esta que vos escreve!
A obra é o primeiro lançamento do selo Nascedouro, da Editora Os Dez Melhores, e traz 17 contos escritos por 17 crianças e adolescentes, a maioria integrante do grupo Geração 148 da Igreja Adventista, e da escola de danças Arabesque, ambas de Carazinho.
A gurizada escreveu seus textos inspirada em uma ilustração – a mesma ilustração que figura a capa do livro, aliás – generosamente cedida ao projeto pelo ilustrador (genial) Shiko.
Então é isso: está todo mundo convidado, e quem não for é a mulher do padre. ;)


Para saber mais sobre o selo Nascedouro, clique aqui.
Para ler o release de lançamento do livro Conte um Conto, clique aqui.
Para ler o prefácio do livro Conte um Conto, clique aqui.
Para curtir a página da Editora Os Dez Melhores no Facebook, clique aqui.

E obrigada desde já!

12 novembro 2013

Puro Título

* Crônica originalmente publicada na coletânea Colorados – Nada Vai Nos Separar (Ed. Multifoco, 2013) e na revista virtual Bar Colorado.

O primeiro jogo deu 3 a 2.
Para eles.
Dentro da nossa casa.
O Horror, O Horror!
Era a primeira partida da final do Gauchão 2011 e, após os noventa minutos iniciais, eu tentava pensar em passarinhos cantando em bosques verdejantes para tentar me acalmar.
Estava, admito, desacreditada.
Precisávamos fazer pelo menos dois gols na casa deles, e não tomar nenhum.
Era difícil, impossível negar.
A semana passou em euforia para os gremistas. Eram os campeões por antecipação. Faixas de Grêmio Campeão Gaúcho 2011 pipocavam aqui e ali; caixas de som eram levadas aos gramados para a comemoração.
No final de semana seguinte fui visitar meus pais, que moram em outra cidade. A volta, no fatídico domingo, estava marcada para as 16h. Achei bom. Pelo menos não veria, não saberia, não ouviria; estaria protegida e alienada dentro de um ônibus estrada afora.
Entramos no ônibus, eu e o marido, e nos acomodamos. Esbocei um sorrisinho. Sentia-me segura ali.
Então uma moça sentou-se no banco em frente ao nosso. Acomodou-se, puxou um radinho e começou a escutar o jogo.
Por minha vez, eu a) comecei a gritar e puxar seus cabelos histericamente ou b) ri.
Claro que eu ri; civilidade em primeiro lugar.
Também por que estava com o marido bem ao meu lado, insuportavelmente otimista, jurando que ganharíamos o jogo.
Pensei: ao menos nada haveria de ser pior do que ser obrigada a ouvir aquele jogo triste dentro de um ônibus sem ter para onde fugir.
Nunca devemos pensar isso, caro leitor.
A primeira lição que precisamos obrigatoriamente aprender sobre este mundo é que nada - e eu disse NADA - pode estar tão ruim que não possa piorar.
Porque o Grêmio fez um gol.
Sim.
Logo, precisávamos fazer pelo menos três gols.
Olhei para meu marido como quem diz ‘cadê teu Deus agora?’, enquanto escutava a moça do radinho gargantear: vamos meter um saco de gols nesses colorados.
A cretina ainda por cima era gremista!
Porém, quando os anjos fecham uma porta abrem uma janela, e logo a moça do radinho desceu, levando consigo aquele jogo desesperador.
Seguimos o restante da viagem em relativa paz.
Chegamos à rodoviária de Passo Fundo pouco antes das 17h. Estava um a um. Sorri discretamente, enquanto meu marido afirmava ‘eu disse, eu disse, nós vamos ganhar’.
Olhei-o disfarçando o sorriso, que escapava, e a esperança, que renascia fortemente, e afirmei ‘não se empolgue, ainda faltam dois gols’, tentando manter a razão soberana.
Terminei de falar e o Inter fez o segundo.
Tem horas em que eu adoro estar errada.
Intervalo, e nosso ônibus saindo.
Andamos cerca de trinta minutos e paramos no pedágio. Ouvi o motorista perguntar:
- Quanto tá o jogo?
NERVOS.
O que o sujeito do pedágio respondeu era música para os meus ouvidos:
- 3 a 1 pro Inter.
OI?
- Então ganhamos? – continuou o motorista, obviamente colorado.
Nem sei o que respondeu o outro.
Tinha de me controlar, afinal estávamos em um ônibus com velhinhas, crianças e mulheres grávidas, e, lembrem-se, a civilidade em primeiro lugar.
Olhei o relógio.
Pelos meus cálculos, faltavam uns vinte minutos para terminar o jogo, e tínhamos pelo menos uma hora de viagem pela frente.
Vinte longos minutos, que se arrastavam dolorosamente.
Meia hora depois, e aquele silêncio sepulcral no ônibus. Silêncio este que, se antes me trazia paz, agora me causava aflição.
- Por que meus pais ainda não me ligaram? – perguntei ao Alexandre, o marido otimista.
- Por que eles te ligariam?
- O jogo já deve ter terminado. E se o Inter tivesse ganhado, a primeira coisa que eles teriam feito era me telefonar.
- Bobagem, eles devem estar comemorando.
Mas não. Eu sabia que não. Jamais, em toda a minha existência, meus pais deixaram de me telefonar imediatamente ao final de um jogo vitorioso, ainda mais sabendo que eu não o assistia. E não seria hoje, justamente hoje, a primeira vez.
- Eles fizeram um gol – eu disse, como que admitindo o inadmissível.
- O Grêmio?
- Claro! Eles fizeram um gol e o jogo foi para os pênaltis. Por isso meus pais não me ligaram. O jogo não acabou. TENHO CERTEZA.
Não demorou e chegamos à rodoviária de Tapejara. Faltava meia hora para estarmos em casa. Tão logo estacionamos, o motorista literalmente se atirou para fora do ônibus. Colorado que era, também queria saber o que raios estava acontecendo.
Uma pequena multidão se aglomerava no bar da rodoviária, olhos vidrados na TV.
Pedi ao marido otimista, temerosa:
- Vai lá e vê o que está acontecendo.
Marido otimista levantou e saiu. Logo, gritos. Foguetório. Mais gritos. Comecei a entrar em pânico. Gritos e foguetório. Meus pais não ligavam. Marido nem motorista voltavam com notícias.
De repente ele, o marido otimista, entra ônibus adentro rindo.
Mandei a civilidade, as velhinhas, as crianças e as mulheres grávidas pra lá de logo ali, levantei e disse, voz hesitante:
- E aí?
Ele continuava rindo.
Sei lá, poderíamos ter perdido e ele estava tendo uma crise de pânico também.
- Ganhamos! – ele balbuciou.
- Ganhamos? Como assim ganhamos? O que aconteceu?
- Eles realmente fizeram o segundo gol, foi pros pênaltis e nós ganhamos.
Eu não acreditava.
- E por que meus pais não me ligaram ainda?
Ele ria e eu telefonava para casa.
Tudo poderia ser uma alucinação coletiva, e eu só acreditaria se ouvisse a notícia da boca de meus pais.
Minha mãe atendeu gritando palavras desconexas.
- Mãe???
- Aêêêê!
- Ganhamos, mãe?
- AAAAH!
Aí eu acreditei.
Porém, ainda tínhamos uns trinta minutos de viagem pela frente.
O motorista ia feliz, eu ia feliz, todo mundo ia feliz.
Chegamos e, claro, corri vestir o manto sagrado, peguei minhas economias e fui para a rua comemorar. Eu e o marido otimista.
Lá, tudo lindo, vermelho e vibrante.
Nunca conquistar um campeonato gaúcho foi tão gostoso. Quarenta potes de Nutella não seriam tão gostosos.
Mas o melhor ainda estava por vir.
Moro em uma cidade pequena, e o bar mais conhecido daqui é de um gremista fanático.
Nem preciso dizer que fomos reto pra lá.
Chegamos, sentamos, ele se aproximou.
Faixas de Grêmio Campeão Gaúcho 2011 voavam ao vento, caixas de som eram recolhidas em silêncio.
Um sujeito colorado, com uma barriguinha proeminente de aproximadamente dezesseis meses, se aproximou do dono do bar.
Ele, que perde o amigo, o cliente e a dignidade, mas não perde a piada, passou a mão na barriga saliente do torcedor colorado e falou:
- E essa barriga aí?
- Título. Puro título – respondeu o colorado barrigudinho.
O dono do bar, por sua vez, a) começou a gritar e puxar os cabelos do gordinho histericamente ou b) riu.
Ele riu, claro, pelo mesmo motivo que eu ri dentro do primeiro ônibus que pegamos. Ah, a civilidade.
E eu?
Ora, eu ri também.
Todos estavam rindo.
Naquele momento, todos os colorados que enchiam aquelas ruas possuíam panças proeminentes e, ao contrário de sempre, não fazíamos questão de encolhê-la, escondê-la, disfarçá-la com blusas largas.
Estávamos todos felizes com nossas barrigas salientes de aproximadamente dezesseis meses.
Não era gordura localizada nem pneuzinhos causados pelos potes de Nutella comidos na madrugada.
Era título.
Puro título.

18 outubro 2013

Cidade do Rock – 30 Anos de Rock em Carazinho/RS

Que tal o título deste post?
Pois então.
Além de título deste post, Cidade do Rock – 30 Anos de Rock em Carazinho/RS é também o título do meu próximo livro, que será lançado pela Editora Os Dez Melhores.
- Mas, Jana, você acabou de lançar O Túmulodo Ladrão!
Sim, eu sei, bêibe.
Porém, Cidade do Rock será publicado somente em 2014/2015 (quando então colocaremos fogo em Carazinho num lançamento/show regado a rock, rock e rock).
Até mesmo por que, mal iniciei a pesquisa para esta obra.
E é justamente sobre esta pesquisa que quero falar aqui: Cidade do Rock... será um livro/reportagem que contará a história de 20/30 bandas de Carazinho/RS, que estiveram ou estão em atuação, e englobará o período entre 1980 e 2013.
Já estou entrando em contato com algumas bandas da cidade que eu conheço, mas precisarei de sua ajuda, bonito amigo leitor!
Assim sendo, se você integra ou integrou uma banda de rock de Carazinho/RS, ou se conhece alguém que integra ou integrou uma banda de rock de Carazinho/RS, entre já em contato comigo através do e-mail cidadedorock@editoraosdezmelhores.com.br
Até dezembro deste ano pretendo definir os nomes destas 20/30 bandas e, tão logo isso acontecer, iniciarei a pesquisa de campo.
Esta pesquisa se dará através de entrevistas, que serão realizadas individualmente com cada membro da banda em questão.
As perguntas serão variadas, passando desde a formação e o início da banda, até músicas favoritas, influências, shows, família, dinheiro, ensaios, vizinhos, internet, divulgação.
E, claro: a santíssima trindade sexo, drogas e rock and roll.
Ou seja: vai ser divertido pra caramba.
E se você acha que não existe mais rock em Carazinho/RS, engana-se redondamente, queridinho.
No início deste mês tive a feliz oportunidade de ir à sexta edição do Carazinho Rock City, evento idealizado pelo DJ Alison Drey, e descobri, estarrecida: há esperança para a humanidade.
Música boa o tempo todo (não tocou uma que não prestasse), shows sensacionais, cerveja gelada.
Quer dizer: um lugar do caralho, praticamente.
Ali me deu o click para este projeto, e cá estou eu o colocando em prática.
Mas, para isso, preciso de ti e de tuas informações, leitor querido.
Pode ser?
Obrigada então!
Vou aguardar seu e-mail!
Até mais, bonitos, e let’s rock. ;)

12 outubro 2013

Resenha do livro Uma Carta por Benjamin.

Sim, sim, sim!
Após alguns aninhos desde o seu lançamento, Benjamin continua na atividade, firme, forte e mandando brasa!
Esta semana, o querido Allison Feitosa, editor do site Rabiscos e Fragmentos, escreveu uma resenha bem bacana sobre o meu primeiro livro, Uma Carta por Benjamin!
O texto está aqui, e eu amei fortemente!
Então acessem, leiam, e se depois quiserem um Benjamin para chamar de seu, entrem em contato através do e-mail osdezmelhores@gmail.com
Vinte e cinco pilinhas + o frete e fim de papo!
O autógrafo vai de brinde! ;)


17 Curiosidades sobre a Coleção Vaga-Lume!

Tudo começou assim: o Vilto Reis, amigo e editor do site Homo Literatus, lançou aos colunistas do site a proposta de escrever um texto sobre nossa amada, idolatrada, salve, salve, coleção Vaga-Lume.
- Quem se habilita? – disse Vilto.
Claro que eu pulei na frente de todos gritando histericamente “EU”, “EU”, “EU”!
Por que, né?
MUITO AMOR pela coleção Vaga-Lume.
Então pesquisei, descobri um monte de informações bacanas, e reuni tudo neste post aqui: 17 Curiosidades Sobre a Coleção Vaga-Lume.
Acessem, mergulhem na nostalgia sem tanque de oxigênio, e depois me contem, ali nos comentários, qual o seu livro favorito da coleção Vaga-Lume.
O meu é O Escaravelho do Diabo, da linda Lúcia Machado de Almeida.
E o teu?

29 setembro 2013

Homo Literatus

E eu, sequela que sou, esqueci completamente de comentar aqui no blog que sou a mais nova e feliz colunista do site Homo Literatus.
Quinzenalmente publicarei um texto no site falando sobre o que mais amamos!
Não, não é sobre brigadeiro nem bolo de chocolate, seus esfomeados!
É sobre literatura! :)
Já temos duas crônicas minhas no ar:
e
Acessem, leiam, comentem e, se sobrar um tempinho, curtam a página do Homo Literatus no Facebook também.
Como diz meu amigo Felipe Faé, um copo d’água e uma curtidinha não se nega a ninguém.
Obrigada, bonitos.

25 setembro 2013

Eles estão pensando em nós

Texto publicado no jornal Folha de Sananduva em junho de 2013.

Não tenho receio nenhum de afirmar que as páginas que o Brasil está escrevendo, desde o dia 17 de junho de 2013, serão estudadas pelos meus filhos e netos na escola.
E eu terei muito orgulho de dizer para eles que fiz parte desta história.
Que ajudei a escrevê-la.
Uma história onde um povo bovinamente pacífico, entorpecido em meio a samba, futebol e novela do Manoel Carlos, inesperadamente acorda. E acorda irritado.
Ao contrário das formigas – que só não dominaram o mundo por que não conhecem sua força coletiva – o povo brasileiro parece que descobriu que é o patrão, e não o capataz.
Por conta disso, neste exato momento nossos governantes e seus asseclas estão pensando em nós.
E estão confusos pensando em nós.
Estão BORRADOS ATÉ AS MEIAS pensando em nós.
E isso é sensacional!
O movimento #vemprarua serviu para mostrar aos políticos que, ao contrário do que imaginavam, o povo sabe sim que com Copa e Big Brother não se faz uma nação.
Sananduva, bem como o resto do país, também foi pra rua.
E eu fui pra rua com Sananduva.
Estima-se que havia cerca de 300 pessoas na manifestação, que foi totalmente pacífica e incrível.
Havia também muitas crianças e adolescentes, e muito adulto, avô, pai, mãe, tia, professor. Negócio bonito de se ver!
Alguns manifestantes reclamaram que havia pouca gente, que muitos não apareceram.
Eu nem reparei.
Só vi que 300 pessoas apareceram, e foram 300 pessoas em Sananduva, 6 mil em Passo Fundo, 800 em Carazinho, 3 mil em Erechim, 65 mil em Belo Horizonte, 2 mil em Sertãozinho, 10 mil em Porto Alegre, 500 em Madri, 30 mil em Brasília, 100 mil em Recife, 2 mil em Londres, 300 mil no Rio de Janeiro. E segue a lista.
Juntos, somos muitos.
E muitos, juntos, são fortes.
E somente juntos e fortes vamos construir um Brasil melhor e mais decente para todos nós, e para nossos filhos, e nossos netos.
É, aliás, esta a história que eu gostaria que os nossos filhos e netos estudassem na escola: sobre o dia em que um povo entorpecido e bovinamente pacífico descobriu que só é forte quando está unido (não contem isso para as formigas!); tirou o sono e o sossego de uma corja que transformou nosso país em um covil, e tornou o Brasil um lugar mais vibrante e menos triste de se viver.


29 agosto 2013

Geniais e Geniosos

Tudo começou assim: um amigo, também escritor, compartilhou no Facebook o link de uma matéria sobre Raphael Draccon, autor da saga Dragões de Éter (que vendeu 200 mil exemplares) e diretor do selo Fantasy, da Editora Casa da Palavra. Leia a matéria aqui.
Resumindo, nesta matéria o Raphael decreta o fim da era dos escritores introspectivos, e afirma que o autor que pretende conquistar seu espaço e público leitor precisa participar de feiras, eventos, oficinas, palestras, tudo o que puder aproximá-lo do leitor. Relembrou a importância da internet para se criar este público leitor, inclusive antes de procurar por uma editora – até para que exista algum público interessado em comprar seu livro, caso ele seja lançado.
Enquanto editor, disse que ‘faz uma varredura’ nos perfis de seus candidatos a autores, e que se encontrar algum post ‘falando mal de outro autor ou comprando briga na internet’, o autor é descartado na hora. Independente da qualidade de sua obra, subentende-se.
Este meu amigo escritor, que postou o link, discordava de Raphael.
Eu resolvi ler a matéria, e concordei com praticamente tudo o que dizia o mesmo Raphael.
Então fiz o que todo mundo faz: postei o link da entrevista na minha linha do tempo no Facebook.
E pelo jeito o pessoal que viu meu post teve a mesma opinião que o meu amigo, que postou o link primeiramente.
O pessoal não só discordou (100% dos comentários), como chamou o Raphael de ‘ridículo’ e ‘babaca’, entre outras colocações amigáveis.
Eu fiquei meio que chocada, sabe?
Digo isso por que vejo muitos caras, que escrevem pra caramba e que poderiam se dar muito bem enquanto escritores e promotores de literatura, se perderem por conta de posturas que estão muito mais ligadas ao que eles gostariam que fosse, do que ao que de fato é.
Uma das recorrentes questões levantadas é uma espécie de ‘prostituição’, ao qual o escritor se submeteria em relação ao ‘mercado editorial’. Marketing barato. A "lucianohuckanização" da literatura.
Ok, ok. Vamos refletir.
Primeiro: não compreendo por que você buscar um público-alvo, e manter uma comunicação direta com este público, seja através da internet, seja pessoalmente, ou ambas as coisas, seja ‘se prostituir’.
Definir um público-alvo é fundamental em qualquer projeto que se pretenda bem-sucedido (caso contrário você atira para todos os lados e não acerta ninguém).
- Ah, mas minha literatura não é um projeto! É arte, é amor, é dedicação, é um sonho, blábláblá.
Então, cara, se você trata sua literatura como um sonho, é como um sonho que ela permanecerá.
Escrever, ser escritor, é um trabalho como outro qualquer. Essa ideia de escritor na frente de uma Olivetti fumando cigarro e tomando café já era, amigo!
Se você quiser ficar na frente de uma Olivetti fumando cigarro, tomando café e escrevendo loucamente, tudo bem. Mas aí não queira fazer da literatura sua profissão. Trate-a como o que de fato ela é: um hobbie.
Dou um exemplo bem prático, mas que costuma ferir o coração de alguns escritores mais sensíveis: você vai abrir uma loja de roupas.
Então você pensa:

Abrir uma loja de roupas sempre foi meu sonho. Desde criancinha eu sonhava em abrir uma loja de roupas. Como é meu sonho de infância, não devo me preocupar, pois entendo tudo sobre loja de roupas. Minha loja de roupas será para todas as pessoas, de todas as idades, todas as cidades, todas as classes sociais! Abrirei as portas de minha loja de roupas, e esperarei os clientes fazerem fila na porta.

Aí o cara abre as portas da maldita loja de roupas e o que acontece?
Pois é.
Ocorre o mesmo com o escritor que se comporta desta maneira delirantemente romântica!
Se quiser abrir uma loja de roupas, e quiser que ela cresça e apareça e se fortaleça, e lhe traga lucros e reconhecimento, trate sua loja de roupas como um trabalho, e não como uma diversão, não como um sonho de infância.
Caso contrário, NÃO ABRA UMA LOJA DE ROUPAS! Ou você só terá prejuízos, frustrações e dores de cabeça.
Se quiser publicar, e participar de Bienais, e vender 200 mil exemplares de seu livro, e ser convidado para o programa do Jô (admita, é o seu sonho!), vai à luta, companheiro.
Mas se não quiser. Se quiser somente escrever e escrever, visceralmente, e publicar uma vez por ano um livro com tiragem de 30 exemplares, vender 9 livros para sua mãe e suas tias e devolver o resto para a editora, tudo bem.
Se quiser ter ‘liberdade, e não se vender para um mercado editorial falido e injusto, malvado e explorador’, tudo bem.
TUDO BEM MESMO.
É uma escolha.
Se preferir nunca publicar, por que o mundo é cruel, estúpido e sem coração, não publique.
É um direito seu.
Mas saiba que, seja lá o que você escolher, isso terá uma consequência. Então, aceite-a também.
Outro ponto levantado pelo pessoal que acha o Raphael um babaca ridículo foi a questão da qualidade das obras. Segundo entendi, o marketing enfia goela abaixo muito lixo literário, enquanto excelentes escritores ficam de fora.
Olha, pode ser. Apesar de que o conceito de literatura boa e literatura ruim seja um tanto relativo. Tem gente que lê Dan Brown e ama. E tem gente que lê Charles Bukowski e odeia. Isso é gosto, fazer o que?
Mas, de tudo isso, desprezar livros Best Sellers é o que mais me deixa alvorotada.
Vejam bem: eu não sou uma entusiasta do Best Seller. Confesso que não leio nenhum, mais por falta de tempo do que de vontade. Mas daí você não respeitar um sujeito que vendeu 200 mil, um milhão, dez milhões de exemplares de seu livro, ah! Tenha dó. 
Sabem para que serve o Best Seller, bonitos?
Pra gente que nunca leu, ler pela primeira vez. Estão entendendo? TEM GENTE QUE NUNCA LEU NADA NA VIDA, e lê o Best Seller por que a irmã, que também nunca leu nada na vida, leu e gostou.
Sabem quantas pessoas leram, por exemplo, 50 Tons de Cinza, e antes disto nunca haviam lido nada, nem horóscopo de jornal?
A maior dificuldade é fazer o cara que não lê ler o primeiro livro. E para isso o Best Seller serve muito bem.
Quantas pessoas, depois de lerem o Dan Brown, leram 50 Tons de Cinza, e lerão o próximo Best Seller, até um dia se tornarem leitores frequentes?
Se você não quer ler Best Sellers, não leia. Mas não despreze a importância que eles possuem – uma importância quase social.
Ademais, JURA que você, caro autor, não queria seu livro na lista dos dez mais vendidos da Veja (a revista ‘mais capitalista filha da puta do universo’)?
Me engana que eu gosto.
Enfim.
O resumo desta ópera é o seguinte: se não quiser estabelecer um público-alvo para sua literatura; se quiser somente escrever, e mais nada; se a escrita, para você, não é um trabalho, é uma diversão, uma válvula de escape; saiba que as chances de conseguir vender 200 mil exemplares são bem, bem pequenas.
Se você considera um sujeito que vendeu 200 mil livros no Brasil, e é editor de um selo respeitável, um babaca ridículo, tudo bem.
Se você acha que, só por que ele vendeu 200 mil exemplares sua literatura não tem qualidade (oi?), ou seu público (os adolescentes) não é exigente, cara, você não tem ideia do que está falando.
Mas tudo bem.
Cada um acredita no que prefere acreditar.
Só sei que eu sou escritora também, e já trabalhei como editora, tanto para uma editora de livros quanto para sites, e posso dizer com toda a certeza que muitos escritores talentosos perdem espaço para escritores medianos, mas que são mais profissionais no tratar de sua literatura.
Digo e repito, há anos: TALENTO NÃO É TUDO.
O ideal é encontrar um escritor talentoso e profissional, mas nem sempre acontece.
Aí o cara escreve super bem, é muito habilidoso e genial, pede para sua editora imprimir 30 livros e – pasmem! – não consegue vender os 30 livros que pediu!
Desculpa, mas o que vocês querem que a editora faça? Se você, que é o autor, não achou 30 leitores para comprar o seu livro, quer que a editora faça o quê? Um milagre?
- Que divulgue – dirão, em coro.
Mas divulgação custa caro, amigo! Muito caro, aliás. E ninguém vai investir em um autor desconhecido, que não tem 20 seguidores no seu blog, para ‘ver o que acontece’.
E vou além: então a editora pode e deve divulgar o autor, mas o autor não pode e não deve divulgar SEU PRÓPRIO TRABALHO?
A vida não é um filme da Disney, caso não tenham percebido.
O que nos leva para a última questão levantada pelo Raphael, e que gerou controvérsias na geral: ele disse que, enquanto editor, faz uma varredura nos perfis sociais de seus potenciais autores. Galera achou isso maior invasão de privacidade, muito constrangedor.
É sério, gente?
Vocês não sabiam que empresas costumam literalmente bisbilhotar nos perfis de seus empregados, e candidatos a empregados, para ver o que fazem, o que pensam, o que gostam e o que não gostam? Para, inclusive, avaliar se o perfil do sujeito fecha com o perfil da empresa? Por isso mesmo que não é uma boa ideia postar uma foto bêbada sem roupa em cima de uma mesa se o teu chefe é um dos teus seguidores.
O mesmo acontece em uma editora.
Sim, por que uma editora – veja só que surpresa! – é uma empresa como outra qualquer. Não é uma Fantástica Fábrica de Literatura, como alguns parecem imaginar. 
Além do mais, a editora precisa saber se o candidato a escritor possui um público-alvo, se o seu livro tem potencial para vender, como o autor interage e atua nas suas redes sociais.
E dependendo do que a editora ver, poderá inclusive apostar e investir em você e em seu livro.
Capiche?
Mas, como disse, o mundo se divide entre aqueles que trabalham com o que é, e aqueles que trabalham com o que gostariam que fosse.
Entre aqueles que buscam aprender com os que já percorreram os caminhos que você está começando a percorrer, e aqueles que só fazem reclamar por que o mundo não é um bolinho com glacê, como imaginavam.
E independente do que você pense, no que acredita, se concorda ou não, é assim que é.
Se vai mudar no futuro? Ora, por que não?
Sempre sugiro que, ao invés de somente reclamar, por que não fazer acontecer?
Se não confia nas editoras, publique por conta própria, ou abra uma editora nos moldes que acredita serem os corretos.
Se acha o mercado filho da puta, não participe dele.
Se mantendo esta postura você vender 200 mil exemplares – independente da qualidade e da genialidade de sua obra – por favor, me ligue e me conte o segredo.
Até lá, saiba que de escritores geniais e geniosos o mercado está saturado.
Precisamos de escritores que falem menos e façam mais. Que sejam talentosos, sim, mas que sejam também (e principalmente) profissionais e comprometidos.
Ok. Tendo NOÇÃO DE REALIDADE já está de bom tamanho.
Mas se você não concorda com este status quo, que busque alternativas para mudá-lo.
Ficar em casa na internet vomitando opiniões embasadas em nada, além de achismos e sonhos de infância, não colaborará para que seu livro chegue às mãos de mais leitores.
Mas caso isso aconteça, lembre-se: me liga.

OBS.: Esqueci de incluir no texto uma questão relevante. Como você deve ter percebido, o título da matéria sobre o Raphael Draccon é “Rubem Fonseca, hoje, não seria publicado”. A galera ficou altamente histérica com esta afirmação. Mas vamos contextualizar a frase do cara nesta reportagem: Raphael dizia que o autor recluso tem poucas chances de se dar bem no mercado literário atual. O Rubem, como todos sabem, não sai de casa nem para comprar pão na padaria, que dirá comparecer em feiras e eventos, ou se aproximar de seus leitores. Manter contato com o leitor, seja pessoal, seja virtualmente, é algo que Rubem definitivamente não faz. Se HOJE Rubem fosse um autor jovem e desconhecido, possivelmente teria dificuldades para publicar, ou, ao menos, para vender sua obra.  Não por que não sabe escrever; não por que sua literatura não tem qualidade. Mas por que não sabe (e não quer) se relacionar com seus leitores. Existem por aí milhares de Rubem Fonseca (em talento e em comportamento), que não encontrarão seu espaço embaixo deste sol chamado literatura por causa de sua postura fechada e reclusa. Rubem Fonseca, assim como dezenas de outros escritores ‘das antigas’, surgiu e se consagrou em outros tempos. Tempos em que ser escritor não era cool e nem cult – muito pelo contrário. Tempos em que não havia internet e redes sociais. Tempos em que não existiam 982 editoras por metro quadrado lançando bilhões de autores todos os dias, misturando bons e maus escritores em um mesmo balaio.
É só isso. Então menos, gente. BEM MENOS.