28 dezembro 2012

Querido 2012.

Escrevo para me despedir.
Não, eu não vou embora. Quem vai é você. O que não significa que nossa relação não tenha dado certo; muito pelo contrário. Somente precisa ser assim, por que é assim que é.
Mas escrevo, pois gostaria de dizer algumas palavras para você. Palavras de despedida e de agradecimento.
Sim, de agradecimento também.
Afinal você, 2012, foi um ano muito bacana para mim.
Foi em 2012 que voei pela primeira vez de avião, e sozinha, indo para o Rio de Janeiro, lugar que – aliás – nunca havia visto mais gordo em minha vida. Cheguei e, 20 minutos depois, fui recepcionada por este amigável cartaz:
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"Você merece o inferno".
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E então tudo fez sentido. :)
Em 2012 eu também comecei a trabalhar na Multifoco, como editora.
E, sério: nada poderia ter sido mais feliz.
Minha vida estava tomando um rumo muito diferente do qual eu havia imaginado e desejado, e a literatura se afastava cada vez mais e mais.
A Multifoco a trouxe de volta, e não há jeito de agradecer por isso.
Foi, inclusive, por causa da Multifoco que voei pela primeira vez de avião, e obtive a surpreendente informação de que eu mereço o inferno.

Durante estes 365 dias, algumas casas caíram na cabeça de algumas pessoas que usavam máscaras que também caíram.
2012: você talvez tenha sido o ano em que isso mais aconteceu.
Será que o fim, previsto pelos Maias, era o fim do baile de máscaras, e não o fim de todos nós?
Pode ser.
Afinal, existem pessoas atrás destas máscaras, não existem?
Existem sim, e agora que as luzes se acenderam e a festa terminou, todos teremos que olhar nossa cara como ela realmente é – porque as nossas máscaras, aquelas que eu e você, caro leitor, usávamos, também caíram. E se ainda não caíram, cairão em breve.
Ou seja: estamos todos nus.
Isso parece ruim num primeiro momento, mas não é.
Enfim.
O fato é que, por conta da viagem de avião, da informação sobre o inferno e do trabalho na Multifoco, precisei reorganizar minha vida. Na verdade organizá-la, isso sim, pela primeira vez. Confesso que nunca fui uma pessoa com horários para sair e para chegar, compromissos para cumprir, metas para alcançar e planilhas para preencher, e nem nada que tenha exercitado de maneira razoável minha responsabilidade.
Assim, 2012, você foi o primeiro ano em minha vida que usei, de verdade, uma agenda.
E com a agenda cheia de coisas para fazer, precisei tratar de fazê-las, e assim deixei de ter tempo livre para pensar besteiras e desenvolver rancores e síndromes de pânico.
Obrigada, 2012.
Você, além de tudo, foi um ano que refrescou minha cabeça. Apesar de estar distante do ideal, durante sua passagem eu consegui me tornar um pouco mais paciente e tolerante do que era no longínquo 2011.
Ok, não sejamos tão otimistas.
Me tornei 0,1 por cento mais paciente e tolerante, mas é melhor que nada.
Né?
Também tivemos momentos difíceis, meu amigo 2012.
Você não foi nada gentil com meu time, o Internacional. Poderia ter sido tudo melhor, mas não reclamarei. O seu cuidado em não ter sido um ano gentil com o coirmão compensou a minha frustração colorada.
Ademais, fico somente torcendo para que esse tal de ano novo que vem aí, chamado 2013, seja legal como você foi.
E eu espero ser legal para ele também.
Prometo colaborar de todas as formas para que tenhamos uma boa relação, eu e 2013, e espero que todo mundo faça o mesmo, pois isso facilitaria muito as coisas.
Porém não esquecerei de ti, prezado 2012.
E nem que quisesse poderia.
Todos os anos que passam, como você passa agora, se transformam em qualquer negócio que a gente leva junto, para sempre. Não se termina um ano do mesmo jeito no qual se entrou nele. E o que importa, no final das contas, é que tenhamos saído melhores.
Se não muito melhores, pelo menos um pouco melhores.
Se não um pouco melhores, que seja menos piores.
Creio que é assim que se transforma o mundo em um lugar mais decente e suportável para se viver. Começa em cada um e reflete-se no todo.
Pelo menos foi o que eu entendi do que você explicou, 2012.
Então tchau.

Com amor,
Jana.

02 dezembro 2012

Imagine a cena:

O mocinho, no porto, vê o navio partir. A mocinha, no navio, vê o mocinho ficar distante. Ambos levantam suas mãos, um em direção ao outro, na vã expectativa de alcançar, através do ar, aquele que fica para trás.
Mesmo assim o navio segue, ficando cada vez menor aos olhos do mocinho; ao mesmo tempo, o porto vai ficando lá longe, e para a mocinha o mocinho não passa de um pequenino ponto no meio da imensidão.
Certamente você está agora mesmo retirando seu lenço do bolso para enxugar as lágrimas de emoção, correto? E isso que eu nem falei do pôr do sol e dos violinos tocando.
Esta cena clichê, que solicitei ao prezado leitor ou leitora deste blog imaginar, sou eu e a literatura – apesar de que, de mocinha e mocinho, nós duas não temos nada.
E ela – a literatura – não é a literatura como um todo.
É a minha literatura.
Estou muito um pouco tensa com o fato de estar enfrentando dificuldades realmente abissais para escrever. Atividade que sempre foi tão rotineira quanto escovar os dentes e dormir de barriga pra baixo, agora virou um problema.
E isso é grave.
Mas eu sabia que ia acontecer.
Quando disse cheeegaaaa! pra minha literatura, e fui atrás de arrumar um emprego, ter um salário e viver com dignidade, sabia que ela estava embarcando num navio que, em breve, zarparia.
No entanto, por favor, leitor, não veja este texto como um texto de lamentações!
Não quero fazer um drama, apesar da cena dramática do navio. Todavia, a verdade é que minha atividade, até dois anos atrás, era escrever – SÓ escrever. Eu não tinha um puto no bolso e fumava um cigarro chamado Kênia, mas me dedicava única e exclusivamente a escrever, e a reclamar que não tinha um puto no bolso e fumava Kênia.
Só que escrevia. E escrevia muito.
Agora não.
E não pensem que é por falta de esforço!
Devo ter aqui, salvo em meu computador, pelo menos uns 10 textos que comecei e simplesmente não consegui terminar. Travei no segundo parágrafo, na segunda linha, na segunda palavra.
Não os deletei; estão aqui ainda.
Mas sei que não serão acabados, pois não sei como acabar.
Este texto mesmo, que agora escrevo.
Se você está o lendo, é por que ele foi publicado em meu blog.
E se ele foi publicado em meu blog, é por que eu consegui chegar ao ponto final.
E isso terá sido sensacional, e por isso eu abrirei um champanhe hoje de noite.
Por que é bem estranho não fazer algo que sempre foi natural para você fazer, e justamente por isso você sempre fez.
Apesar de que – devo admitir! – achei que seria pior.
Na época em que escrevia e fumava Kênia e reclamava, imaginava que morreria, sei lá, sufocada e louca, se parasse de escrever. E nem é assim. Também não tem pôr do sol e violinos tocando. É tudo normal, só que existe um desconforto, uma sensação de abstinência, de vazio, de fome. Não sei explicar.
A vida continua, mas falta um pedaço.
O que devo fazer, então?
Ora, me organizar, é claro. Eu sei disso, e também estou tentando, com o mesmo sucesso com que concluo os textos que escrevi recentemente.
Mas, se eu me organizar;
Se, ao invés de ficar parada no porto igual um poste, abanando para um navio que eu nem enxergo mais;
Se, ao invés disso, eu pular na água e for atrás do navio;
Se eu alugar uma lancha e for atrás do navio;
Ou quem sabe se eu procurar saber para que raios de lugar vai aquela embarcação, e for atrás do bendito navio, existe alguma chance de dar certo.
Caso contrário, não.
Devemos ter cuidado para não deixar pelo caminho tudo aquilo que faz sentido pra gente. Penso que esta deve ser a receita certa e infalível para nos transformarmos em alguém rabugento, amargo e infeliz, e não queremos isso.
Eu, pelo menos, não quero.
Então, Literatura, me aguarde.
Eu estou indo atrás do navio.